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Difícil fotografar o silêncio - Manoel de Barros
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
A ficção poética de Florisvaldo Mattos
Um dos polos essenciais da criação de Florisvaldo Mattos, como destaca JC Teixeira Gomes, “é o cultivo de um lirismo sempre comedido, trabalhado com extrema propriedade de recursos, sendo certamente o único na sua geração que transita do lírico para o épico com absoluta naturalidade, mestre nos dois caminhos poéticos, consciente do poder que tem sobre as palavras”.
[...]
O vasto conjunto lírico que encontramos na ficção poética de Florisvaldo Mattos representa, portanto, um monumento da poesia brasileira de entre a segunda metade do século passado e a primeira década do presente, erguido por um espírito agudamente atento ao tempo e dele liberto, como sempre é, paradoxalmente, o dos grandes poetas.
Leia o texto completo, acessando:
Para saber mais sobre a obra de Florisvaldo Mattos, acesse:
O poeta baiano Florisvaldo Mattos é dono de uma dicção que combina o rigor formal à alta expressividade lírica. Formado em direito, optou pelo jornalismo, atividade que exerce até o presente. Nos anos 60, integrou em Salvador o grupo da chamada Geração Mapa, liderado pelo cineasta Glauber Rocha. Entre suas obras publicadas, estão "Reverdor" (1965); "Fábula Civil" (1975); "A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior" (1996); "Mares Acontecidos" (2000); e "Travessia de Oásis A Sensualidade na Poesia de Sosígenes Costa". Além de formar gerações como professor da UFBA até 1994, quando se aposentou, Mattos ocupa a cadeira 31 na Academia de Letras da Bahia.
A eclosão de dimensões metafóricas na lírica de Rita Santana
Saiba mais sobre a vida e obra da poeta Rita Santana, em:
[www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/404-rita-santana]
[www.letras.ufmg.br/literafro/resenhas/poesia/116-rita-santana-alforrias]
AMÁSIA
Vem, homem, ofereço-te fibras duras
Da doida serpente que me guarda.
De paz sei pouco, dinamito em gritos.
Trago silêncios vazios que adornam as mulheres.
Se quiseres, beijo teu falo, e me ponho a falar
Das coisas que aprendi entre as pedras do rio.
Aproveita o calendário, a oferta das horas,
Diz-me adorar meus seios flácidos, minha embriaguez de puta.
Lambe com disputa asceta os meus meios, meus fundos.
Deixa banhar de olhos os pêlos, a jactância têxtil,
Os arroubos de gado livre.
Faço-me de mulher boa, apascentada e morna.
Banho-te, filho advindo das trevas, na cisterna,
No poço fundo e frio dos meus mistérios.
Aqueço teus ossos com minhas carnes cativas
Ao que em ti é arrefecido.
Prometo, eu Amásia, amaciar o teu sono,
Enganar tua vaidade viril,
Avaliar sem critérios teu caráter de macho.
Depois, deixa a luz acesa e corre.
Ergo-me, esquecida de tantos deuses vingativos,
E abro a caixa de Pandora.

Leia outros poemas da autora integrantes do livro "Alforrias", acessando:
[http://www.uesc.br/editora/livrosdigitais2015/alforrias.pdf]
Da poeta ao inevitável - Maria Giulia Pinheiro
[...] Sua poética é definitivamente uma poética do corpo, desdobrado em um caleidoscópio imagético. Como bem coloca o professor Welington Andrade no prefácio, “é o exercício daquela escritura do corpo de que nos fala Roland Barthes”. “Uhum” apresenta um sistemático desmantelo da carne, posto em moção por um rito sexual antropófago, que tange os limites do incorpóreo, do indizível. Ao fim, só nos sobra o poder sugestivo das interjeições: “aham/ aham./ uhum.”
E o corpo revelado pela poeta é, constantemente, uma presença em transfiguração, afetada pela guerra sem quartel da metáfora. Assim, a voz humana que nos sopra impropérios líricos eventualmente se torna “cão”, mundana, ou até mesmo alguma das deusas do Olimpo, divina. Aliás, é na seção intitulada “Seis Deusas” que residem alguns de seus mais fortes textos, como “Per se” e “Afrodisíaca”.
Transitando pelos domínios do prosaico e do extraordinário, do sagrado e do profano, Maria Giulia constrói um livro substancial. Uma ressalva: a abundância de poemas, em sua maioria relativamente longos, subtrai aos textos mais interessantes um pouco de sua capacidade de ressonância. O volume é irregular, porém generoso, reservando-nos diversos momentos de sensibilidade e lirismo. Mais uma saborosa estreia promovida pela Patuá, que tem privilegiado os novos escritores. Fique atento aos próximos jorros cáusticos da poeta.
Para ler o texto completo, acesse: [www.musarara.com.br/inevitavelmente-poeta]
Para ler o texto completo, acesse: [www.musarara.com.br/inevitavelmente-poeta]
Para conhecer melhor os textos de Maria Giulia, acesse: [oconvento.wordpress.com]
Autora do livros de poemas Da Poeta ao Inevitável, Alteridade e Avessamento, Maria Giulia Pinheiro estudou jornalismo, teatro e ciências sociais, mas trabalha como roteirista, diretora, dramaturga, produtora e atriz. Escreve poesias há quatro anos e se arrisca, nas horas vagas, a contos curtos. Formou-se na Cásper Líbero e no Teatro Escola Célia Helena e ainda cursa a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. É diretora e dramaturga do grupo de pesquisas teatrais Companhia e Fúria e coordena o Grupo de Pesquisas Artísticas de Pulsões Femininas. Acredita que existe uma batalha a ser travada no campo do imaginário: criar realidades de poder feminino e explorar arquétipos diferentes do herói guerreiro. Escreveu o manifesto Por um imaginário em que explora as contradições desta luta artística.
Para ler outros poemas de Maria Giulia Pinheiro, acesse:
Videopoema - Afrodisíaca
Todos os namoradinhos que tive
matei de amores.
Depois, passei.
Eles,
alucinados pela vertigem que produzi,
diante do vermelho abismo sexo,
vomitaram palavras de louvor
até acabar com tudo o que queimava dentro.
Eles,
insuportáveis resquícios do que foi o
furacão libidinal em
clara casca calma com que os destruí,
não me encaram, se me veem.
Eles,
todos,
me trocaram por mulheres mais fáceis,
cabelos lisos e impecáveis,
frequentadoras assíduas da academia de ginástica.
Quando pensam em mim,
eles
e elas,
e elas,
têm tremeliques de medo e tesão.
Só um
não me substituiu por uma mulher mais fácil:
namora um modelo de cuecas Armani
e vive bem.
Afrodisíaca foi publicado em "Da Poeta ao Inevitável", de Maria Giulia, em 2013, pela Editora Patuá, no caderno "Seis Deusas".
Os "Versos pornográficos" de Chico César
"Sem erotismo, a vida não tem a menor graça" Chico César
[...] Chico César abre o seu livro dirigindo-se a uma “Cara leitora”. Essa que, de tão múltipla, pode personificar-se em qualquer uma. Se pelo nome que nomeia cada indivíduo, o corpo pode ser roçado por palavras alheias, como se estas fossem o corpo de outro, o vocativo aí substituindo os nomes, faz de cada um o perfeito indistinto alvo da bolinagem. Na tensão em que a negação da exclusividade dá o tom do pornográfico, essa leitora inominada pode tornar-se a mulher exata a quem o poeta dirige sua língua e lápis.
Depois de determinada a “Cara leitora”, expressão ironicamente retirada das antigas novelas folhetinescas dirigidas a damas de classe entediadas, Chico César constrói um texto cuja palavra, por ser pornográfica, escorre pela boca:
com a palavra gozo na boca
deixou escorrê-la ao peito
Se fosse erótica, não seria “puta e pura poesia”. Porque neste livro, pornográfico é não só o conteúdo dos versos, mas também a própria matéria morfo-semântico-fonético-sintática da palavra.
recitar e excitar
até que esporraria
tudo em teus grandes lábios de veludo
depois ao cubo
ao cu iria
A putaria é linguística (em todos os sentidos) e vai para além (ou para dentro) da leitora, evidenciando o quanto o próprio ato da fala é um ato fálico. Uma felação não estaria muito distante de um poema lido em voz baixa. Talvez por isso, a imagem da boca esteja tão presente no decorrer do volume. Esse órgão que serve tanto ao verbo quanto ao sexo. Deste jogo, no qual a matéria textual é carregada de volúpia em si mesma, surge um livro a ser escrito – imagem que Chico brilhantemente nos dá através das pernas abertas dessa mesma leitora, onde ele pode molhar “a língua e a linguagem”, para nos fazer concluir, afinal, que também todo verso é pornográfico.
Assim, ele dedica religiosamente, página a página, um caderno de orações sacanas a essa dama inominada do outro lado do livro, estimulada por uma sucessão de palavras volumosas, carnosas, úmidas e febris dirigidas ao seu ponto G, enquanto ela deve apenas deixar-se ler e ser escrita como parte do códice lascivo elaborado pelo autor entre suas coxas:
quisera estar sob tua escrivaninha
lambendo entre tuas pernas
(...)
estar aí sem te dares conta
sem tua plena consciência nem consentimento
Chico César, esse talentoso expoente da nossa música, adentra com virilidade e potência esse novo gênero que, a despeito da relativa juventude do termo, é mais velho que o Velho Testamento, com uma edição belamente ilustrada pela artista húngara Sári Szántó e com capa criada pelo connoisseur de tipografia italiano Mattia Moretti.
Por isso, Cara Leitora, não se engane com o tamanho deste volume. Pequenos pacotes guardam enormes prazeres. E eu, alcoviteiro convidado a fazer as honrarias à iniciação do coito, desejo que a leitora penetre gentilmente nesses versos lúbricos - e cegamente. Ao ponto de não saber se penetra ou se é penetrada por eles.
Para ler o texto integralmente, acesse:
Leia a seguir - “Casta” - poema integrante do livro:
“em público castamas quando de mim
em privado se acosta
mulher de palavra
depravada
diz como se falasse ao espelho do que gosta
mais de frente
mas também de costas
diz que a saliva seca
e se faz molhada a cona
e piscante o rego
mamilos duros
que mesmo mamá-los
não lhes traz sossego
que o clitóris
grão grilo e grelo
salta ciciante entre a espuma dos lábios
e os dedos sábios
a socorrem sem medo
quando aí se acaricia
e a funda fenda inunda
como tempestade a raiar o dia”
Assista a outro vídeo correlato: [https://youtu.be/3yMMgVjFDAw]
Para saber mais sobre a obra literária de Chico César, acesse:
[chicocesar.com.br/index.php/livros]
Para saber mais sobre a obra literária de Chico César, acesse:
[chicocesar.com.br/index.php/livros]
A Ficção Poética de Micheliny Verunschk
"A poesia para mim é a forma mais eficaz de alcançar algo inatingível, a essência do real ou, antes, o real em essência. É também o único modo pelo qual posso enxergar o mundo. Ela está um degrau acima da filosofia e um degrau abaixo do amor." - Micheliny Verunschk, entrevista blog: [Sambaquis].
[Landy Editora], Coleção Alguidar, o livro de Micheliny Verunschk é obra inovadora e contundente. Bem entende Mário Hélio esta poesia quando diz: “a dor e o prazer estão enredados no mesmo labirinto, se aninham e se fincam na carne ... É emoção concentrada, decantada. Mas com sutis crueldades e poucas concessões ... A música deste livro só se ouve bem se se deixa fluir por todo o corpo”, é o que em poucas palavras essa poesia resume tal o poder de sua linguagem poderosamente expressiva e que, por isso, é capaz de congregar simultaneamente o encantamento, a alegria e o prazer próprios de uma poesia verdadeira. É assim que essa pernambucana, de Arcoverde, vai compondo essa bela Geografia Íntima do Deserto.
Este livro foi finalista ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, tendo ficado entre os 10 primeiros títulos indicados.
Leia entrevista de Micheliny Verunschk ao [Portal Cronópios] e poesias da autora no Portal [Jornal de Poesia]
Veja entrevistas da escritora e poeta ao programa [Encontros de Interrogação] promovido pelo Instituto Itaú Cultural em 2004, e no programa [Entrelinhas da TV Cultura], em 2009.
A Cartografia da Noite, pela Lumme Editor, faz parte de um projeto inicial que previa uma trilogia (da qual o Geografia íntima do deserto seria a primeira ponta). Não sei se desisti da trilogia, mas por enquanto ficamos com esse dueto, visto que o próximo livro de poemas (no qual trabalho agora) chama-se Outra arte e se afasta bastante desse projeto que engloba o Geografia e A cartografia. De resto, esses dois dialogam (desde o título, como se pode perceber) até um certo jogo de claro-escuro, de linguagem e de temática, afinal a noite e o deserto, em alguns momentos, podem ser compreendidos um como metáfora do outro. Alguns poemas que não couberam em Geografia acabaram por aparecer em A cartografia, enfim...
Blog da autora: [Ovelha Pop]
Algo de físico na linguagem poética de Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo, mineiro de Belo Horizonte, é um de nossos principais poetas. Também é músico e artista plástico. Estreou em 1992, com Festim. Desde então publicou livros como Impossível Como Nunca Ter Tido um Rosto, Modelos Vivos e Antiboi. Como performer, já se apresentou na Europa e em várias cidades do Brasil. Tem uma seleção do melhor de sua poesia reunida pela Editora Todavia na antologia Pesado Demais para a Ventania.
O poeta, músico e artista plástico Ricardo Aleixo também evoca urgências políticas em seu Antiboi. Em seus 32 poemas, escritos entre 2013 e 2017, questiona a tradição do “país que usa seus bois como usa sua gente”, como escreve o poeta Ricardo Domeneck na orelha do livro. Muitos dos poemas, neste que é seu nono livro, foram publicados nas redes sociais.
Ricardo Aleixo não é um, mas vários. Há em sua obra, cuidadosamente trabalhada desde a estreia em livro nos anos 1990, uma mescla do melhor da poesia e das artes brasileiras dos séculos XX e XXI. Aleixo é lírico e profundo como os melhores poetas mineiros desde Drummond; é experimental como os concretistas; carismático na mistura de lirismo, depoimento pessoal e irreverência como Leminski; performático e interessado na música e no teatro; contundente na denúncia do racismo brasileiro como Mano Brown. Em todas essas facetas, o poeta mineiro demonstra engenho e arte para falar do amor, da família, da cultura afro-brasileira, das grandes cidades e da própria literatura. Um mestre contemporâneo, em suma.
Finalista do Prêmio Oceanos 2018 com Antiboi, Ricardo Aleixo associa de modo singular a experimentação formal e o sentido crítico em relação às questões sociais, em particular o racismo. Enquanto negro, faz a radicalidade estética extravasar do livro para performances em que corpo e identidade servem de suporte para questionamentos éticos tão afiados quanto sua poética.
Assista à performance Fruto estranho, de Ricardo Aleixo, no canal da Flip:
Surrealismo e transgressão na obra poética de Roberto Piva
Roberto Piva, celebrado como uma das vozes mais originais da poesia paulistana, um dos maiores nomes da poesia contemporânea brasileira, é um poeta até hoje pouquíssimo lido e conhecido pelo público. Sua obra, com caráter ao mesmo tempo de manifesto e transgressão, concentra toda a violência de uma cidade como São Paulo, em uma estrutura de escrita alucinada pelas imagens fortes, pelo erotismo e pela potência quase sagrada e religiosa da experiência do corpo. Em Paranoia, é possível ver uma gama imensa de influências, desde Baudelaire, até mesmo o homem que anda pela cidade, passando pelo contato com a poesia de Mário de Andrade, pela geração beat e pela identificação com o espírito de anjo panfletário do caos de Jorge de Lima.
Roberto Piva frequentemente é classificado como um "poeta maldito" e, de fato, sua poesia evoca muitos poetas que são tradicionalmente considerados malditos, citando-os nominalmente grande parte das vezes. É o caso de Álvares de Azevedo, Antonin Artaud, Arthur Rimbaud, Marquês de Sade, Pier Paolo Pasolini, entre outros. Jorge de Lima também está presente na dicção de Piva, que dedicou a ele o poema "Jorge de Lima, panfletário do Caos", do livro Paranoia.
Há ainda a explícita influência de Murilo Mendes. Sobre ele, Piva diz em seus versos "mestre Murilo Mendes tua poesia são os sapatos de abóboras que eu calço nestes dias de verão". O ponto de ligação que há entre os dois é o tom surrealista que ambos assumem em seus poemas.
Assim, já no contexto das escolas literárias, a obra de Piva evoca experiências do Romantismo, Simbolismo, Surrealismo e da Geração Beat. Figura ao lado de Claudio Willer e Sérgio Lima como um dos únicos poetas brasileiros resenhados pela revista francesa La Bréche - Action Surrealisté, dirigida por André Breton, em sua quinta edição, de fevereiro de 1965. Roberto Piva também é um grande leitor de literatura italiana, especialmente da obra de Dante Alighieri, que estudou com profundidade entre 1959 e 1961 num curso com o Edoardo Bizzarri, então Adido Cultural da Itália, no Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro.
De poetas canônicos, como Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), Federico Garcia Lorca e Walt Whitman também recebeu influência. Embora, muitas vezes a sua poesia seja classificada como Poesia marginal, por ter sido incluído na antologia "26 Poetas Hoje", o poeta não teve experiências como as da chamada Geração mimeógrafo, utilizando meios "marginais" de divulgação.
Em seus livros mais recentes, é grande a presença do xamanismo.
Para saber mais sobre a vida e obra de Roberto Piva, acesse:
Entre a Filosofia e o Amor: A Poesia de Micheliny Verunschk
"A poesia para mim é a forma mais eficaz de alcançar algo inatingível, a essência do real ou, antes, o real em essência. É também o único modo pelo qual posso enxergar o mundo. Ela está um degrau acima da filosofia e um degrau abaixo do amor." - Micheliny Verunschk, entrevista no blog: Sambaquis.
Landy Editora, Coleção Alguidar, o livro de Micheliny Verunschk é obra inovadora e contundente. Bem entende Mário Hélio esta poesia quando diz: “a dor e o prazer estão enredados no mesmo labirinto, se aninham e se fincam na carne ... É emoção concentrada, decantada. Mas com sutis crueldades e poucas concessões ... A música deste livro só se ouve bem se se deixa fluir por todo o corpo”, é o que em poucas palavras essa poesia resume tal o poder de sua linguagem poderosamente expressiva e que, por isso, é capaz de congregar simultaneamente o encantamento, a alegria e o prazer próprios de uma poesia verdadeira. É assim que essa pernambucana, de Arcoverde, vai compondo essa bela Geografia Íntima do Deserto.
Este livro foi finalista ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, tendo ficado entre os 10 primeiros títulos indicados.
Veja entrevistas da escritora e poeta ao programa [Encontros de Interrogação] promovido pelo Instituto Itaú Cultural em 2004, e no programa [Entrelinhas da TV Cultura], em 2009.
A Cartografia da Noite, pela Lumme Editor, faz parte de um projeto inicial que previa uma trilogia (da qual o Geografia íntima do deserto seria a primeira ponta). Não sei se desisti da trilogia, mas por enquanto ficamos com esse dueto, visto que o próximo livro de poemas (no qual trabalho agora) chama-se Outra arte e se afasta bastante desse projeto que engloba o Geografia e A cartografia. De resto, esses dois dialogam (desde o título, como se pode perceber) até um certo jogo de claro-escuro, de linguagem e de temática, afinal a noite e o deserto, em alguns momentos, podem ser compreendidos um como metáfora do outro. Alguns poemas que não couberam em Geografia acabaram por aparecer em A cartografia, enfim...
Saiba mais sobre a poética de Micheliny Verunschk em:
[Revista Cult » Notícias de outras ilhas - Micheliny Verunschk]
Blog da autora: [Ovelha Pop]
A poética marginal de Ana Cristina César
"Ana Cristina César é pura mágica crítica, ao mesmo tempo em que é alinhada com sua geração. De modo que mesmo estando na lista de poetas marginais, ela consegue ser tanto escrachada e refinada que por consequência leva a uma incompreensão para o leitor que já chega com ideias preconcebidas e que procura na poesia o sentido da coisa, quando na verdade em Ana Cristina César o que vale não o sentido final e sim o sentir antes de tudo. E você pode ficar sem entender ainda...
Para decifrar a mágica da poesia de Ana é preciso saber que sua poesia é singular e muitas vezes experimental ou como ela mesma dizia: - "Literatura é reinvenção".
Para perseguir e dar conta do recado é também necessário saber que as poesias da autora mergulham em suas influências simbolistas, como Baudelaire e suas Flores do Mal ou em Flores do Mais de Ana Cristina César.
[...] A poesia de Ana Cristina César é expansão, é vida correndo e acontecendo. É a artéria jorrando sangue sem parar. De fato acontecendo. A legítima esfinge poética que faz desse fluxo incessante a espécie de linguagem que se fala, por si mesma".
Por Josué Rowstock, em [DECIFRANDO A ESFINGE DA POESIA MARGINAL] ensaio literário poético sobre Ana Cristina César.
Ao Saraiva Conteúdo, Viviana Bosi falou um pouco sobre a produção da escritora, as características da sua poesia urgente e indicou livros para quem quer começar a conhecer melhor Ana Cristina.
A poesia reflexiva e de fundo filosófico de Cecília Meireles
Poema motivo musicado por Raimundo Fagner:
A literatura brasileira é realmente rica em poetas que se perpetuaram ao longo do tempo e que permitem sempre uma abordagem atual de suas obras. Cecília Meireles é uma dessas autoras. Cecília, que nasceu em 07 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro, é a primeira grande escritora brasileira, bem como a maior voz feminina da poesia. Ela escreveu sua primeira poesia aos 9 anos de idade.
Embora sua obra tenha sido escrita em um período que ficou conhecido como sendo a segunda fase do Modernismo Brasileiro, Cecília Meireles nunca se fixou a nenhum movimento literário. Ela cultivou uma poesia reflexiva, de fundo filosófico, que abordou dentre outros temas a transitoriedade da vida, a brevidade do tempo, o infinito, o amor e a natureza. Foi uma mulher que viveu a tentativa de compreender a existência. Reconhecida, recebeu vários prêmios importantes. Como convidada, participou de seminários e encontros literários, no Brasil e no exterior. Teve a obra estudada em centros acadêmicos importantes e foi traduzida para mais de dez idiomas. E como homenagem após sua morte em 64, o governo do Rio de Janeiro, então Estado da Guanabara, deu seu nome a uma sala de concertos localizada no tradicional bairro carioca da Lapa: Sala Cecília Meireles.
Súplica - Brado ressonante pela libertação e identidade do povo Moçambicano
Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!
Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um labirinto de xadrez…
Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a tua lírica de xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota ̶ humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor de lume
(que nos é quase tudo)
mas não nos tirem a música!
Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria,
acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!
Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos.
E no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume,
a palhota onde vivemos,
a machamba que nos dá o pão!
E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!
̶ Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!
mas deixem-nos a música!
Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um labirinto de xadrez…
Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a tua lírica de xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota ̶ humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor de lume
(que nos é quase tudo)
mas não nos tirem a música!
Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria,
acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!
Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos.
E no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume,
a palhota onde vivemos,
a machamba que nos dá o pão!
E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!
̶ Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!
O poema Súplica de Noémia de Sousa, magnífica escritora moçambicana, é considerado um dos melhores e mais influentes poemas de Moçambique. Escrito durante o regime fascista do primeiro ministro português António Salazar, período muito difícil para os moçambicanos não assimilados, ou seja, os que não faziam parte do governo colonial. Noémia de Sousa escreveu esse poema enquanto vivia em Lisboa, presumivelmente no ano 1951. O poema aborda a opressão do povo moçambicano, das dificuldades que enfrentavam cada dia e as dores que sofriam como resultado de colonialismo e a escravidão. Porém não tem o tom de queixar-se nem de reclamação, de fato o tom deste poema é muito mais resiliente e é como o título sugere uma súplica feita não para os portugueses, e sim, ao povo moçambicano.
Leia o texto para entender o poema completo, acessando:
[https://medium.com/@ryanstanley_poema-escrito-por-noemia-de-sousa]
Para saber mais sobre a vida e obra de Noémia de Sousa, acesse:
[http://www.elfikurten.com.br/2015/07/noemia-de-sousa.html]
Para saber mais sobre a vida e obra de Noémia de Sousa, acesse:
[http://www.elfikurten.com.br/2015/07/noemia-de-sousa.html]
Elegia, Uma canção ao leito da mulher amada
John Donne (1572-1631), poeta metafísico e teólogo anglicano, tornou-se famoso por causa de seus sermões. Mas, além da obra sacra, escreveu poemas de caráter acentuadamente erótico - um dos mais conhecidos é "Elegy-XIX". Em 1979, o poema foi adaptado por Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos, transformando-se na belíssima música Elegia, que Caetano Veloso gravou e incluiu no álbum [Cinema Transcendental]
Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz, se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes.
Como encadernação vistosa,
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la.
Eu sou um que sabe.
Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz, se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes.
Como encadernação vistosa,
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la.
Eu sou um que sabe.
Um, um ...
Leia o poema completo, tradução de Augusto de Campos, em:
O letramento poético proposto por Renata Reis
Renata Reis ou Renata Poeta é uma escritora que busca difundir poesia além do formato livro. Ao levar poesia às crianças nas escolas do município de Ribeira do Pombal-BA e região, ela propõe um letramento poético com leveza, no qual energias prazerosas, fascínio e realização se misturam no decorrer do tempo.
Renata Poeta divulga o projeto “Construindo poesia na escola” no qual objetiva ressaltar o encantamento pela palavra levando poesia, atendendo as curiosidades do leitor e fazendo uma verdadeira festa literária, com sessões de autógrafos de seus livros e uma peça teatral com encenação de poemas seus e de outros poetas.
Renata, a partir do contato com seus leitores percebeu como ficavam maravilhados por conhecê-la, e assim, acrescentou as visitações um tempo mais distendido permitindo as crianças perguntarem desde o processo da escrita à publicação, mostrando que na escola é possível imprimir o gosto pela leitura e pela escrita.
Segundo a autora, esse projeto pode ser trabalhado do 1° ao 3° ano do ensino fundamental e escrever para crianças é uma questão de resgate, pois segundo ela, poucas pessoas adultas gostam de poesia, em algum momento perderam o encantamento da palavra, deixaram de admirar, e se não houver o estímulo deixamos de sonhar, deixamos de ver o lado belo das coisas.
Vídeo que destaca participação da autora na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, onde lançou seu livro "Poesia para gente minúscula".
“Minúsculo: corresponde a muitíssimo pequeno ou a letra do alfabeto menor. ”Visualizada no sentido mais rico da palavra, o minúsculo aqui tem força, é visto numa beleza sem definição. Num misto de encantamento e felicidade que sentimos ao traçar as primeiras letras do alfabeto e lá está o minúsculo da vida, o grande sentido de transmitir e torna-se palavra. Poesias pra gente minúscula: É uma dessas criações que ficam engavetadas em algum lugar de nós, engana-se quem acha que a intenção deste trabalho é restrito apenas para crianças, é permitido aqui: o adulto, o idoso se transportar a este lugar glorioso que é o da nossa infância.
"Minha História" - versão genial de Chico Buarque para a música "Jesus Menino" de Lucio Dalla e Paola Pallotino
Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laiá, laiá, laiá, laiá
Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, plantada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto, laiá, laiá, laiá, laiá
Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha história e esse nome que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá, laiá, laiá
Saiba mais sobre a história da música "Minha História" de Chico Buarque, acessando
[www.drzem.com.br/2011/12/historia-da-musica-minha-historia-de.html]Flora - Antevisão de Gilberto Gil numa obra de grande elevação poética e qualidade literária
Flora
Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
Para Gil, seria difícil não aproveitar a sugestão poética de um nome tão bonito "para expressar todo um afeto a partir de uma 'viagem pelo reino do seu nome'. Eu não resisti. Assim, os elementos e as imagens da canção são todos extraídos do reino vegetal. Flora é como se eu penetrasse no bosque para encontrar a fada. [...]
Música-anzol - "Era o verão de 79. Ela estava passando férias em Salvador. Eu a tinha conhecido um mês antes, e nós ainda não namorávamos. Telefonei para um amigo comum. 'Diga que eu quero vê-la, que vou estar no Teatro Vila Velha entre quatro e seis da tarde. Tenho uma coisa pra mostrar a ela.' Quando ela chegou, eu cantei a música.
"Flora foi portanto uma cantada literal. Cantei Flora na canção e com a canção. É minha única canção-cantada; que bom que tenha ficado suficiente em beleza e elegância. A alma exigia capricho: o sentimento era intenso, e o desejo, de uma relação durável. O que eu cantava não era só uma pessoa, mas toda uma vida com ela. Na letra eu já a imagino 'idosa', 'bela senhora', 'futura'. Elis é que me disse: 'Nunca uma mulher teve de um homem uma música dessa!' Uma música em que já se-lhe-oferecia a conformidade a estados que iriam aparecer na sucessão de eventos no tempo.
"A canção teve pra mim, como talvez pra ela, o caráter da irrecusabilidade da proposta. Flora foi além das intenções nela contidas; acabou tendo uma função. A cantada funcionou. É bom que a música e a poesia também tenham essa utilidade. Um modo sutil de ser útil. Uma sutil utilidade; uma 'sutilidade'..."
Letra e texto extraídos do site: [www.gilbertogil.com.br/sec_musica_2017.php?page=3]
Auto da Romaria - O talento, a coragem e a transcendência do mundo na obra do poeta João Filho
Por Adalberto de Queiroz - 10/01/2018 - Edição 2216
O que dizer do poeta João (Fernandez) Filho e deste seu “Auto da romaria”? Bem, tenhamos como pressuposto: João Filho é poeta que deve marcar seu nome na história da poesia brasileira do século XXI. Seu lugar não está reservado apenas entre os poetas católicos, mas, com certeza entre os grandes da poesia de nossa época. E o que me leva a fazer tal aposta?
A este “Auto da romaria” poderíamos sem dificuldade aplicar aquela reflexão de Vicente Ferreira da Silva que, citando o pensamento hegeliano, para quem “tudo quanto o homem pensou de si mesmo e do mundo, a sua auto representação dependeriam de sua representação de Deus”. E mais: o passo seguinte à esta afirmação de Hegel, a de Schelling e de Bachofen “de que o mito conforma e possibilita a História”; ou seja: estou apto a pensar que João Filho, ao criar a sua visão de sua aldeia e de nos apresentar os passos do Nosso Senhor dos Passos – de sua cidadezinha do interior do Nordeste; e de toda a mitologia que envolve a pequena Bom Jesus da Lapa, na Bahia, está ele no fundo nos colocando no centro da História do personagem mais histórico, elevando sua aldeia ao patamar de centro do mundo.
Afinal, “a imaginação mítica, poética, artística e religiosa assume um papel cada vez mais saliente na condução da História, na determinação do pensamento” – recorda-nos Ferreira da Silva.
[...]
De um livro assim, que levou dezessete anos para ser concluído, podemos inferir que há algo maior, fruto que deve ser colhido como fruto raro – afinal, “viver sempre foi esse exercício – do último, do último minuto”. O livro do João se inscreve como marco do “fazer no absoluto”, não como um livro a mais, senão que o mais importante na vida do leitor de poesia brasileira, seja este católico ou infiel, pois dele exala a mais fina tradição da poesia católica brasileira, mesclada à vida do século. Terá o leitor facilidade em ver que há neste “Auto da romaria” um poeta consciente de seu ofício, mesmo que aqui e ali salte a presença forte da tradição regionalista nordestina; entretanto, ele poderá ir mais além se pensar que em João nada é inconsciente.
Leia o texto completo sobre esta obra do poeta João Filho, acessando:
[www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/joao-filho-o-talento-coragem-e-transcendencia-do-mundo]
Blog do autor: [voosempouso.blogspot.com]
Booktrailler do livro: [www.facebook.com/editoramondrongo/videos]
Blog do autor: [voosempouso.blogspot.com]
Booktrailler do livro: [www.facebook.com/editoramondrongo/videos]
O poeta João Filho fala sobre sua infância em Bom Jesus da Lapa, sobre os temas com que trabalha e sobre sua relação com a internet, com a poesia e com a leitura. Ao término, lê trechos do conto "Encarniçado ou Anotações de um comedor de cânhamo", do livro "Encarniçado", do conto "O que se desloca", do livro "Ao longo da linha amarela", e do livro inédito de poesias "Voo sem pouso".
O longo e profético uivo de Allen Ginsberg
Para o poeta, liberdade individual, sexual, de linguagem, política e poética tinham que andar lado a lado.
Lançado no outono de 1956, o longo e profético Uivo de Allen Ginsberg (1926-1997) foi apreendido pela polícia de San Francisco, sob a acusação de se tratar de uma obra obscena. Depois de um tumultuado julgamento, semelhante ao que foi submetida a novela de William Burroughs, Naked Lunch, o poema foi liberado pela Suprema Corte americana e vendeu milhões de exemplares. Desde então se tornou uma fonte indispensável para todos aqueles que pretendem penetrar nas estações do inferno e iluminações de Allen Ginsberg e seus companheiros hipsters, pelas estradas amplas e becos sórdidos da América. Junto com On the road de Jack Kerouac, é Uivo que marca o início do movimento beat. Subitamente transformado numa celebridade na América, Ginsberg prosseguiu produzindo num mesmo ritmo frenético até sua morte, em 1997. Este volume – que inclui o poema cult Uivo, mais Kaddish e Sanduíches de Realidade, exemplos brilhantes de poesia espontânea e em ritmo jazzístico do poeta maior da sua geração – foi originalmente editado no Brasil pela L&PM em 1984. Nesta reedição ele foi enriquecido com a ampliação e atualização das notas e do ensaio sobre a vida e obra de Ginsberg produzido pelo poeta e tradutor Claudio Willer. Leia mais...
ALLEN GINSBERG: [VIDA&OBRA]
ASSISTA AO VÍDEO:
Há 63 anos, o poema "Uivo" de Allen Ginsberg é um grito da geração beat e que reverbera ainda hoje. O Agenda conversou com escritores e pesquisadores sobre a importância desse poema para a formação da cultura contemporânea.
O mais alto lirismo e o conhecimento refletido e desabusado da vida contemporânea na poesia de Francisco Alvim
O programa Entrelinhas da TV Cultura entrevista um dos maiores nomes da poesia brasileira contemporânea. Diplomata que viveu os momentos mais sombrios da ditadura brasileira, o mineiro Francisco Alvim fez da poesia uma forma ao mesmo tempo lírica e crítica de olhar a realidade, como no celebrado livro de poemas Elefante.
O Blog do Severino Francisco entrevista o poeta Francisco Alvim, que fala sobre seu poema Céu.
Céu
Um céu, que não existe
ou talvez exista na França de Poussin
refratado nos interiores de Chardin
talvez em Turner
talvez em Guignard
certamente em Dante
ao chegar à praia do Purgatório
A felicidade que a luz traz
solta, nua neste céu
ou pensada
Francisco Alvim
Cartola, um dos maiores poetas do Samba
Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve. Assim Nelson Sargento definiu o amigo e parceiro Angenor de Oliveira, o mestre Cartola (1908-1980). Mestre pedreiro, mestre lírico: sambista refinado e elegante, de uma poesia que começava pela escolha dos títulos: As Rosas não Falam, Inverno do Meu Tempo e O Mundo é um Moinho. Como um trovador moderno, cantou o amor, a mulher e o morro, com sensibilidade e delicadeza.
[...] Ouvir Cartola é um exercício de sabedoria sutil. A cada audição treinamos nossa sensibilidade e nossa acuidade para o que é essencial, e aprendemos a perceber o espanto que há nas coisas simples, a ouvir o que as rosas têm a dizer. Nelson Sargento estava coberto de razão. Cartola, o pedreiro que virou poeta, não existiu. Foi um sonho bom. Que a gente não esquece.
CONTINUE A LEITURA: Por João Jonas Veiga Sobral em [O POETA IMPROVÁVEL] Revista Língua Portuguesa
VÍDEOS ESPECIAIS:
[TV BRASIL-2], [TV BRASIL-3], [TV BRASIL-4]
OUTROS VÍDEOS: [AS ROSAS NÃO FALAM], [MIX-CARTOLA], [O MUNDO É UM MOINHO], [O MUNDO É UM MOINHO - NEY MATOGROSSO], [AS ROSAS NÃO FALAM-BETH CARVALHO], [O MUNDO É UM MOINHO]
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Para ouvir os dez maiores clássicos de Cartola acesse:
[oglobo.globo.com/cultura/mat/cartola]
Para saber mais sobre a vida e obra de Cartola, acesse:
[blogln.ning.com/profiles/blogs/cartola-no-moinho-do-mundo-por-carlos-drummond-de-andrade]
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