ESCRITORES

ESCRITORES

K. - Obra ficcional de Bernardo Kucinski que se transmuta numa magnífica aula de História


Editado pela primeira vez em 2011, K. – Relato de uma busca marcou a estreia tardia na ficção do jornalista e professor Bernardo Kucinski, aos 74 anos. A partir de um evento real, o desaparecimento de sua irmã, Ana Rosa Kucinski, creditado ao aparato repressor da ditadura militar, o escritor desdobra realidade em ficção, o que permite ao leitor um contato com um relato que transita entre o testemunhal e o ficcional, identificando passagens históricas referidas no texto, mas ao mesmo tempo se distanciando destas como é próprio da criação ficcional. O enredo está inevitavelmente ligado a uma realidade que é reconhecível, mas Kucinski demonstra que, via discurso literário, é possível subverter o factual em uma instância no qual o engajamento crítico é capaz de mobilizar a leitura para uma realidade política específica, sem que para isso tenha-se que recorrer ao panfletário do discurso político.
K: Relato de uma busca, finalista de prêmios literários, é leitura fundamental para quem quer experimentar boa literatura e conferir uma abordagem rica da História do Brasil. O livro atingiria raro reconhecimento, chegando a se tornar uma das obras indispensáveis da literatura brasileira contemporânea. 
Kucinski vem de uma longa trajetória como jornalista e militante. A ficção surgiu em seu caminho há aproximadamente dez anos, quando passou a assinar como B. Kucinski e apresentar assuntos valiosos para ele sob a forma literária. Não se pode negar, no entanto, o extremo valor de suas histórias para além dos fatores históricos. O estilo seco para tratar de assuntos muito pesados e a costura sagaz da narrativa valem a leitura por si só. Com essas duas qualidades do autor trabalhando juntas, o resultado é implacável.





Leia resenhas de "K." e "Os visitantes", acessando:
[revistacult.uol.com.br/com-os-visitantes-bernardo-kucinski-retoma-eventos-trabalhados-em-k]

A hora e vez de Augusto Matraga - Guimarães Rosa

A hora e vez de Augusto Matraga é uma história de redenção e espiritualidade, uma história de conversão. Ao longo do seu enredo o protagonista, Augusto Matraga, passa do mal ao bem, da perdição à salvação. O agente desta passagem é o jagunço Joãozinho Bem-Bem. Podemos associar a ele o ditado: "Deus escreve certo por linhas tortas", pois é o malvado Joãozinho Bem-Bem que permite a morte gloriosa e salvadora de Matraga. A dualidade entre o bem e o mal parece marcar esse mundo de jagunços e fazendeiros, no qual há a possibilidade de conversão quando chega a vez e a hora certa das pessoas, como ocorreu com Matraga. Nhô Augusto renuncia à vingança, mas não à honra, e se regozija ao fim, radiante, ao se deparar com a hora e vez de ser Matraga, o homem que escolheu ser. Homem capaz de agir com coragem, justiça, fraternidade e compaixão. 
Na linguagem de Guimarães Rosa encontramos os jogos de palavras, o prazer lúdico, quase infantil, dos trocadilhos, das associações inesperadas de imagens, do trabalho sonoro e poético com a prosa. A pontuação das frases de Guimarães Rosa também está ligada a esta preocupação lúdica com a linguagem: trata-se sempre de associar o jogo de palavras aos elementos da narrativa (personagens, narrador, enredo, etc.) Com a pontuação, ele busca um ritmo que só pode ser encontrado na poesia do sertão, na marcha das boiadas, na passagem lenta e imperceptível do tempo, no bater das asas dos periquitos, no balançar sinuoso das folhas do buriti. Guimarães Rosa é, em conclusão, o criador de uma obra em que elementos da cultura popular e elementos da cultura erudita se mesclam para reinventar a força da linguagem sertaneja e mineira. Conhecedor de pelo menos dezoito idiomas, ao lado das palavras que traz do vocabulário sertanejo há várias construções importadas do latim, do francês, do inglês e do alemão em seus livros. Poucos como ele têm a capacidade de reunir a erudição das reflexões filosóficas à transposição do imaginário popular, sem menosprezar as primeiras, e simplificando o segundo. É o que vemos ao ler alguns trechos de Sagarana, onde percebemos o ritmo, a cadência, a fecundidade e o mistério, difícil de decifrar, de sua linguagem. 
Leia o texto completo, acessando:
[veele.files.wordpress.com/a-hora-e-vez-de-augusto-matraga.pdf]

Para ler o conto integralmente, acesse:
[Joao/Guimaraes/Rosa/Sagarana/Sagarana.pdf]

Transposição da obra para o cinema:



O letramento poético proposto por Renata Reis

Renata Reis ou Renata Poeta é uma escritora que busca difundir poesia além do formato livro. Ao levar poesia às crianças nas escolas do município de Ribeira do Pombal-BA e região, ela propõe um letramento poético com leveza, no qual energias prazerosas, fascínio e realização se misturam no decorrer do tempo.
Renata Poeta divulga o projeto “Construindo poesia na escola” no qual objetiva ressaltar o encantamento pela palavra levando poesia, atendendo as curiosidades do leitor e fazendo uma verdadeira festa literária, com sessões de autógrafos de seus livros e uma peça teatral com encenação de poemas seus e de outros poetas.
Renata, a partir do contato com seus leitores percebeu como ficavam maravilhados por conhecê-la, e assim, acrescentou as visitações um tempo mais distendido permitindo as crianças perguntarem desde o processo da escrita à publicação, mostrando que na escola é possível imprimir o gosto pela leitura e pela escrita.
Segundo a autora, esse projeto pode ser trabalhado do 1° ao 3° ano do ensino fundamental e escrever para crianças é uma questão de resgate, pois segundo ela, poucas pessoas adultas gostam de poesia, em algum momento perderam o encantamento da palavra, deixaram de admirar, e se não houver o estímulo deixamos de sonhar, deixamos de ver o lado belo das coisas. 

Vídeo que destaca participação da autora na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, onde lançou seu livro "Poesia para gente minúscula".
“Minúsculo: corresponde a muitíssimo pequeno ou a letra do alfabeto menor. ”Visualizada no sentido mais rico da palavra, o minúsculo aqui tem força, é visto numa beleza sem definição. Num misto de encantamento e felicidade que sentimos ao traçar as primeiras letras do alfabeto e lá está o minúsculo da vida, o grande sentido de transmitir e torna-se palavra. Poesias pra gente minúscula: É uma dessas criações que ficam engavetadas em algum lugar de nós, engana-se quem acha que a intenção deste trabalho é restrito apenas para crianças, é permitido aqui: o adulto, o idoso se transportar a este lugar glorioso que é o da nossa infância.


A Razão Gulosa - Literatura e Filosofia juntam-se à Gastronomia




















Existe em Ribeira do Pombal, cidade situada na região nordeste da Bahia, um restaurante cujo nome "A Razão da Gula" foi inspirado no livro "A Razão Gulosa - Filosofia do Gosto" do filósofo francês Michel Onfray.
O município de Ribeira do Pombal tem o seu nome em homenagem ao primeiro-ministro do reino de Portugal, Sebastião José de Carvalho e Melo, déspota esclarecido, popularmente conhecido como Marquês de Pombal.
A seguir, resenha do livro escrita na primeira contracapa do cardápio do referido restaurante:
Michel Onfray está acostumado às críticas dos puristas. Afinal, ele luta para que a filosofia passe a encarar o corpo por inteiro. Ao falar de gastronomia, um de seus assuntos preferidos e tema de "A Razão Gulosa: Filosofia do Gosto", ele faz uso de todos os sentidos, incluindo, obviamente, o paladar e o olfato, discriminados por muitos dos colegas, que preferem enfatizar a visão e a audição, ao discorrerem sobre pintura e música, assuntos considerados mais dignos.
Onfray, hedonista até os últimos limites, pregando, acima de tudo, o prazer imediato, sentiu o doce sabor da revanche em 1993. Neste ano, ele recebeu o Prêmio Médicis de Ensaio, ao derrotar o favorito, o ilustre filósofo Gilles Deleuze, com seu livro "A Escultura de Si".
Rebelde, o autor joga mais lenha na fogueira, com a publicação do premiado "A Razão Gulosa": ele confere uma dignidade filosófica à gastronomia, arte efêmera e, portanto, representante hedonista. Ele quebra tabus, ao lançar a ciência da gula e invocar todos os sentidos, na relação com o vinho e a comida.
Através de uma agradável visita às mesas de várias épocas, o autor derrama sobre nós camadas de conhecimento, sob uma nova ótica. Presta um tributo a Dom Pérignon pela invenção do champanhe, fascina-se com a mágica preparação das aguardentes e celebra os banquetes do pai da crítica gastronômica, Grimod de La Reynière.
Um hedonista vulgar? Ledo engano. Onfray reverencia o ser, em contrapartida ao ter, ao consumo desenfreado. Seu hedonismo filosófico busca os atos conscientes. Ele, por exemplo, distingue embriaguez de ebriedade, este, um estado em que experimentamos a leveza, quando "o homem ainda se situa como sujeito da ação". O enófilo aponta a bebida como uma das chaves para a felicidade. Ao ingeri-la, Dionísio - o deus da festa - supera, momentaneamente, o racional Apolo. Afinal, "o vinho faz do corpo algo mais que um simples envelope do espírito: ele entusiasma, leva ao êxtase".
Além das viagens às adegas, Onfray passeia pelos rituais chineses do chá, pela Nova Cozinha e pela culinária futurista de Marinetti. E, por fim, celebra o hommo bulla, já que "a existência não durará mais do que as bolhas", diz, aproximando-se de Nietzsche. Sigamos, portanto, a sugestão do autor: "carpe diem", aproveite o dia. E, é claro, sua aula de refinada gastronomia.

"Minha História" - versão genial de Chico Buarque para a música "Jesus Menino" de Lucio Dalla e Paola Pallotino




Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laiá, laiá, laiá, laiá
Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, plantada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto, laiá, laiá, laiá, laiá
Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha história e esse nome que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá, laiá, laiá

Saiba mais sobre a história da música "Minha História" de Chico Buarque, acessando
[www.drzem.com.br/2011/12/historia-da-musica-minha-historia-de.html]