ESCRITORES

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A obscena senhora D - livro que marca o ápice da carreira de Hilda Hilst

“…e o que foi a vida? Uma aventura obscena, de tão lúcida”. Hilda Hilst



Trechos de "A obscena Senhora D":
“Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem porisso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu a procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas. Derrelição Ehud me dizia, Derrelição – pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud
compreender o quê? 
isso de vida e morte, esses porquês 
escute, Senhora D, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, heim? E apalpava, escorria os dedos na minha anca, nas coxas, encostava a boca nos pêlos, no meu mais fundo, dura boca de Ehud, fina úmida e aberta se me tocava, eu dizia olhe espere, queria tanto te falar, não, não faz agora, Ehud, por favor, queria te falar, te falar da morte de Ivan Ilitch, da solidão desse homem, desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não é existe mas é crua, é viva, o Tempo."

“não compreende o quê? não compreendo o olho, e tento chegar perto. Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro, o que é casa, conceito, o que são as pernas, o que é ir e vir, para onde Ehud, o que são essas senhoras velhas, os ganidos da infância, os homens curvos, o que pensam de si mesmos os tolos, as crianças, o que é pensar, o que é nítido, sonoro, o que é som, trinado, urro, grito, o que é asa hein? Lixo as unhas no escuro, escuto, estou encostada à parede no vão da escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro além da palavra, expressam-se mas não compreendo, pulsam, respiram, há um código no centro, um grande umbigo, dilata-se, tenta falar comigo, espio-me curvada, winds flowers astonished birds, my name is Hillé, mein name madame D, Ehud is my husband, mio marito, mi hombre, o que é um homem?”

Leia excelente resenha do livro, acessando:
[livroecafe.com/2012/03/27/a-obscena-senhora-d-hilda-hilst]
Saiba mais sobre a obra, acessando:
[institutohildahilst.tumblr.com/search/obscena+senhora+D]

Parabólicas e Mandacarus [Um lugar chamado Riopara] - Capítulo I

Chegara o dia de Riopara partir em sua viagem para imergir no fluxo universal do tempo. Partia com sua singularidade, suas crenças, histórias e reminiscências. Sua essência fluviocatingueira imergia com todos os sonhos, pesadelos e pecados cometidos. A cidade vivia as últimas horas de um apocalipse adiantado no tempo e submergia com seu casario antigo, com a força e a fúria de seus deuses, seus mortos, seus totens, anjos e demônios; Riopara sumia com sua concepção do mundo, sua ancestralidade e seu modo de menina; com suas idiossincrasias, seus imponderáveis e sua felicidade libertina.
Março, manhã, mormaço; dia típico na região são-franciscana. Luz solar intensa; lume cintilante sobre a superfície das águas. Encontrava-me em cima da parte que ainda restava da bela base maciça de alvenaria no alto do antigo cruzeiro, e com absoluta consternação, contemplava o rio São Francisco avançar sobre a cidade, numa enchente diluviana, em vaga fluvial volumosa, e submergir vastas extensões de terra, vilarejos, veredas e plantações; templos, terreiros e antigos casarões; ruas, estradas e o sepulcro das almas que me eram familiares, quando pressentir Justino Jatobá ser arremessado às águas impulsionado por balas de grosso calibre, despedir-se desse mundo e reencarnar no mesmo instante noutra forma de vida, reviver num Salminus brevidens - peixe tubarana, piraju, peixe dourado. Naquele instante em que Justino Jatobá voltava à vida para reiniciar vivência com outra aparência física, um cheiro forte de terra seca desvirginada pelas águas da cheia impregnava a atmosfera.
Agora, Riopara inexistia, era não lugar, jazia imersa sob longos céus e a vastidão de um lago antrópico; transubstanciara-se. Aves de arribação cruzavam o céu em busca de pouso e habitat noutras paragens; e por baixo d'água, uma vida inteira repousava na memória, no aroma e no remanso das águas do “Velho Chico”. Suavemente, Riopara encantou-se; e, antes que o sol desse dia decaísse, sua alma surreal sumiu  no seio do rio...


“...gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.”
JOÃO GUIMARÃES ROSA




PRIMEIRO CAPÍTULO - UM LUGAR CHAMADO RIOPARA

“Onde eu nasci passa um rio
Que passa no igual sem fim
Igual sem fim minha terra
Passava dentro de mim"
CAETANO VELOSO



Toda cidade pequena é outra Macondo; cada uma assemelha-se à sua maneira. Riopara não escapava à regra: espaço-tempo decorrido, era um lugar insólito e natural, intensamente fluvial, tornando-se aos poucos não urbana, agreste, transmudando-se em terras e plantas semiáridas. Nela vivia uma gente incomum, fluviocatingueira; sobressaíam as antagônicas famílias Jatobá e Tapuia.

Dez anos anteriores à inundação, Riopara era cidadezinha singular com seus mortos, anjos, demônios e não mais que dois mil viventes. Local onde todo mundo se conhecia e onde tudo se sabia, até mesmo aquilo que ainda não tinha acontecido. Majestosa, pequenina e familiar, nela se podia ir a pé a qualquer lugar. No cenário urbano eram determinantes as casas de construção antiga e ruas estreitas calçadas de pedras graníticas lapidadas. Um cais, em forma de ramo de hipérbole, construído no contorno da cidade, protegia os casarões de reboco, adobe ou taipa das enchentes periódicas anuais. Todas as construções ladeavam a margem direita de um volumoso rio de águas verde-barrentas, que no seu leito largo, arrastavam vagarosamente seixos e areias brancas, vegetação arbustiva e enormes touceiras de capim arrancadas das margens, que quando encalhavam nas pedras formavam ilhotas ao longo do seu curso. Devido à sua posição e altitude em relação às margens, a natureza que servia de berço a Riopara atordoava pela imensa beleza; a vista do entorno espantava qualquer cansaço: límpidas praias temporárias, lagoas, baixios, ilhas, barcos e velas na direção do rio; rochedos, montes e serras no rumo da caatinga.

Riopara tinha um próspero comércio em função de seu movimentado porto.  No antigo embarcadouro atracavam mais de trinta navios fluviais chamados de vapores, afora: barcas, batelões, balsas de remeiro e rebocadores para proverem-se de lenha e abastecer comerciantes locais com diversificados tipos de mercadoria, cereais, rapadura, sal refinado, querosene, cachaças de Januária e outros produtos de consumo barranqueiro. Embarcações de todas as procedências que serviam toda uma região desprovida de estradas pavimentadas e ferrovias. O rio era a única via de acesso num segmento navegável de aproximadamente 1370 km; estrada fluvial que no seu leito largo e contorcido ia se arrastando como cobra em cada corredeira, em cada curva, em cada porto e ribanceira, ocultando mitos e mistérios entre Juazeiro na Bahia e Pirapora em Minas Gerais.

Os vapores davam a conhecer aos moradores das suas chegadas com longos e melodiosos apitos e pelo barulho resfolegante de suas rodas-d’água e caldeiras. Ao som dos apitos, parte da população se encaminhava para o porto em grande alvoroço, ansiosa por notícias alvissareiras, retorno de parentes, chegada de pessoas de fora ou para vender produtos locais. – Olha aí pessoal! Olha a melancia, pinha, manga-rosa, goiaba, quem vai querer?..., gritavam alguns vendedores mais agitados. Outros ofereciam mel de abelha, beijús-cambraia, esteiras de taboa ou de palha de carnaúba, queijo de leite de cabra e requeijão. Mercadorias de boa qualidade e aceitação. Durante a estadia do navio, tudo era vendido para tripulantes e passageiros. Em minutos nada sobrava. Depois das manobras de desatracação, quase todas as pessoas permaneciam paradas no porto esperando o vapor partir e desaparecer no curso sinuoso do rio.

Transcorria Janeiro de 1967. O vapor Benjamim Guimarães, primeira embarcação a atracar, chegou a Riopara trazendo uma encomenda para Justino Jatobá, o então prefeito: uma antena parabólica.
Logo após o descarregamento dos caixotes contendo a antena e acessórios, o comandante do navio, sujeito corpulento, de grande estatura e feição acaboclada, barba branca e de mãos enormes, que se apresentou como Leonídio Barroso, deu a conhecer às pessoas presentes aquilo que ele considerava a maior invenção tecnológica do século XX. O artefato que tiraria Riopara do isolamento, do atraso e da incomunicabilidade cultural. A população da pequena vila iria se conectar ao resto do mundo tão logo a antena fosse instalada e tivesse o foco direcionado para a vastidão da esfera celeste em busca de satélites.

A parabólica foi transportada até a cidade no lombo do jumento Tinhoso. Francisco Oliveira, cognominado Chiquinho do Jegue, foi cedo ao porto esperar o vapor em que chegava a antena, para em seguida, transportá-la no seu burrico até a casa de Justino Jatobá. Chiquinho puxava o asno com a certeza de que levava a modernidade, as transformações sociais da época, novos padrões culturais, enfim: a civilização. Todo orgulhoso, durante o caminho, seguido por uma multidão bastante diversificada, Chiquinho ia anunciando a boa-nova, quando de repente, o jegue cismou de empacar defronte ao adro da igreja matriz.

O transporte da parabólica teria acontecido dentro da normalidade não fosse a atitude inesperada do jegue que acabou transformando o traslado do equipamento num dos fatos mais insólitos já vividos pela população. No meio do trajeto, uma grande confusão se estabeleceu quando Tinhoso parou ao chegar diante da igreja. O beato João do Rosário, única pessoa em Riopara contrariada com a chegada da antena, antevendo não se sabe o quê, proferiu fanaticamente: “esse troço é uma arte do capiroto, só vai trazer devassidão, lascívia e muita safadeza!”, e, sem piedade, começou a espancar o animal.

João do Rosário irou-se ainda mais quando um grupo de garotos assanhados e as lascivas moças do bordel de Maria Xibiu Seco começaram a bater palmas para o animal, crentes em que o muar desejava que o padre Jesuíno benzesse a parabólica. A atitude dos rapazes e moças irritou o beato, que bradou: “Tirem esse animal da calçada da Igreja! Aqui é um local santificado, lugar de veneração e respeito a Deus.” Era como se o jegue Tinhoso carregasse nas costas todas as iniquidades, mazelas e obscenidades do mundo.

Chiquinho não se conformava. Gritava e assegurava que tinha o direito de ir e vir com seu jegue para onde bem quisesse. Isso encolerizou ainda mais o beato, que de posse de um porrete, atingiu as pernas do animal ameaçando aleijá-lo. O gesto intempestivo do beato revoltou os garotos, as putas, Maria Xibiu Seco, até mesmo Zeca Tapuia, um sujeito sempre propenso à crueldade e vilanias, e demais pessoas paradas nas cercanias da igreja. Às pressas, dois policiais plantonistas foram chamados para tentar resolver o impasse do jegue. Um dos soldados queria obrigar Chiquinho a tirar o bicho do local. Muito revoltado, Chiquinho disse: “meu animal foi agredido! Exijo que esse maldito beato seja preso imediatamente”.

Para aumentar ainda mais a confusão, o impassível jegue começou a zurrar e se dirigir em direção às escadas de acesso à porta principal da igreja. A cidadezinha se quedou inteiramente perplexa, irresistivelmente atraída por aquela celeuma. Formigava de gente nas imediações do templo. Todos ansiavam pelo desfecho daquele acontecimento raro. Os policiais queriam que todos fossem embora, mas mudaram de ideia quando o jumento numa investida espetacular resolveu subir, mijar e cagar nas escadarias da igreja. Foram grandes o rebuliço e o alarido geral.

- “Vai todo o mundo agora pra delegacia, inclusive o jegue”, – bradou o militar mais velho.

Na delegacia, após a entrega da parabólica em domicílio de Justino Jatobá, mais um entrave surgiu na hora de apresentar o jegue ao delegado: Chiquinho empregou vários meios, fez de tudo, mas não conseguiu fazer o sestroso jumento subir a rampa de acesso ao pátio. O animal acabou amarrado numa árvore em frente ao prédio, vigiado pelos populares. Um boletim de ocorrência por maus tratos contra animal foi lavrado e o jegue encaminhado para exames no Centro de Zoonoses da vizinha cidade de Juazeiro. Atestadas as lesões, obrigado a arcar com as custas e condenado a prestar serviços comunitários, meses depois, João do Rosário foi acusado de pedofilia; desta vez encarcerado, enlouqueceu, enforcou-se.

Henry & June - Relato intenso da intimidade e autobiografia sensual de Anaïs Nin

Tirado dos diários de Anaïs Nin [1903-1977], Henry & June é um relato íntimo do florescer sexual da autora. Cobre um só ano – dos últimos meses de 1931 ao final de 1932 – da vida de Anaïs Nin em Paris, período em que ela conheceu o escritor americano Henry Miller e sua bela mulher, June. Anaïs Nin apaixonou-se pela beleza de June e pela escrita de Miller; logo iniciou com ele um affair que a libertou sexual e moralmente, minou o seu casamento e a levou à psicanálise.
Considerado por muitos o melhor livro de Anaïs Nin, Henry & June foi publicado na década de 1980, após a morte da autora. Não constou dos diários publicados em sete volumes a partir de 1969. Discute-se o quanto de ficção e fantasia ele contém – o que não tira em nada a força do texto de Anaïs; somente reforça a questão: não será a própria Anaïs a mulher misteriosa e complexa que a atraiu em June? Em 1990, o livro foi adaptado para o cinema, com Maria de Medeiros e Uma Thurman nos papéis de Anaïs e June.

Para ler um trecho, acesse:

Para saber mais sobre a obra e a autora, acesse:
[HENRY E JUNE - Anaïs Nin - L&PM Pocket]

Transposição da obra para o cinema: Henry & June, filme estadunidense de 1990, do gênero drama erótico e biográfico, dirigido por Philip Kaufman é uma adaptação cinematográfica da obra Henry, June and me, de Anaïs Nin. O filme conta o início da relação de Henry Miller com Anaïs Nin. Henry vai viver na França e é convidado pelo marido de Anaïs a visitá-los. Anaïs, à procura de algo novo, mais espontâneo, apaixona-se pela vivacidade de Henry. Porém, Henry está apaixonado por June.
Anaïs, nutrindo admiração por Henry, começa a observá-lo, e apaixona-se pelo amor que ele tem por June. Essa paixão também a faz apaixonar-se por June. No meio desses sentimentos, inicia-se uma relação de Henry com Anaïs, transformando suas vidas, tanto de escritores como de amantes.




A lendária, breve e arrebatadora carreira musical de Janis Joplin

De carreira breve, mas arrebatadora, com aquela voz alta e rouca, da terra, explosiva, do âmago de seu ser, que permanece entre as mais distintas da história da música pop mundial e certamente a cantora mais importante de sua geração, ela se tornou um fenômeno do rock and roll de pleno direito e um farol de estilo contracultural. Ela realmente era plena de energia no palco, razão pela qual ainda goza de uma reputação tão lendária como artista pop. Janis Joplin oferecia tudo para seu público. Ela também foi a única mulher a alcançar esse tipo de estatura no mundo da música pop de então, um reduto basicamente masculino. Janis Lyn Joplin foi uma cantora e compositora norte-americana. Considerada a "Rainha do Rock and Roll, "a maior cantora de rock dos anos 1960 e "a maior cantora de blues e soul da sua geração", ela alcançou proeminência no fim dos anos 1960 como vocalista da Big Brother and the Holding Company e, posteriormente, como artista solo, acompanhada de suas bandas de suporte: a Kozmic Blues Band e a Full Tilt Boogie.
Influenciada por grandes nomes do jazz e do blues, como Aretha Franklin, Billie Holiday, Etta James, Big Mama Thornton, Odetta, Lead Belly e Bessie Smith, Janis fez, de sua voz, a sua característica mais marcante, tornando-se um dos ícones do rock psicodélico e dos anos 1960. Entretanto, problemas com drogas e álcool encurtaram sua carreira. Morta em 1970 devido a uma overdose de heroína, Janis lançou apenas quatro álbuns: Big Brother and the Holding Company (1967), Cheap Thrills (1968), I Got Dem Ol' Kozmic Blues Again Mama! (1969) e o póstumo Pearl (1971), que foi o último álbum com participação direta da cantora.

Saiba mais sobre a vida e obra de Janis Joplin, acessando seu site oficial: