ESCRITORES

ESCRITORES
Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens

Uma Canção à Língua Portuguesa - Caetano Veloso



Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
[– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nega?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!]
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem



Caetano Veloso - Livros são objetos transcendentes que podem lançar mundos no mundo




Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas

(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras

Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas

Na canção Triste Bahia, Caetano Veloso relembra-nos um belíssimo poema de Gregório de Matos

Caetano Veloso é daqueles artistas que envelhecem da melhor maneira: aprimorando a sua arte. Suas interpretações recentes de antigas gravações mostram que ele não parou no tempo, se reinventando e, ao mesmo tempo, mantendo-se instigante, perturbador, provocador com arte. De quebra relembra-nos um belíssimo poema de Gregório de Matos mesclado a versos doces e nostálgicos.
 

Compositores: Caetano Veloso / Gregório de Mattos
Triste Bahia! Oh quão dessemelhante
Estás, e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

Triste Bahia! Oh quão dessemelhante

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim vem me trocando, e tem trocado
Tanto negócio, e tanto negociante.
Triste, oh, quão dessemelhante, triste
Pastinha já foi à África
Pastinha já foi à África
Pra mostrar capoeira do Brasil
Eu já vivo tão cansado
De viver aqui na Terra
Minha mãe, eu vou pra lua
Eu mais a minha mulher
Vamos fazer um ranchinho
Tudo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua
E seja o que Deus quiser

Triste, oh, quão dessemelhante
Ê, ô, galo canta
O galo cantou, camará
Ê, cocorocô, ê cocorocô, camará
Ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará
Ê, pelo mundo afora, ê pelo mundo afora camará
Ê, triste Bahia, ê, triste Bahia, camará
Bandeira branca enfiada em pau forte
Afoxé leî, leî, leô
Bandeira branca, bandeira branca enfiada em pau forte
O vapor da cachoeira não navega mais no mar
Triste Recôncavo, oh, quão dessemelhante
Maria pé no mato é hora
Arriba a saia e vamo-nos embora
Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vai embora
Oh, virgem mãe puríssima
Bandeira branca enfiada em pau forte
Trago no peito a estrela do norte
Bandeira branca enfiada em pau forte
Bandeira...

Elegia, Uma canção ao leito da mulher amada





John Donne (1572-1631), poeta metafísico e teólogo anglicano, tornou-se famoso por causa de seus sermões. Mas, além da obra sacra, escreveu poemas de caráter acentuadamente erótico - um dos mais conhecidos é "Elegy-XIX". Em 1979, o poema foi adaptado por Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos, transformando-se na belíssima música Elegia, que Caetano Veloso gravou e incluiu no álbum [Cinema Transcendental]

Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz, se um homem só a conquista

Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo

(Como a alma sem corpo) sem vestes.
Como encadernação vistosa,
Feita para iletrados, a mulher se enfeita

Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la.
Eu sou um que sabe.
Um, um ...
Leia o poema completo, tradução de Augusto de Campos, em:

John Donne, Vida &Obra: [John Donne-1], [John Donne-2]

A revolução socioestética promovida pelo Tropicalismo

"Um dos maiores movimentos artísticos do Brasil ganha vida nesse documentário. Numa época em que a liberdade de expressão perdia força, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Gal Costa, Arnaldo Baptista, Rita Lee, Tom Zé, entre outros, misturaram desde velhas tradições populares a muitas das novidades artísticas ocorridas pelo mundo e criaram o Tropicalismo, abalando as estruturas da sociedade brasileira e influenciando a várias gerações. Com depoimentos reveladores, raras imagens de arquivo e embalado pelas mais belas canções do período, "Tropicália" nos dá um panorama definitivo de um dos mais fascinantes movimentos culturais do Brasil."


Assista ao documentário completo, acessando: [www.youtube.com/watch?v=ZVyo5i7yqU8]
"A Tropicália mudou definitivamente nossa sensibilidade e mentalidade estética, política e comportamental, derrubando “as prateleiras, as estantes, as vidraças” entre o urbano e o rural, o interior e o litoral, o bom e o mau gosto, o popular e a vanguarda, o chiclete e a banana, o chique e o kitsch, o berimbau e a guitarra, o bangue-bangue e o tamborim, as raízes e as antenas, o luxo e o lixo (como no emblemático poema de Augusto de Campos, com todas as variantes positivas e negativas que podem sugerir as duas palavras, e os atritos entre elas).
Com uma lúcida compreensão da múltipla realidade brasileira, deu expressão às diversas vozes que a compõem, sem descaracterizá-las ou satirizá-las, sem esconder seus contrastes ou hierarquizá-las, mas criando condições para que elas aflorassem numa linguagem vigorosa, através de procedimentos (a colagem, a mistura, as fusões rítmicas e vocabulares, o construtivismo formal e a surpreendente espontaneidade) que as punham em situações inéditas de conexão ou confronto.
Batman e macumba, iê-iê e obá, viraram um amálgama sonoro-semântico (ou verbivocovisual, na expressão dos concretos), que rompia as fronteiras de preconceitos muito arraigados, inaugurando a possibilidade da convivência, sem traumas, de valores até então inconciliáveis.
A partir desse limite (ápice) não havia mais volta. A cultura plural, cosmopolita e libertária se instituiu como uma realidade palpável, abrindo caminho para novas experiências poético-musicais, que se desdobraram em várias outras linguagens." Arnaldo Antunes
[...] 
Continue a leitura, em: [tropicalia.com.br/livro/#close]



Documentário - Tropicália (2012)

Caetano Veloso & Gilberto Gil - Entre a canção e o cinema





Compreender um texto significa ter acesso às formas de construção de sentidos por ele articuladas. A bela canção Cinema Novo, de Caetano Veloso e Gilberto Gil (Tropicália II, 1993), é um trabalho difícil de ser compreendido na medida em que o texto poético foi tecido a partir de citações verbais e musicais, que dependem do conhecimento prévio do leitor ou de uma pesquisa minuciosa. O conjunto de citações, criativamente organizadas do ponto de vista da sonoridade, da sintaxe e da semântica, constitui uma narrativa poética coesa e estruturada, da qual muitas vozes participam para compor e fazer desfilar, em ritmo de samba que tem um enredo, sem ser samba-enredo, um rico panorama estético, histórico e social brasileiro. Uma sequência de cenas cantadas.
Letra e música se oferecem como duas vozes em harmoniosa tensão que, ao instaurar outras vozes estéticas, sociais, culturais, reconstituem uma fatia da história do país, constroem e produzem sentidos, sugestões sobre a produtiva articulação estética/política. Seria possível afirmar que estamos diante de um texto polifônico, com vozes que se harmonizam para concretizar a história a ser contada/cantada/vista. Essa heterogeneidade, coro harmonioso de vozes e imagens, é uma forma criativa de o compositor expor sua posição e fazer uma homenagem, instaurando vozes para construir sua fala em resposta a discursos que circulam sobre os movimentos estéticos abordados.
É necessário aproximar-se da materialidade verbo-musical da canção, aqui abordada enquanto letra, observando suas estratégias linguísticas, estéticas, os discursos que aí circulam e os sujeitos que a constituem e por ela são constituídos. Vamos ouvir/olhar a canção de perto, com lupa, desfrutando suas belezas, sua capacidade de instaurar o mundo, por meio de astúcias linguísticas, textuais, estéticas.
[Por Beth Brait, livre-docente da PUC-SP e da USP, autora, entre outros, de Ironia em Perspectiva Polifônica na Revista Língua Portuguesa - Edição 61]

Veja interpretação completa da letra, acessando: [Revista Língua Portuguesa]

"Alguma coisa está fora da ordem" - Caetano Veloso





Vapor Barato, um mero serviçal do narcotráfico, 
Foi encontrado na ruína de uma escola em construção 
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína 
Tudo é menino e menina no olho da rua 
O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua 
Nada continua 
E o cano da pistola que as crianças mordem 
Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito 
mais bonita e 
muito mais intensa do que um cartão postal 
Alguma coisa está fora da ordem 
Fora da nova ordem mundial 
Escuras coxas duras tuas duas de acrobata mulata, 
Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis 
Te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe 
ou desce a rampa 
Alguma coisa em nossa transa é quase luz forte demais 
Parece pôr tudo à prova, parece fogo, parece, parece paz 
Parece paz 
Pletora de alegria, um show de Jorge Benjor dentro de nós 
É muito, é grande, é total 
Alguma coisa está fora da ordem 
Fora da nova ordem mundial 
Meu canto esconde-se como um bando de ianomâmis 
na floresta 
Na minha testa caem, vêm colar-se plumas de um velho cocar 
Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano 
Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon 
Mas retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon 
Eu sei o que é bom 
Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem 
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final 
Alguma coisa está fora da ordem 
Fora da nova ordem mundial

Percepções do tempo na literatura musical de Caetano Veloso

[...Terra, Terra
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
De onde nem tempo nem espaço
Que a força mande coragem
Pra gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas no nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne
Terra, Terra
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...]
Caetano Veloso - Música, Terra

Vídeos: [Oração ao Tempo], [Cajuína], [Trilhos Urbanos], [Terra]

Oração ao Tempo
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Cajuína
Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

Trilhos urbanos
O melhor o tempo esconde
Longe muito longe
Mas bem dentro aqui
Quando o bonde dava volta ali
No cais de Araújo Pinho
Tamarindeirinho
Nunca me esqueci
Onde o imperador fez xixi

Cana doce, Santo Amaro
Gosto muito raro
Trago em mim por ti
E uma estrela sempre a luzir
Bonde da Trilhos Urbanos
Vão passando os anos
E eu não te perdi
Meu trabalho é te traduzir

Rua da Matriz ao Conde
No trole ou no bonde
Tudo é bom de ver
São Popó do Maculelê
Mas aquela curva aberta
Aquela coisa certa
Não dá pra entender
O Apolo e o Rio Subaé

Pena de pavão de Krishna
Maravilha vixe Maria mãe de Deus
Será que esses olhos são meus?
Cinema transcendental
Trilhos Urbanos
Gal cantando o Balancê
Como eu sei lembrar de você
Letras das músicas e textos extraídos do site: [www.caetanoveloso.com.br]


Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia...

Hoje, amanheci com muita saudade de minhas origens. Com isso, reproduzi uma das minhas primeiras postagens no blog sobre a região onde nasci no norte da Bahia, a belíssima região são-franciscana.

VÍDEOS: [O ciúme]-Gal e Caetano, [Petrolina-Juazeiro]-Elba e Geraldo Azevedo

Caetano Veloso - O ciúme
Composição: Caetano Veloso

Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta e se viu ferido justo
na garganta
Quem nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico, vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti
Não me ensinas
E eu sou só eu só eu só eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê?

Tanta gente canta
Tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira monstruosa
A sombra do ciúme





Veja Belas Imagens: [Juazeiro]-Bahia, [Petrolina]-Pernambuco

Gal Costa - Vaca Profana

Uma verdadeira ode à Espanha, mais específico à Catalunha. Intensa, visceral, regi­stra a ascensão do movimento New Wave [Nova Onda], o cubismo de Picasso, o pianista Thelonius Monk, o arquiteto Antoni Gaudi, a expressão catalã “Orchata de chufa, si us plau” [chufa, por favor], uma bebida muito apreciada na Catalunha, as ramblas [ruelas] de Barcelona, desfila pelos movimentos punks de Londres, atravessa a bolha de Tel Aviv, desaguando nos caretas de Nova York.
Por: Lisieux Bevilaqua,no YouTube.

Esta música é como a maioria das letras de Caetano, dá a impressão que entramos num mundo onírico de devaneios sem sentido, mas como puro símbolo, podemos interpretá-lo da forma que quisermos. Para mim, existem algumas frases que gosto de repetir com um sentido próprio. São elas: 
Primeiro: “Vaca profana põe teus cornos para fora e acima da manada.”

Quando digo isso, estou me referindo a sair do comum, do comportamento “normal”, igual, esperado. Chamo as pessoas para sua particularidade, seu existir só. Ousar se antenar com outra realidade. Cornos são como antenas que nos ligam ao universo, ao todo. Para fora e acima é ser você é ter coragem de sobressair de ser único.
A outra frase famosa dessa música é: “De perto ninguém é normal.”

Muita gente usa essa frase no sentido de que na intimidade vemos as imperfeições do outro, suas manias, medos, taras, seus desvios. Sim, na intimidade nos desnudamos da máscara/fantasia de seres absolutos, sem falhas. Mas o que eu mais gosto nessa frase é que ela dá uma volta na história da música, como se fosse um amadurecimento, um crescimento da pessoa, que passa a música toda desejando o mal para quem ele acha que está errado, julgando quem é careta, mas de repente ele se vê fazendo o mesmo, cometendo erros. Ele vê seu lado obscuro e percebe que a vida é branca e preta, meu bem e meu mal.
Por: Nanda Botelho, em: [Múltiplas Realidades]

Gal Costa interpreta "Vaca Profana" [música de Caetano Veloso], em momento inédito da canção que era apresentada para todo o Brasil. Gal Costa, como sempre: linda, intensa, profana!


Maria Gadu, de Caetano Veloso - Podres Poderes


Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais

Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?

Será, será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval

Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau

Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas
E nos Gerais?

Será que apenas os hermetismos pascoais
Os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas
E nada mais?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais

Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo
Tins e bens e tais...

A Bossa Nova é Foda - Caetano Veloso



O bruxo de Juazeiro numa caverna do louro francês
(quem terá tido essa fazenda de areais?)
fitas-cassete, uma ergométrica, uns restos de rabada.
Lá fora o mundo ainda se torce para encarar a equação
pura-invenção/dança-da-moda.
A bossa nova é foda.

O magno instrumento grego antigo
diz que quando chegares aqui
que é um dom que muito homem não tem
que é influência do jazz
e tanto faz se o bardo judeu
romântico de Minesota,
porqueiro Eumeu
o reconhece de volta a Ítaca:
a nossa vida nunca mais será igual
Samba-de-roda, neo-carnaval, Rio São Francisco,
Rio de Janeiro,
canavial.
A bossa nova é foda.

O tom de tudo
comanda as ondas
do mar,
ondas sonoras
com que colore no espacial.
homem cruel
destruidor, de brilho intenso, monumental,
deu ao poeta, velho profeta,
a chave da casa
de munição.

O velho transformou o mito
das raças tristes
Em Minotauros, Junior Cigano,
em José Aldo, Lyoto Machida,
Vítor Belfort, Anderson Silva
e a coisa toda:
a bossa nova é foda.

Gal Costa & Caetano Veloso - O Ciúme


Amanheci com muita saudade de minhas origens. Com isso, reproduzi uma das minhas primeiras postagens no blog sobre a região onde nasci no norte da Bahia, a belíssima região são-franciscana.

Caetano Veloso - O ciúme
Composição: Caetano Veloso

Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico, vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só eu só eu só eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê?

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira monstruosa a sombra do ciúme

Belas Imagens de: [Juazeiro]-Bahia, [Petrolina]-Pernambuco

Rapte-me e Adapte-me ao seu "Ne me quitte pas"


Rapte-me camaleoa
Adapte-me a uma cama boa
Capte-me uma mensagem à toa
De um quasar pulsando lôa
Interestelar canoa

Leitos perfeitos
Seus peitos direitos
Me olham assim
Fino menino me inclino
Pro lado do sim

Rapte-me
Me adapte-me
Me capte-me
It's up to me
Coração
Sem querer ser
Merecer ser
Um camaleão

Rapte-me camaleoa
Adapte-me ao seu
Ne me quitte pas...

A Prosa de Caetano Veloso em "O Mundo Não é Chato"

Com um olhar político sobre a música, o brasileiro, o Brasil e sobre ele mesmo, Caetano em "O mundo não é chato" confirma seu talento como escritor. Movido pelo vigor da observação, Caetano alia ao ponto de vista pessoal um inequívoco viés crítico e intelectual. Oswald de Andrade, Bob Dylan, Visconti, Pelé, Jimi Hendrix, Gilberto Gil, Glauber, Tom Jobim, Cazuza, Nelson Rodrigues, Fernando Pessoa, Elis Regina, Lorca são apenas alguns dos nomes sobre os quais Caetano emite opinião.
O Caetano prosador, ensaísta, que nas últimas quatro décadas, provocou polêmicas com músicas, comportamentos e opiniões emerge de "O mundo não é chato", uma coletânea de textos organizada por Eucanaã Ferraz que sai pela Companhia das Letras. São artigos e críticas, escritos em diferentes momentos. Uma viagem que começa com os primeiros textos do jovem crítico de cinema dos anos 60 passa pela correspondência gerada no exílio londrino dos anos 70 e chega ao discurso mais recente. É um papo qualquer coisa: da censura ao amor, da estética à política, da sexualidade à manipulação da imprensa.
Eucanaã afirma na apresentação da obra: "A escrita de Caetano impressiona sobretudo por sua visão dos matizes a meio de uma coisa e outra, por sua procura extremada, e nunca concluída, por um ponto em que instalar a palavra, apta a exercer sua razão ética, estética e política".