ESCRITORES

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Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus

  

Mulher negra, mãe solteira, semianalfabeta e favelada, semelhante à tantas outras que engordam as estatísticas da desigualdade social no Brasil. Uma escritora única, cujo olhar aguçado conduz uma narrativa forte e dolorosa que chama a atenção para a condição humana. Carolina Maria de Jesus é autora, entre outros, de Quarto de Despejo, fenômeno editorial do início da década de 1960. O livro, traduzido em 13 idiomas, publicado em mais de 40 países - cuja primeira edição, de 30 mil exemplares, esgotou em apenas três dias - vendeu mais de 1 milhão de cópias.
Carolina nasceu em 1914, na cidade mineira de Sacramento. Lá a escritora teve acesso a toda a edução formal recebida em sua vida, que se resumiu a dois anos de escola primária. De Minas Gerais, migrou para São Paulo, onde trabalhou como doméstica e, posteriormente, como catadora de papel. Estabeleceu-se na favela Canindé, às margens do rio Tietê, uma das primeiras comunidades a se aproximar do centro da capital paulista. E foi ali descoberta pelo jornalista Audálio Dantas.
Autodidata, amante dos livros e da escrita, Carolina registrava o seu cotidiano em cadernos que recolhia do lixo. Nos mais de 30 diários que escreveu, a autora agregava às anotações pessoais observações sobre a favela, o descaso, os contrastes entre o centro e a periferia, a política, etc. Seu relato - que tem início em 15 de julho de 1955 e se encerra em 1 de janeiro de 1960 - deu corpo a Quarto de Despejo, sua obra mais conhecida. O texto é marcado por uma ironia aberta beirando o sarcasmo, pela consciência das condições política e social que determinam as estruturas de miserabilidade, por uma ambiguidade sofrida em relação à condição do negro e por um diálogo acalorado com o discurso "culto".

Clarice Lispector com Carolina Maria de Jesus no
lançamento do livro em 1960.
[foto do acervo de Paulo Gurgel Valente]
O livro, um documento inestimável da situação de marginalização em um grande centro urbano, dialoga com obras como A Geografia da Fome, de Josué de Castro, ao mesmo tempo em que mantém um valor literário incontestável por sua intensidade narrativa, por seus grandes momentos metafóricos e pelo lirismo cru. Os diários, organizados por Audálio Dantas, sofreram algumas alterações e cortes, até que se chegasse ao produto final. Manteve-se, no entanto, a dicção da autora, sua fluidez, seu léxico, seu "português gostoso" "na língua errada do povo, língua certa do povo", como falava o poeta Manuel Bandeira.
[Por Micheliny Verunschk, na revista Discutindo Literatura, Edição-14]




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