ESCRITORES

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Com você... Meu mundo ficaria completo - Cássia Eller

Cásia Eller: "Música tem sentimento - Música é uma coisa bela que me toca lá, bem lá dentro, por isso tenho de ouvi-la, não existe mais nada para mim além disso (que é mais que isso). Tenho medo de ficar alienada, um dia, por eu pensar assim. A música me comanda. Eu mudo o meu estado de espírito de acordo com a música que estou ouvindo. Estou ouvindo Ravel agora... ainda há pouco estava agressiva por causa de um trecho de “La Valse”, agora me sinto tão serena, voando sem corpo, só com o meu pensamento, sem sentir nada, assim... sem o sentido do tato, só visão. E a audição... só música... só. O único cheiro que sinto é inodoro, O2 puro. Não tenho paladar porque não preciso agora. Só preciso dos ouvidos e da visão (não os olhos, vê-se com o espírito). 
Eu acho que os cantores quando cantam querem que o povo goste. E eu só quero cantar, porque é a única maneira que eu tenho de me extravasar. Tenho coisas aqui precisando ser postas pra fora, e que maneira mais bonita que eu fui arrumar pra expulsá-las... é bonito, quando eu canto e estou satisfeita. É doído, quando canto e estou angustiada. Eu cantando sei mais de mim. Você pode pensar que me conhece um bocado se algum dia conversou comigo, se leu alguma coisa que eu escrevi, se foi pra cama comigo, mas, pode crer, você se espantará quando me ouvir cantar. Essa sim, sou eu... me mostrando porque eu quero... é quando sou sincera mesmo.]
Para saber mais sobre a vida e obra de Cássia Eller, acesse:

Para saber mais e ouvir o álbum "Com você... meu mundo ficaria completo", acesse:



Cássia Eller - Blues da Piedade

[Blues da Piedade - Cazuza/Frejat]

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Dessas sementes mal plantadas
Que já nascem com caras de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia...
Pra quem não sabe amar,
Fica esperando alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Dê-lhes grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar os blues
com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Dê-lhes grandeza e um pouco de coragem
[...]

Cássia Eller - Metrô linha 743 - Raul Seixas





Ele ia andando pela rua meio apressado
Ele sabia que tava sendo vigiado
Cheguei para ele e disse: Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
Ele disse: Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado
Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado!
Disse: O prato mais caro do melhor banquete é
O que se come cabeça de gente que pensa
E os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam
Porque quem pensa, pensa melhor parado.
Desculpe minha pressa, fingindo atrasado
Trabalho em cartório mas sou escritor,
Perdi minha pena nem sei qual foi o mês
Metrô linha 743

O homem apressado me deixou e saiu voando
Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando
Três outros chegaram com pistolas na mão,
Um gritou: Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos
Eu disse: Claro, pois não, mas o que é que eu fiz?
Se é documento eu tenho aqui...
Outro disse: Não interessa, pouco importa, fique aí
Eu quero é saber o que você estava pensando
Eu avalio o preço me baseando no nível mental
Que você anda por aí usando
E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando
Minha cabeça caída, solta no chão
Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez
Metrô linha 743

Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha
E eu era agora um cérebro, um cérebro vivo à vinagrete
Meu cérebro logo pensou: que seja, mas nunca fui tiete
Fui posto à mesa com mais dois
E eram três pratos raros, e foi o maitre que pôs
Senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado
Meu último pedaço, antes de ser engolido ainda pensou grilado:
Quem será este desgraçado dono desta zorra toda?
Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais
Mas o negócio aqui tá muito bandeira
Dá bandeira demais meu Deus
Cuidado brother, cuidado sábio senhor
É um conselho sério pra vocês
Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês
Ah! Metrô linha 743

Cássia Eller interpreta Riachão - Um clássico sambista da Bahia

Cássia Eller, de Riachão - Vá morar com o diabo

O menino Clementino adorava brigar. Saía de uma briga e já entrava em outra e parecia não querer descanso. Um dia, um velho sábio, vendo sua disposição para tanta briga, perguntou-lhe em puro baianês: Meu filho, você por acaso é algum riachão, que ninguém consegue atravessar?”
E assim Clementino virou Riachão, que atravessou nove décadas da vida, até aqui, sem deixar de brigar um só dia. Brigou com a inspiração, quando esta demorava a chegar, para compor mais um samba; brigou pela afirmação e sucesso de suas composições, brigou contra as adversidades da vida, que não foram poucas, mas sempre brigou com um sorriso nos lábios e a providencial prontidão dos sábios guerreiros.
Brigou muitas vezes sozinho, e muitas vezes ao lado dos seus irmãos de samba Batatinha, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Walmir Lima, Panela e tantos outros nomes que fizeram da boa música baiana profissão de fé e terminaram escanteados ou esquecidos pelo jogo pesado de uma mídia movida pelo jabá e pelo mau-gosto.
Cronista de sua cidade e do seu tempo, a cada fato marcante que acontecia, Riachão nos dava a notícia em forma de um novo samba. Assim foi com “O umbigão da Baleia”, “A morte do Alfaiate” “Pitada de Tabaco”e tantos mais.
Foi também o seu talento poético que pintou com tintas musicais e precisão o cenário mítico desta cidade: “ Quem chega na Praça Cairu/Olha pra cima o que é que vê?/O Elevador Lacerda sempre a subir e a descer…/ É o retrato fiel da Bahia/baiana vendendo com alegria/coisinhas gostosas de dendê – acarajé!”
Quando Caetano e Gil voltaram do exílio imposto pela ditadura militar e decidiram fazer o primeiro show para um público brasileiro cheio de saudade, decidiram lançar um manifesto daquela nova fase de suas carreiras e vidas. Foram buscar em Riachão as palavras precisas para expressar o que eles queriam comunicar em alto e bom som: “Cada macaco no seu galho/xô, xuá/eu não me canso de falar, xô, xuá/meu galho é na Bahia, xô, xuá/ o seu é em outro lugar…”
Até o pop contemporâneo veio beber nas águas desse Riachão. O último grande sucesso de Cássia Eller é crônica de um Riachão em estado puro:” Ai, meu Deus/ai meu Deus o que é que há?/A nega lá em casa não quer trabalhar…/ Ela quer me ver bem mal/ vá morar com o diabo que é imortal…”
Imortal é você, Clementino. Malandro dos bons, capoeirista dos sons e das letras, expressão da Bahia na cor, na alegria e no canto.Valente, que atravessou todos aqueles que queriam atravessar o seu caminho, e chega aos 90 anos de absoluto sucesso, sem nunca ter deixado de ser o menino Clementino.
Hoje, 2 de Dezembro, dia do Samba, mais do que nunca e mais do que todos , parabéns, Malandro!
Por Jorge Portugal em belíssimo artigo sobre esse genial sambista: