ESCRITORES

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Adoniran Barbosa - 105 anos de um certo João Rubinato

Em Agosto de 2010 completou-se um século do nascimento de Adoniran Barbosa, compositor de samba por adoção, uma das figuras mais singulares da cultura popular brasileira.
Cantor, compositor, humorista e ator, Adoniran imortalizou em suas canções o linguajar típico dos italianos que viviam na capital paulista na primeira metade do século 20. Além de sua música, a televisão também contribuiu para fixar esse jeito de falar, caso da novela Passione, da Rede Globo, que atualiza a tradição do sotaque italiano televisivo, com direito a palavras como "amore" e "tesoro" e cenas gravadas na Itália. Tudo pela verossimilhança de um falar que já pertence à herança cultural brasileira.
Mesmo tanto tempo depois, a linguagem espontânea de Adoniran ainda se faz sentir, sobretudo em bairros tradicionais paulistanos como Bexiga, Brás e Barra Funda, além da própria Mooca, cujo sotaque característico está em vias de ser tombado como patrimônio cultural.
João Rubinato, o Adoniran Barbosa nasceu no dia 6 de agosto de 1910 em Valinhos, interior de São Paulo. Suas canções tinham o caráter de crônicas, ora bem-humoradas, ora trágicas, sobre um povo que veio trabalhar principalmente na construção civil da metrópole.
Ele reproduzia o linguajar mais típico, direto e espontâneo do povo, preocupando-se mais com a fluência e expressividade do que com detalhes e "fricotes" gramaticais ou purismos. Era coisa profissional, comercial, mas no melhor sentido, com base na "cutura" autêntica do povo - garante Ayrton Mugnaini Jr, autor do livro Adoniran: Dá Licença de Contar...
Vocabulário:
Entre as expressões imortalizadas pelo compositor, estão "tiro ao álvaro", "adifício", "homes", "cobertô", "truxe", "táuba", "frechada", "ponhado", "revórver", "lâmpida" e os versos de Samba do Arnesto: "O Arnesto nos convidô prum samba, ele mora no Brás / Nóis fumo e não encontremo ninguém / Nóis vortemo cuma baita duma reiva / Da outra veiz nóis num vai mais".
De acordo com Paola Giustina Baccin, professora da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP), os italianismos foram introduzidos no Brasil por meio de duas grandes correntes migratórias. A primeira ocorreu no final do século 19 e início do 20, com italianos vindos principalmente das regiões da Itália setentrional para o Sul e Sudeste do Brasil a fim de trabalhar na lavoura. A segunda foi após a Segunda Guerra Mundial, com imigrantes vindos da Itália setentrional novamente para a Grande São Paulo, onde foram trabalhar na indústria. [Por Guilherme Bryan, Revista Língua Portuguesa, Edição - 58]
SAIBA MAIS EM: [revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12097]

"Adoniran Barbosa é um grande compositor e poeta popular, expressivo como poucos; mas não é Adoniran nem Barbosa, e sim João Rubinato, que adotou o nome de um amigo do Correio e o sobrenome de um compositor admirado. A ideia foi excelente, porque um artista inventa antes demais nada a sua própria personalidade; e porque, ao fazer isto, ele exprimiu a realidade tão paulista do italiano recoberto pela terra e do brasileiro das raízes europeias. Adoniran é um paulista de cerne que exprime a sua terra com a força da imaginação alimentada pelas heranças necessárias de fora [...]" Antonio Candido
Para ler o texto completo de Antonio Candido sobre Adoniran, acesse:
[palavrademusico.blogspot.com.br/2009/08/adoniran-barbosa-por-antonio-candido]



VÍDEOS ESPECIAIS:
[Especial TV Brasil-1], [Especial TV Brasil-2]


Por Toda Minha Vida [Rede Globo] Adoniran Barbosa.

A ficção poética de Florisvaldo Mattos


Entre os poetas brasileiros surgidos na década de 1960 – fase extremamente criadora, aqui e no mundo – um dos altos postos pertence a Florisvaldo Mattos. Sua obra poética, dominada por uma dicção fortemente pessoal, é, ao mesmo tempo, de uma abrangência e de uma variedade que desconcertam qualquer crítico.
Um dos polos essenciais da criação de Florisvaldo Mattos, como destaca JC Teixeira Gomes, “é o cultivo de um lirismo sempre comedido, trabalhado com extrema propriedade de recursos, sendo certamente o único na sua geração que transita do lírico para o épico com absoluta naturalidade, mestre nos dois caminhos poéticos, consciente do poder que tem sobre as palavras”.
[...]
O vasto conjunto lírico que encontramos na ficção poética de Florisvaldo Mattos representa, portanto, um monumento da poesia brasileira de entre a segunda metade do século passado e a primeira década do presente, erguido por um espírito agudamente atento ao tempo e dele liberto, como sempre é, paradoxalmente, o dos grandes poetas.

Leia o texto completo, acessando:

Para saber mais sobre a obra de Florisvaldo Mattos, acesse:

O poeta baiano Florisvaldo Mattos é dono de uma dicção que combina o rigor formal à alta expressividade lírica. Formado em direito, optou pelo jornalismo, atividade que exerce até o presente. Nos anos 60, integrou em Salvador o grupo da chamada Geração Mapa, liderado pelo cineasta Glauber Rocha. Entre suas obras publicadas, estão "Reverdor" (1965); "Fábula Civil" (1975); "A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior" (1996); "Mares Acontecidos" (2000); e "Travessia de Oásis A Sensualidade na Poesia de Sosígenes Costa". Além de formar gerações como professor da UFBA até 1994, quando se aposentou, Mattos ocupa a cadeira 31 na Academia de Letras da Bahia.

Avalovara - Medonho, impressionante, hermético e poético

Com uma obra hermética e surpreendente, Osman Lins e grande parte de seu legado ainda são pouco conhecidos, apesar do grande sucesso de sua peça Lisbela e o Prisioneiro.
Avalovara -  Romance publicado por Osman Lins em 1973, cuja estrutura, sobre a base de uma espiral e de um quadrado mágico, busca agregar caos e ordem. O crítico Antonio Candido explica esse jogo: "Como num relato de Borges, o modelo deste livro seria um poema, místico em latim, de que se conserva apenas a versão grega da hipotética Biblioteca Marciana de Veneza… O poema fornece o esqueleto de uma geometria rigorosa e oculta, que o Autor revela numa espécie de guia metalinguístico do leitor, e que dá a narrativa um movimento espiralado, sem começo nem fim quando tomado em si mesmo. O limite está no fato de a espiral ser contida num quadrado, que por sua vez se reparte em quadrados menores, cada um correspondendo a uma letra. O traçado da espiral vai tocando sucessivamente as letras, e cada uma destas corresponde a uma linha da narrativa, voltando periodicamente em segmentos cada vez maiores. As linhas são oito, e o seu desdobramento se traduz na história de um homem e das mulheres que amou: uma na Europa, uma em Recife e sobretudo, uma em São Paulo, que de certo modo recebe a experiência amorosa vivida como nas anteriores. As duas primeiras seriam passado, mas funcionando como presente; a última é um presente que se forma a cada instante do passado. Toda a narrativa converge para a plenitude amorosa, numa espécie de gigantesca câmara lenta, que concentrasse o tempo no espaço limitado e no limitado instante em que a plenitude é buscada."

Avalovara - Uma obra-prima de arquitetura literária é um livro para quem curte a linguagem literária em si, para quem aprecia o jogo poético de palavras, cenas, emoções, conceitos, a montagem e a quebra contínua da ilusão de realidade gerada pela literatura.
E para quem quer ver um escritor absolutamente LOUCO em termos de estrutura, o romance segue quase que um esquema matemático fractal no entrelaçamento de oito narrativas dentro de uma espiral inscrita no Quadrado Sator (não esquente, se você ler Avalovara, vai saber o que é esse tal Quadrado Sator!).
E realmente é um troço de doido, pós-modernérrimo, hermético, misterioso, cheio de configurações medonhas e entrelaçamentos narrativos!
A experiência de leitura é totalmente alucinógena e poética, a narrativa passa por momentos de caos e ordem, por passagens narrativas cinematográficas, cenas de sonhos, cenas eróticas psicodélicas, e muita poesia, com frases maravilhosas, tristes, melancólicas, visionárias. É uma espécie de uma obra brasileira do mesmo escopo da Odisséia de James Joyce, Avalovara é uma experiência literária poderosa, recomendada para leitores que realmente curtam literatura poética e com muito estilo e autores.
“Avalovara” é uma narrativa experimental unificada pelo amor e o desejo entre os protagonistas, que se processa em cenas eróticas e de exploração da sensualidade, misturando pontos de vista e mergulhando em uma experiência interna da mistura de almas que acontece em uma relação profunda.
E o que impressiona é a coexistência do caos e da ordem na narrativa, da fantasia e do realismo, do imprevisto e do calculado, desde a concepção da obra como na execução.
Recomendadíssimo, uma joia da nossa literatura, única na literatura mundial, acredito!
Para leitura completa do texto, acesse:

O romance propõe um complexo jogo de leitura, cujo percurso é dado, nas páginas iniciais, por uma espiral e um quadrado. Dentro do quadrado se organiza um palíndromo - Sator arepo tenet opera rotas: a cada uma de suas letras corresponde uma linha narrativa. Uma das traduções para a frase em latim é oferecida pelo narrador: "O Lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita". Essa formulação reforça a deliberada tentativa de chamar a atenção para o artifício da obra literária: o narrador pertence a um mundo ficcional criado pelo autor - em Avalovara, contudo, também o narrador constrói esse mundo.

Diário poético de duas escritoras que percorrem lugares da cidade de São Paulo por onde passou e viveu o escritor pernambucano Osman Lins. Neste diário, evocam trechos de dois de seus romances principais, AVALOVARA (1973) e A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA (1976) onde esses lugares foram incorporados.

Sete livros, Sete autores e os Sete pecados capitais

Uma série tentadora: a coleção Plenos Pecados reúne sete livros diferentes, sete autores talentosos, cada um deles escrevendo sobre um vício capital: inveja, luxúria, avareza, preguiça, ira, soberba e gula. Um convite à reflexão - e também ao prazer.
Temas que fascinam e aprisionam os homens, ao longo de séculos, os pecados são analisados, nesta coleção, sob um ponto de vista contemporâneo e libertador - o que deles permanece, como noção de ofensa e erro, em nosso imaginário? que limites traçam, até onde nos desafiam? como oscilar, sem culpa e medo, entre a condenação e a celebração do pecado?
Plenos Pecados, Editora Objetiva, tem projeto gráfico de Victor Burton, com imagens de artistas plásticos criadas especialmente para a coleção.

A seguir as resenhas críticas de Mal Secreto [Inveja] e A Casa dos Budas Ditosos [Luxúria], Por Cristiano Contreiras, blog Apimentário:

"O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde." Por esta premissa que o jornalista e escritor Zuenir Ventura se aprofundou durante pouco mais de dois anos de estudo. Mal Secreto, o primeiro livro da Coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, é um convite contundente e um amplo mergulho apimentado ao mais conhecido pecado. Uma ode à reflexão e também ao prazer desmedido. Com uma narrativa detalhada, cuidadosa e atenta, observamos o autor na sua trajetória densa para revelar algumas das variadas facetas desse inconfessável pecado. Como se configura o pecado inveja dentro da sociedade? Qual realidade deste pecado é evidente no seio familiar? O que motiva a concepção e a submissão da inveja entre os seres humanos? É uma doença? Existe razão para isso? Zuenir compartilha de suas próprias experiências de estudo, o livro acaba por funcionar como um making off do próprio livro: em uma linguagem jornalística, o autor demonstra os bastidores de suas entrevistas, visitas e pesquisas para a concepção de seu tema. Através de personagens reais, observamos situações cotidianas e exemplos precisos de como este estranho pecado se mescla, condiciona e é apresentado dentro da configuração do dia-a-dia. Alguém teria coragem de revelar que sente inveja por outrem? Como se sustenta esse estranho sentimento - ou seria motivação - de um para o outro? Quão dissimulado é o ser humano a ponto de provocar o fracasso do outro por sentir uma simples inveja?
Querem esquentar o sexo com polêmica? Leiam a suruba literária mais libertária de todos os tempos, sem medo repressivo: é pura sensualidade em cada linha, altamente inovador e viciante. Um livro pode provocar orgasmos múltiplos? Incondicionalmente, sim. A casa dos budas ditosos é um romance impudico, provocador e instigante - graças, obviamente, à genialidade da escrita ácida-irônica sexualizada proposta por João Ubaldo Ribeiro. O autor desnuda o sexo de uma maneira jamais vivenciada, sem censura - há inúmeros contextos sobre homossexualidade, incesto, celibato, monogamia e muitas teorias sobre filosofias-religiosas sexuais. Sob o alter-ego de uma senhora devassa, ousada e libertina, observamos toda a trajetória narrada, suas próprias memórias: são expressas suas aventuras sexuais, amorosas e sentimentais, tudo rememorado num tom confessional e quase panfletário. Um relato verídico? Eis a grande sacada criativa do Ubaldo. Com maestria, o livro é um relicário textual de pura febre da luxúria, repleto de muito apetite sexual e personagens intensamente perversos em devassidões, indomáveis e sensuais. Através da personagem-narradora - vivenciamos, com todo prazer, suas infinitas possibilidades do sexo. É uma narrativa incomum, por vezes chocante e com provocante dose de pecados íntimos do ser humano. O sexo trancende ou é transgressor? Eis que a literatura é argumentada com o conceito da putaria erótica, todo o livro tem o aspecto de monólogo vibrante que é a plenitude: muita transa pervertida, amores lascivos e atos secretos libidinosos. As ideias e práticas libertárias na área da sexualidade e, relacionamentos pessoais extremamente flexíveis, contrapõem-se a uma sociedade portadora de valores conservadores e de conduta moralista. Quão doentio pode ser o vício no sexo casual? Qual o valor da integridade do desejo? O tesão faz parte da promiscuidade licenciada? Um livro cicatrizante - uma ode à pornografia como forma literária? Tudo de mais quente, polêmico e perturbador é expresso em cada parágrafo. Leiam, sintam e gozem!

Vídeos de adaptações de "A Casa dos Budas Ditosos" para o Teatro:
[Fragmento-1], [Fragmento-2], [Fragmento-3]

Os Sete Pecados Capitais com Jorge Forbes | Programa Todo Seu - 02/02/2015