ESCRITORES

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Fado Tropical e Tanto Mar - Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra.


"Fado Tropical" foi composta especialmente para a peça teatral "Calabar" de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra durante o período da ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. Foi originalmente composta como parte da fala de um dos personagens e deve ser lida no contexto que exigiu dos autores refinada ironia para expressar o desejo das elites brasileiras em se verem "civilizadas" nos moldes europeus. Em uma verdadeira inversão de valores aceita a visão colonizadora, sem romper laços de dependência na relação norte/sul. Ao inserir imagens que nos remetem a Revolução dos Cravos, golpe que derrubou o governo fascista de Oliveira Salazar em 25 de abril de 1974, chega mesmo a almejar que o Brasil se torne um dia "um imenso Portugal". Daí advir sua conotação utópica e revolucionária de caráter socialista. Se num primeiro momento mirar-se em Portugal pode significar subserviência ao imperialismo capitalista e adesão ao autoritarismo local, no segundo momento pode também ser vista como uma forma de resistência ao autoritarismo local. Só quem viveu aqueles duros momentos de nossa história pode ter a dimensão que a mensagem da música transmitia naquela época e continua transmitindo até hoje. "Fado Tropical" foi composta em 1973. Sugerindo painéis de azulejo à moda portuguesa do século XVIII, Chico Buarque e Ruy Guerra propõem nesta canção um retrato crítico do Brasil colonial, que corresponde em filigrana ao país tal como se encontrava sob a ditadura civil-militar. Na confluência entre pintura, história e literatura, os dois artistas compõem uma série de paisagens e de naturezas mortas luso-tropicais. Através deste jogo metafórico, tornado ainda mais complexo pela censura, buscaremos desvendar como "Fado Tropical", ao recorrer à arte pictórica, esboça uma nova "aquarela do Brasil", ambivalente e irônica, que sugere a permanência do autoritarismo ibérico em nossa formação histórica e cultural.
Por Moacir Silveira, em [www.youtube.com/watch?v=NfjaFMah7sE]




Oh, musa do meu fado,
Oh, minha mãe gentil,
Te deixo consternado
No primeiro abril,
Mas não sê tão ingrata! 
Não esquece quem te amou 
E em tua densa mata 
Se perdeu e se encontrou. 
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal: 
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal! 

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga,
Alecrins no canavial,
Licores na moringa:
Um vinho tropical. 
E a linda mulata 
Com rendas do alentejo 
De quem numa bravata 
Arrebata um beijo... 
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal: 
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal! 

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto,
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado, eu mesmo me contesto. 
Se trago as mãos distantes do meu peito 
É que há distância entre intenção e gesto 
E se o meu coração nas mãos estreito, 
Me assombra a súbita impressão de incesto. 
Quando me encontro no calor da luta 
Ostento a aguda empunhadora à proa, 
Mas meu peito se desabotoa. 
E se a sentença se anuncia bruta 
Mais que depressa a mão cega executa, 
Pois que senão o coração perdoa". 

Guitarras e sanfonas,
Jasmins, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca 
Num suave azulejo 
E o rio Amazonas 
Que corre trás-os-montes 
E numa pororoca 
Deságua no Tejo... 
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal: 
Ainda vai tornar-se um império colonial! 
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal: 
Ainda vai tornar-se um império colonial!


Tanto Mar

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