ESCRITORES

ESCRITORES
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

Jorge Luis Borges em Essência

Mestre da narrativa curta, o escritor argentino foi um arqueólogo dos símbolos. Explorou mitos, labirintos e espelhos em seus contos. Na vida real e na ficção, recorreu à ironia para suportar as limitações da condição humana.
[...]
"Ficções" e "O Aleph" são os dois mais importantes livros de Jorge Luis Borges. Borges não seria Borges sem essas duas obras. Ele sempre preferiu a narrativa curta, que possibilita maior controle na execução. Por isso o conto, o conto-ensaio e a poesia foram seus gêneros prediletos.
[...]
Folheie a [Revista Metáfora] até as páginas 58, 59, 60, 61, 62 e 63, amplie, e leia o texto completo no ensaio do crítico Jorge Schwartz que analisa o estilo do autor argentino: labirintos, espelhos e sonhos.

Ingresia - Ironia, humor e galhofa na verve sertaneja de Franciel Cruz


Franciel Cruz Ingresia
O livro é uma coletânea de contos sobre a Bahia, com histórias do cotidiano, inventadas ou não. “Tem textos sobre política, alguns pretensiosamente culturais e futebol. Selecionei de acordo com os temas, para costurar o livro, para um texto dialogar com outro. Não dividi por capítulos, mas o fluxo divide bem”. Franciel contou a ABI que “Ingresia” surgiu por insistência dos amigos que acompanhavam seus escritos. As noventa crônicas produzidas desde o início dos anos 2000 estavam registradas em blogs e nas redes sociais. “Nunca tive ideia de fazer livro, nunca tive pretensão no campo literário, está sendo uma surpresa”, afirma.
Descrito no prefácio por Cláudio Leal como “um narrador empurrando as portas do mundo” e “repórter de perguntas sem afagos”, Franciel tem um estilo cortante que mescla humor, ironia, hostilidade e lirismo, em uma intrigante contradição. No posfácio, Setaro diz que “a sua pena é da galhofa, da ironia, exercitando sempre no que diz e no que fala, o seu pessoal sentido de ironia, de ver as coisas da vida com peculiar humor”. Em referência ao famoso blog que deu origem ao livro, o crítico já refletia sobre o que chamou de “estilo francielliano”, uma maneira própria de mexer no verbo. Setaro considerava sua escrita distante dos discursos acadêmicos caracterizados, segundo ele, “pelo desprazer da leitura”. Como disse Xico Sá na orelha do livro, “besta é tu que ainda não conhecia a maldita ingresia”…
Leia o texto completo, acessando:



Para saber mais sobre a obra de Franciel, acesse:
[www.youtube.com/watch?v=0VsRg7h85qU]

Parabólicas e Mandacarus - Autorretrato - Conto II


AUTORRETRATO

Entro no meu quarto e me deito para descansar um pouco; fazendo a análise de minha vida pregressa, me dei conta dos aspectos mais representativos, das inquietações mais agudas que constituíram os fundamentos da minha existência. Meus lastros fundadores sempre me impeliram para fugir dos padrões dominantes e não ocupam lugar em espaços de espíritos exemplares, vivem na casa dos desviantes e dos maus exemplos, estou no rol daqueles que ninguém governa. Ajusto-me a mim, não ao mundo.

Adormecido ou acordado, minha alma, corpo e nariz apontam para os chapadões rioparenses, na linha do nada onde tudo se reparte em aura de mistério, livusias, ideias, pessoas e abstrações. Tenho boca ávida pela vida e pela água do “Velho Chico”; meu coração quer entranhar o mundo em mim enquanto meus olhos miram atentos e abarcam todas as paisagens do sertão profundo.

Percorro estradas e caminho pelo mundo sem saber filosoficamente quem sou, nem por que estou aqui. No vagar do tempo, vou vivendo.

Fluviocaatingueiro das barrancas são-franciscanas, cresci no seio leitoso da caatinga navegando em barcos ou montado em jumentos; descalço, livre e exalando do corpo aquele indefinível cheiro da juventude, tive os pés regulados para andar por caminhos e veredas, cabelos esvoaçando ao vento, ouvindo os sons de uma fauna alegre e bucólica; matuto liberto do tempo, vivia absorto, contando estrelas, nadando na terceira margem do rio, entregue a fantasias e devaneios.

Em Juazeiro, na adolescência, vivenciei o amor, esse rio imenso que tudo leva em seu curso, ante o qual sentimos que não se pode resistir; experimentei as primícias do sexo e o delicado abismo da loucura; aprendi a fumar e a beber, matei aulas no colégio para estripulias amorosas e conheci um anjo safado de grande sabedoria, que me disse: vai Edinho, ser torto na vida.

Passei um tempo na terra das alterosas e o meu coração que até então era baiano-vadio ficou barroco-mineiro. Subi e desci ladeiras da pátria Minas imaculada onde foram inventados o silêncio, a liberdade e a terceira margem do rio. Descobri que na vida existem mais hipóteses do que teoremas. Supor é melhor que demonstrar, pois na dúvida reside a vontade de continuar a viver.

Depois deixei a memória, o patrimônio de séculos construído pelo homem, o silêncio das montanhas e a voz interna de minha alma na terra “de onde o oculto do mistério se escondeu”, de onde o Velho Chico vem. Calcei chinelos, peguei o trem, e vim embora para cá onde as ruas ora são largas, ora estreitas, antissimétricas e calçadas de “pedras polidas pisadas de pretos”, os sons das sirenes são atabaques, padres, pastores e poetas são da noite, o vizinho que mora ao lado é Quincas Berro D’água, os malucos são beleza, árvores são centenárias e sagradas, o cantar das aves é intrigante, a religião oficial é eclética, bela e eficaz, mistura santo com comida, pipoca-branca com hóstia, encruzilhada com catedral e coruja-ebó com monsenhor; e o acarajé, especialidade magnífica da culinária afro-baiana, é o hambúrguer do povo.

Em Salvador nasci pela segunda vez; meu coração bateu aflito, mas assim que vi o mar, serenei e tudo que havia existido voltou subitamente, e volta sempre, quando caminho pelo calçadão do Porto da Barra até ao Largo das Gordinhas em Ondina ou circundando as sinuosas curvas do enigmático Dique do Tororó à sombra de enormes árvores centenárias.

Na terra de todos os santos iniciei minha estirpe dando existência a duas lindas descendentes femininas; e em terra coirmã, a um belo varão. Às mulheres que amei e com quem convivi devo muito do que sou naquilo que possa ter de virtuoso. Aí, o que foi e o que poderia vir a ser andam comigo, incluindo o sonho e a liberdade de um libertino a vaguear pelas licenciosas ruas da Bahia.

Entusiasta da liberdade, não gosto que me deem ordens nem me digam o que devo fazer, por isso gosto tanto de viajar por esse mundo afora onde “ninguém dirige aquele que Deus extravia”.

Sou anjo torto, um traquinas que não consegue contrariar o seu signo de baiano rioparense, de vagabundo iluminado da Latinoamérica, pois tenho a convicção de que morrerei, conforme a canção, de “amores, de susto, de bala ou vício, entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços nos braços, nos olhos, nos braços de uma mulher”.

O universo mágico, poético e insólito dos contos de Murilo Rubião

"Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda, vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos"








Contos - Murilo Rubião
"(...) Meu pai, homem de boa cultura humanística, era filólogo e pertenceu à Academia Mineira de Letras. Escrevia com rara elegância, apesar de gramático. Dele herdei a timidez e um certo ar cerimonioso, que me tem privado da simpatia de numerosas pessoas. Algumas delas mulheres, o que é lamentável. (...) Muito poderia contar das minhas preferências, da minha solidão, do meu sincero apreço pela espécie humana, da minha persistência em usar pouco cabelo e excessivos bigodes. Mas, o meu maior tédio é ainda falar sobre a minha própria pessoa."
 (Trechos de Auto-retrato, Murilo Rubião)


Uma obra composta de trinta e dois contos não muito longos pode parecer um tanto inconsistente. Mas seu autor passou a vida toda reescrevendo-os, como se ele próprio fosse um personagem que explorasse as fronteiras do absurdo, tema ao qual se filiou desde os primeiros escritos, mesmo antes de ler Kafka, García Márquez, Borges ou Cortázar.
Murilo Rubião (1916-1991) assume, no entanto, a influência de Machado de Assis em sua obra. Sobretudo em contos como Memórias do Contabilista Pedro Inácio e O Pirotécnico Zacarias que, entre outros, fazem dele o precursor do realismo mágico na literatura brasileira. Em todos eles, epígrafes bíblicas inspiram a leitura, universalizam-na. A figura feminina também tem presença unificadora, com a força de violento encanto.
Duas linhas dimensionais, a do inverossímil e a da estranheza que tangencia o real - angústia e solidão -, saltam da obra de Rubião em forma de desvio da realidade, esse mundo que não é, mas, muitas vezes, bem que poderia ser. Vemos Rubião em Dias Gomes, em Chico Buarque, mas o enxergamos mesmo é no incômodo mais excêntrico, no fato de estarmos vivos.

Por Marcílio Godoi - Revista Língua Portuguesa - edição - 112

Saiba mais sobre a vida e obra de Murilo Rubião, acessando:

A artista orientadora Rita Bancalero nos convida a viajar pelo universo da LITERATURA FANTÁSTICA de MURILO RUBIÃO, falando sobre sua vida e obra, apresentando o conto "TELECO, o Coelhinho".


Ladeiras, vielas & farrapos - Tom Correia


Tom Correia

Salvador ubíqua e nua

O livro encerra um rico mosaico de narrativas muito bem construídas. Elas se conectam de forma sutil, com uma arte caprichosa: ligam-se umas às outras na profundeza de que emergem, sem perder sua independência, o acabamento que as distingue. Cada uma delas parece refletir a estrutura do conjunto móvel, como uma sinfonia de mestre, sem sacrifício da singularidade dos diferentes movimentos. A gente pode deter-se num dos picos dessa cadeia e estudar-lhe o panorama sem que a surpresa nos abandone nunca, pois a paisagem se expande e se modifica a nossos olhos, pronta e envolver-nos a cada avanço com suas curvas inesperadas, insinuantes.
Outra imagem me ocorre, talvez mais exata para falar dessa composição: ela me sugere um labirinto de espelhos que refletem e transformam um único personagem, fazendo-o, porém reconhecível de forma inequívoca nas sucessivas metamorfoses, através das muitas máscaras que lhe empresta. O personagem onipresente que se desnuda na superfície ocelada desse abismo é a Cidade do Salvador. Ela se expõe aqui num striptease desaforado e lírico, brutal, patético, com furor carnavalesco e escandalosa sinceridade.
O espetáculo é a um tempo cruel e fascinante, rico de uma fantasia que nada oculta, antes desmascara, Uma ironia feroz anima o jogo de alegorias criativas que descobrem seu objeto ao distanciá-lo em aparência. (Falo aqui de "alegoria" no sentido em que o conceito foi renovado por Walter Benjamin; evoco o variável de que se valeram autores com Kafka, Chesterton, Cortázar, Lezama Lima). Essas alegorias multiplicam a figura única, seguidamente transformada de forma reveladora, no ritmo de uma dialética inventiva, que não hesita em face do paradoxo.
O resultado é um desnudamento. Cá está a cidade que se esforçam por ocultar seus celebrantes oficiais, seus políticos, seus publicitários e tartufos, seus exploradores, seus gigolôs. No estranho palco apocalíptico de Tom Correia ela aparece com toda crueza, exibindo farrapos e chagas, miséria e graça que nada extinguem. Na dança trôpega de suas ladeiras infernais, nos espasmos de suas vielas sórdidas, mostra-se um brilho inesperado que uma escrita ágil captura. A essa luz crua, profética e viva, revela-se a esquecida, escondida, incontrolável Salvador: a metrópole negra, pobre, torturada, trágica, fantástica, desgraçada, cômica, luminosa, suja e desvairada, uma radiante, frenética prisioneira de seus fantasmas, sempre tentando evadir-se com alucinados esplendores e sempre recaindo em feroz vertigem.
[...]
A dureza com que esculpe o retrato cruel da cidade amada não impede que Tom Correia faça uso de outros tons, não inibe a variedade de recursos expressivos, por vezes manipulados polifonicamente no extremo oposto do seu espectro poético: não estanca, por exemplo, o frescor e a ternura de que sua linguagem também é capaz, nem tolhe seu bom manejo da paleta lírica, com bem mostram os contos "Rolimãs" e "Água Brusca". Poucos ficcionistas reúnem essas habilidades.
Falta-me aqui espaço para seguir explorando toda a riqueza do livro de Tom Correia. Encerro com uma alegre constatação: temos um escritor baiano perfeitamente capaz de ombrear com os maiores nomes da literatura brasileira contemporânea. Tomara que sua terra não demore a dar-lhe esse reconhecimento. 
Por Ordep Serra - Escritor e Antropólogo


Minha história: Tom Correia

Falo de mulher - Ivana Arruda Leite

Ivana Arruda Leite
Longe dos estereótipos femininos, as personagens desse livro de contos de Ivana Arruda Leite são mulheres que articulam seus planos na cozinha, à beira do fogão, em frente à televisão. “Eu e a Marieta Severo não temos tempo pra solidão. Ela foi casada com Chico Buarque, eu com João Teodoro” (p. 81). Em vez de sair gritando por aí, preferem sovar o marido na tábua de bifes. Vivem se metendo em amores que nunca dão certo, mas não desistem. O humor (patético, negro) está presente em todas elas. Podem até se fazer de coitadinhas, mas “abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz” (p. 83).
São mulheres divididas entre a pós-modernidade “o que me irrita nestes rapazes com quem tenho transado é a mania de querer conversar depois do sexo” (p. 31) e a tradição, “Seu sonho era casar-se como Lady Di, Grace Kelly ou Jaqueline Onassis” (p. 77). Ivana expõe o dilema de se ter um pé em cada margem do rio.

Leia alguns contos do livro, acessando:  
[https://www.amazon.com.br/Falo-Mulher-Ivana-Arruda-Leite-ebook]

Nascida em Araçatuba-SP, Ivana Arruda Leite é contista, romancista e socióloga. Ainda menina, muda-se para São Paulo, e em 1971, ingressa na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, mas deixa o curso em 1975, sem concluí-lo. Em 1985, estuda ciências sociais na USP, gradua-se, faz mestrado e passa a trabalhar como socióloga concursada na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo. Publica seu primeiro livro de contos em 1997, Histórias da Mulher do Fim do Século, seguido de Falo de Mulher, em 2002. No ano seguinte, faz uma incursão na literatura destinada ao público juvenil, com o lançamento do livro Confidencial - Anotações Secretas de uma Adolescente. A partir de 2004, lança uma série de adaptações de clássicos universais.





Saiba mais sobre a obra de Ivana Arruda Leite, acessando:
[https://www.itaucultural.org.br/ivana-arruda-leite-escritores-leitores]


A escritora e mestra em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) Ivana Arruda Leite revela o processo de criação de seus personagens e lê contos de seus principais livros. É autora de obras como Falo de Mulher e Ao Homem Que Não Me Quis:




Dessemelhanças femininas e o lado delirante da noite (Conto integrante do meu livro Parabólicas e Mandacarus)

 

      Todo sábado às oito da noite vou à região portuária, zona boêmia da cidade, ocupo lugar na mesa oito do bar do Bira, bebo cervejas igual a um bávaro e lá findo a noite para me aprazer com mulheres ou, em ocasiões especiais, com um homem. A ritualística de minhas noitadas começa quando chego ao bar e bordel do Bira e dialogo intimamente: quem fará com que a vontade luxuriosa dos deuses da noite se cumpra?

Será a balzaquiana? — cujo rosto já denota certa materialidade do tempo; com seus olhos azul-topázio, de gestos mansos, meiga e manhosa; de pele alvinha e sem manchas, mamilos cor-de-rosa, fera selvagem quando está comigo na cama; assemelha-se demais aos felinos com sua sexualidade agressiva e seu caminhar sigiloso de gata vadia.

Ou será aquela com avidez de ventre capaz de saciar uma cidade inteira? — fêmea sempre no cio; de andar bamboleante, irrequieta nos quadris e na alma; muito chegada a forró e samba de roda; encantam-me o rebolado e suas curvas negras e carnudas; enlouquece quando escuta: “quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”, seu corpo se contorce com requebros que me deixam em descontrole apalpando, acariciando, beijando, gozando em sua carne íntima suada; e aí ela fala, ela canta, ela grita, ela fode, ela goza rebolando a bunda de negra modal e eu sinto na pele o volume macio de seus seios e de seu corpo inteiro nu em descanso.

Será a ninfeta à Nabokov? — o pomo do desejo ainda em penugem; em público casta, ensimesmada; em privado consegue dissimular muito bem o contrário daquilo que aparenta; de palavra depravada, mãos exímias de dedos sábios e errantes adentrando meu corpo atrás, na frente, em cima, embaixo, entre, dedos que não brocham; exímia mais ainda com a boca, esse órgão que serve à vida, ao verbo e ao sexo; tem um jeito especial de me beijar o sexo que deixa o mundo rodando, e tudo vai ficando solto, convulso, desconexo.

Ou será aquele rapaz obsceno com seu falo libidinoso, sua vitalidade anárquica e sua força compulsiva para a devassidão?

As três sempre chegam juntas e, com discreta elegância, sentam numa mesa circular formando entre si um triângulo equilátero; noite dessa, ouvi um fragmento de conversa íntima das três; a primeira, com olhar fixo na terceira: esse amor convencional vivido por você que levou ao casamento, filhos e ao tédio é decadente, subdesenvolvido; a segunda completou: meu amor, a vida para ser plena precisa ser múltipla, multifacetada; a terceira encarando ambas: vocês fazem ideia do quanto sofri de agressões físicas e psicológicas que só tiveram fim quando ele foi embora ao descobrir que eu nutria vida extraconjugal com outras duas mulheres?

Oito da manhã de domingo, deixo o bordel, entro na igreja matriz, faço uma oração reflexiva sobre a vida; beatas ajoelhadas adoram deuses nus esculpidos pelo homem. Retorno ao bar do Bira para a última rodada, tragar inflorescências femininas de cânhamo ou uma viagem lisérgica. A vida do porto, as ruas, a cidade ainda dormem, exceto a inquietude do bar do Bira, onde a noite nunca tem fim. No interior do bar, olhos vermelhos vararam a madrugada, não arredam, espreitam acesos os primeiros movimentos da manhã. Na mesa oito, um malandro mediúnico se arrepia, capta minha presença torpe, sente meu perfume de sândalo misturado com chope, odor delicado de boceta limpa em dia de mormaço quente. Em transe místico, observo as outras mesas. Numa delas: adolescentes andróginos, dândis, lésbicas e afins; noutra: Aretino, Sade, ninfetas pervertidas e querubins; noutra: ianomâmis masturbam mulheres magras sedentas; noutra: Safo de Lesbos lambe a vulva de uma virgem-prostituta santa e sinistra; as visões libertinas recrudescem quando avisto um painel imaginário que recobre a parede do fundo com a imagem de Jesus, Maria Madalena e os apóstolos numa Santa Ceia profana.

Meca da boemia, nesta hora da manhã o bar do Bira é puro delírio, covil da vadiagem que reúne uma horda de boêmios notívagos, intelectuais, artistas, navegantes e um gato vadio que, quando me vê, se espreguiça para receber afeto; acolhe músicos e cantores dos cabarés, gente da polícia, padres e pastores à paisana; aloja ladinos, loucos e exploradores de mulheres; mistura vendedores de haxixe e uma leva diversificada de malandros insones e mulheres livres que zanzam batalhando na noite.

Bebo a oitava saideira, saio com passos incertos, ando no leito de paralelepípedos cambaleando; não sei se sou eu que observo a rua ou se é a rua que me olha; preso nessa espécie de reticência do tempo, na minha mente reverberam versos de Zé Ramalho: “há meros devaneios tolos a me torturar”, “e isso explica por que o sexo é assunto popular”.

Possuído pelo imponderável das paixões mundanas, vagueio por mundos insondáveis, corto de fininho o ramo hiperbólico que contorna o cais, sinto no rosto a brisa casta da manhã e rumo para casa à espera de que o próximo sábado aconteça.

Tripé do tripúdio e outros contos hediondos - Glauco Mattoso

Aos 60 anos, Glauco Mattoso continua explosivo e inovador. Depois de ficar completamente cego, vítima de um glaucoma que inspirou seu pseudônimo literário, Glauco adotou a forma fixa do soneto como forma de memorizar versos nada comportados.


Com linguagem ao mesmo tempo elaborada e divertida, Glauco Mattoso cria 25 histórias breves inspiradas em seus próprios sonetos. Todos os textos giram em torno dos temas que fizeram dele um dos mais celebrados poetas brasileiros da segunda metade do século XX: podolatria, cegueira, sado-masoquismo, escatofilia, homossexualidade e as hipócritas relações da sociedade com as “perversões sexuais” no dia a dia. Na imensa maioria das histórias, o autor é nomeado como personagem, estratégia narrativa que dá margem a leituras biográficas e coloca em xeque a construção da persona literária, remetendo a grandes nomes da tradição ocidental, de Hesíodo a Jorge Luis Borges. Assim, entre as narrativas reunidas neste livro, a que dá título a ele “Tripé do tripúdio”, por exemplo, descreve, em primeira pessoa, a situação em que o escritor é assediado por uma mulata em plena noite de autógrafos de um de seus livros. O namorado da mulher, ao ver a cena, diz para o narrador que ela sempre faz assim para enciumá-lo, ao que o personagem responde, para tranquilizá-lo, revelando-se gay. Incrédulo, o namorado insiste com o narrador, desconfiado de que este quer apenas disfarçar o flerte com sua namorada. O narrador e namorado, porém, insiste até que o conto termina com uma cena de felação entre os dois.
Em capa dura, em edição monumental como merece, Tripé do tripúdio é aparatado com detalhada cronologia e vasta bibliografia de e sobre o autor, posfácio de Antonio Vicente Pietroforte (escritor e professor de linguística na USP) e orelha de Italo Moriconi.



O realismo insólito, tenso e hipnótico de Samanta Schweblin

Escritora argentina mais representativa da nova geração, Samanta Schweblin sempre escreveu sem jamais imaginar que viveria do seu ofício. Ganhadora do "Prêmio Casa De las Américas" em 2008, seus contos instigantes ganharam o mundo e hoje ela tem livros publicados em vários países, inclusive no Brasil. Suas opiniões sobre a nova literatura latino-americana e uma viagem por seus contos fantásticos fazem dela a herdeira de Borges, Cortázar e Bioy Casares, mestres da literatura argentina em textos curtos.


Primeiro livro de Samanta Schweblin publicado no Brasil, "Pássaros na boca", é uma antologia de contos que demonstra por que a escritora argentina é considerada a herdeira literária de mestres do realismo fantástico como Borges, Bioy Casares e Julio Cortázar. As dezoito histórias integrantes da obra principiam com situações cotidianas que vão, pouco a pouco, assumindo contornos insólitos, por vezes aterrorizantes. São homens e mulheres, jovens e crianças diante de um mundo hostil em que, de um instante para outro, sem qualquer ruptura ou explicação, o que parecia normal deixa de ser, e de maneira irreversível.



Uma narrativa hipnótico, incômoda e fascinante O campo se transformou diante de nossos olhos sem que ninguém percebesse. Talvez não se trate de estiagens ou de herbicidas – e sim do fio vital e afiado que nos prende a nossos filhos, e do veneno que lançamos sobre eles. "Distância de resgate" acompanha esta fatalidade vertiginosa fazendo sempre as mesmas perguntas: Existe por acaso algum apocalipse que não seja pessoal? Qual é o ponto exato em que, sem saber, damos o passo em falso que acaba nos condenando? Samanta Schweblin escreveu uma narrativa extraordinária e hipnótica, urgente e duradoura, que consegue nos manter inevitavelmente presos e imersos num universo ficcional perturbador.






A hora e vez de Augusto Matraga - Guimarães Rosa

A hora e vez de Augusto Matraga é uma história de redenção e espiritualidade, uma história de conversão. Ao longo do seu enredo o protagonista, Augusto Matraga, passa do mal ao bem, da perdição à salvação. O agente desta passagem é o jagunço Joãozinho Bem-Bem. Podemos associar a ele o ditado: "Deus escreve certo por linhas tortas", pois é o malvado Joãozinho Bem-Bem que permite a morte gloriosa e salvadora de Matraga. A dualidade entre o bem e o mal parece marcar esse mundo de jagunços e fazendeiros, no qual há a possibilidade de conversão quando chega a vez e a hora certa das pessoas, como ocorreu com Matraga. Nhô Augusto renuncia à vingança, mas não à honra, e se regozija ao fim, radiante, ao se deparar com a hora e vez de ser Matraga, o homem que escolheu ser. Homem capaz de agir com coragem, justiça, fraternidade e compaixão. 
Na linguagem de Guimarães Rosa encontramos os jogos de palavras, o prazer lúdico, quase infantil, dos trocadilhos, das associações inesperadas de imagens, do trabalho sonoro e poético com a prosa. A pontuação das frases de Guimarães Rosa também está ligada a esta preocupação lúdica com a linguagem: trata-se sempre de associar o jogo de palavras aos elementos da narrativa (personagens, narrador, enredo, etc.) Com a pontuação, ele busca um ritmo que só pode ser encontrado na poesia do sertão, na marcha das boiadas, na passagem lenta e imperceptível do tempo, no bater das asas dos periquitos, no balançar sinuoso das folhas do buriti. Guimarães Rosa é, em conclusão, o criador de uma obra em que elementos da cultura popular e elementos da cultura erudita se mesclam para reinventar a força da linguagem sertaneja e mineira. Conhecedor de pelo menos dezoito idiomas, ao lado das palavras que traz do vocabulário sertanejo há várias construções importadas do latim, do francês, do inglês e do alemão em seus livros. Poucos como ele têm a capacidade de reunir a erudição das reflexões filosóficas à transposição do imaginário popular, sem menosprezar as primeiras, e simplificando o segundo. É o que vemos ao ler alguns trechos de Sagarana, onde percebemos o ritmo, a cadência, a fecundidade e o mistério, difícil de decifrar, de sua linguagem. 
Leia o texto completo, acessando:
[veele.files.wordpress.com/a-hora-e-vez-de-augusto-matraga.pdf]

Para ler o conto integralmente, acesse:
[Joao/Guimaraes/Rosa/Sagarana/Sagarana.pdf]

Transposição da obra para o cinema:



Malagueta, Perus e Bacanaço - João Antônio

O prefácio de Antonio Candido presente no início da 4ª edição revisada de Malagueta, Perus e Bacanaço, aborda a inovação estética da obra:
(...) João Antônio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma linguagem que parece brotar espontaneamente do meio em que é usada, mas na verdade se torna língua geral dos homens, por ser fruto de uma estilização eficiente.

Jane Christina Pereira ressalta a grande carga poética da obra de João Antônio, que desenvolve sua narrativa recorrendo à oralidade e fazendo uso do lirismo, de modo a deslocar a luta social para o interior do texto e diluir “a supremacia do real” por meio da poesia:
(...) cada narrativa joãoantoniana é um universo de lirismo, na mesma medida em que o é, de alma brasileira. Por isso, afirmar que João Antônio é simplesmente o autor dos personagens da Boca do Lixo, de sinuqueiros e marginais, seria o mesmo que afirmar que Guimarães Rosa é o autor dos jagunços. São evidências, generalidades excessivas. Seus personagens eflorescem de uma rústica paisagem urbana com todos os sonhos, angústias e anseios daqueles que são menos favorecidos, vítimas da falta de soluções para os problemas do país, e que, por isso mesmo, levantam, divulgam, explodem todo o encanto lírico da alma nacional. 
Leia o texto integralmente, acessando:

Amplamente premiado, o primeiro livro de João Antônio, Malagueta, Perus e Bacanaço, fala dos desvalidos da sociedade paulistana com humor e profundidade psicológica.
[...]
Malagueta, Perus e Bacanaço, novela que dá nome ao livro, é o ponto alto da obra, trazendo elementos já apresentados nos outros contos, porém desenvolvidos e aprofundados. Vemos: o antimilitarismo surgir através do personagem Perus, desertor do exército; a sinuca como ambiente de liberdade; a melancolia da vida suburbana; a riqueza psicológica de tipos humanos normalmente tidos como simplórios…
O texto é bastante fragmentado, dividido em vários segmentos que correspondem aos ambientes percorridos pelos três protagonistas, malandros jogadores de sinuca, a peregrinar pela cidade de São Paulo em busca de dinheiro. Em companhia deles, atravessamos Lapa, Água Branca, Barra Funda, Pinheiros, e viajamos por uma linguagem transgressora, abundante em gírias e ditos populares que abandonam a habitual condição de clichê, tornando-se hiperexpressivos ao serem inseridos numa prosa inovadora, livre de qualquer convencionalismo.
A principal viagem que João Antônio nos proporciona é sair das mesmices duma intelectualidade vazia e mergulhar em novas formas de expressão, através de uma escrita livre e ousada onde não há terrenos proibidos, ou considerados indignos do campo literário.
Leia o texto integralmente, acessando:

Transposição da obra para o cinema:
"O Jogo da Vida" é um filme brasileiro de 1977 dirigido por Maurice Capovilla, baseado no livro Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio.


Livros que amei - As leituras essenciais de Sérgio Sant'Anna

"A qualidade é sempre um ato de ruptura numa sociedade onde o medíocre rouba cada vez mais espaço"

O escritor Sérgio Sant'Anna, ícone do conto na literatura brasileira e leitor atento da ficção produzida hoje, esboçou um panorama pessoal da arte literária que está sendo criada por três autores e escolheu 234 minihistórias, de Dalton Trevisan; Formas Breves, de Ricardo Piglia; e Engenheiro do Tempo Perdido, entrevista de Pierre Cabanne com Marcel Duchamp, um dos mais importantes artistas do século XX. Paulo Venâncio Filho, critico , e Karl Erik, professor, ajudam a contextualizar as obras escolhidas.



Para saber mais sobre a vida e obra do escritor Sérgio Sant'Anna, acesse:
[rascunho.gazetadopovo.com.br/sergio-sant%E2%80%99anna]

[enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa16805/sergio-santanna]

Uma visão crítica e bem-humorada do modo de vida no Brasil - André Sant'Anna

Em O Brasil é bom, com uma visão crítica e irônica, André Sant'Anna escreve 22 contos fazendo uma releitura pop da vida brasileira. 
"As narrativas que compõem o volume fazem uma instigante releitura de vozes que povoam nosso cotidiano, cheio de opiniões, não raro, marcadas pela repetição de estereótipos difundidos das mais diversas formas: programas jornalísticos ou humorísticos, canções, telenovela, comentários postados na web, como vemos em "Comentários na rede sobre tudo o que está acontecendo por aí", "Felicidade", "Amando uns aos outros". Com os ouvidos e olhos atentos, André seleciona elementos de um vasto repertório e os combina em textos que oscilam entre a fina ironia e a mais ferina sátira aos tempos em que vivemos, passando também por momentos em que a delicadeza se deixa surpreender de modo inusitado, como no conto "Só", do qual foi selecionado o trecho abaixo."
Por Susana Souto, em [Obra Aberta], Revista Língua Portuguesa, Edição - 110.

Para ler o texto completo, acesse:

Para ler excelente resenha sobre a obra, acesse:
[www.revistaamalgama.com.br/06/2014/o-brasil-e-bom-andre-santanna]

Para ler um trecho, acesse: [www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php]

Trecho do Conto - "Só"

A oração interrogativa 
estabelece um diálogo com o leitor e o convida a refletir sobre a centralidade do dinheiro, no mundo contemporâneo, valorizado mais do que saúde, paz, amor, nos votos de fim de ano, festa de grande valor simbólico.
"No último réveillon, quantas pessoas desejaram dinheiro para você? 
Você está só porque ninguém se interessa pelos seus problemas, pela sua solidão, pelo seu dinheiro que você não tem, pela sua solidão intransponível, pelas injustiças que vivem acontecendo na sua vida, na vida.
Você está só porque a imagem de uma criança toda queimada, toda suja de lama numa maca cheia de moscas voando ao redor, é apenas uma imagem na televisão, patrocinada por um banco que finge ser seu amigo, finge estar à sua disposição no momento em que você mais precisar dele, aquele banco legal, aquele banco amigão.
Você está só porque tem dinheiro.
Você está só porque não tem dinheiro.
Você está só por causa do dinheiro.
Só dinheiro.
Só."





















(SANT'ANNA, André. O Brasil é bom. São Paulo: Cia. das Letras, 2014, p. 58)
Repetida exaustivamente, a afirmação "você está só" atua como espinha dorsal do conto, que aborda a incontornável solidão do homem contemporâneo. Ao mesmo tempo, reforça a proximidade entre o narrador anônimo e o "você", também indefinido, imagem do leitor a quem o narrador se dirige.
Ao longo desse parágrafo, aparece duas vezes repetida a palavra "solidão", uma delas, inclusive, qualificada pelo adjetivo "intransponível", o que a torna ainda mais dolorosa e inevitável.
Nesse trecho, o pronome possessivo "seu" não remete à posse, mas ao contrário, à ausência de posse, já que se trata, contraditoriamente, do "seu dinheiro que você não tem". 
 Inicialmente, a palavra "vida" está circunscrita ao indivíduo não nomeado a quem o narrador atribui "sua vida"; no entanto, no fim do período, amplia-se o seu significado e "vida" passa a englobar um sentido mais amplo e coletivo.
O discurso publicitário - que é também incorporado na repetição persuasiva da afirmação "você está só" - é aqui referido de modo explícito, quando o conto expõe os bastidores do mundo da notícia, patrocinado pelo banco, ironicamente, qualificado como "legal" e "amigão", que apenas "finge", verbo repetido duas vezes, se interessar pela vida dos clientes.
Nos parágrafos finais, a narrativa em prosa se aproxima da tessitura do poema. Mantém-se o uso da anáfora, com a repetição de "você está só", e variação apenas da segunda parte do sintagma, com pequenas variações: afirmação, no primeiro, negação no segundo e mudança do conectivo, no terceiro.
Apaga-se o pronome "você" e acentua-se a exclusividade do dinheiro como único elemento importante no mundo, na vida, "só dinheiro", enfatizando o processo de reificação, típico de uma sociedade de consumo. Por fim, numa espécie de degradação, apaga-se a palavra "dinheiro" e resta apenas "só", indicando a circularidade da narrativa. A solidão é uma espécie de círculo do qual não podemos escapar? - indagamos, entre tristes e esperançosos. 


O Inédito de Kafka - Mayrant Gallo

"O ato de ler está arraigado ao ser humano" Mayrant Gallo


Capas de livros de Mayrant Gallo

"Numa linguagem que vai do registro poético à observação realista, da recuperação da oralidade ao uso de imagens requintadas, “O Inédito de Kafka” coloca em cena um novo autor, que cria uma dissonância saudável, investindo contra a literatura neonaturalista que tem proliferado no país. Mayrant Gallo não acredita no real-real, visto apenas como um dos lados da moeda, e explora as tensões ocultas nas sombras do real". Miguel Sanches Neto

"Os contos surpreendem pela intensidade com que são formadas suas personagens, pelas histórias sempre à beira de uma tragédia, mesmo quando desenhem acontecimentos aparentemente banais. É um forte livro de contos, dos melhores que tenho lido ultimamente. Mas o mais surpreendente é a linguagem do Mayrant. Moderno, muito moderno mesmo, sem cair na facilidade do modernoso. Ele não surra nossa língua como a maioria acha que deva ser nossa língua literária. Domínio da língua e combinações insólitas, eis seus instrumentos". Menalton Braft
O inédito de Kafka, uma coletânea de contos editada pela Cosac Naify.

Para saber mais e ler trechos da obra, acesse:
[elmirdad.blogspot.com.br/2015/01/pilulas-o-inedito-de-kafka-de-mayrant.html]

Blog do Autor:
[nonleia.blogspot.com.br]

Os contos preferidos de Mário de Andrade

Um Brasil de muitas faces e múltiplas vozes

[...] O que será que esse homem verde-amarelo lia? Que autores privilegiava? Que temas preferia ler na ficção? Essa resposta pode ser respondida com o lançamento do livro Mário de Andrade: seus contos preferidos, que reúne 23 contos de autores variados. A coletânea organizada por Luiz Ruffato é o resultado de uma enquete muito antiga, feita pela Revista Acadêmica, ainda em 1938, cuja questão era: “Quais os dez melhores contos brasileiros?”. Alguns autores fizeram suas listas, tais como Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes… Mário de Andrade, no entanto, não obedecendo ao limite, afirmou que sua lista deveria ter pelo menos duas dúzias de contos. O modernista traça um panorama que, a seu ver, mostraria a singularidade da tradição do gênero conto no Brasil. Inicia com Álvares de Azevedo, um dos pioneiros do conto no país, passando depois por Machado de Assis, Artur Azevedo, Monteiro Lobato, João do Rio, Lima Barreto, Alcântara Machado e outros contistas que a tradição não preservou. Mas todos os textos têm características ímpares e representam muito bem esse gênero de narratividade curta, cujo foco recai sobre a cena, o episódio; gênero de narrativa sintética, mas nem por isso, limitada.
E o que contam esses contos? Qual o discurso que eles apresentam? Mário tentou traçar, pelos contos, um país dividido entre o campo e a cidade, o rural e o urbano. É claro que Mário opta por apresentar contos cujo discurso penetra na tradição popular, apresentando um Brasil múltiplo, de personagens variados, de estilos também diversos. É importante, por exemplo, perceber que, apesar de Monteiro Lobato ter sido um dos grandes críticos (destrutivos) do grupo que tentava trazer a modernidade às artes brasileiras, figura merecidamente na lista seu conto “A vingança da peroba”, conto que mais parece um causo, numa linguagem bem coloquial. Isso prova que Mário sabia reconhecer em Lobato traços da modernidade que seu grupo queria propor ao país.[...]

Para ler o texto completo, acesse:

As narrativas hodiernas de Emmanuel Mirdad

O grito do mar na noite - um livro que para mim é uma revelação, dessas que chegaram para marcar história na nossa prosa narrativa contemporânea.

“No equilíbrio entre o que se mostra e o que fica subentendido, Mirdad vai tecendo um agudo painel das relações humanas, sobretudo afetivas, nas quais homens e mulheres expõem suas fraquezas ante a banalidade da vida e do tempo. Sobre o tempo, aliás, vale ressaltar a conexão do autor com a contemporaneidade. Mirdad cita ícones do momento e brinca com a antítese passado-presente, demonstrando que os grandes feitos inserem-se na trivialidade do dia a dia." Márcio Matos


Para ler trechos dos contos e saber mais sobre a obra e o autor, acesse:

“Cada conto de Mirdad aqui é uma nova proposta extraída de um propósito único: retratar o nosso mundo. Cada conto é uma fotografia de um álbum espúrio. E ele o constrói com tamanho êxito, que chego a temer que, por isso, seu livro acabe rotulado. Mas acho que não, pelo contrário: se no futuro, alguém necessitar saber como era a vida neste início de século XXI, espécie de Belle Époque de la Technologie, deverá forçosamente ir aos documentos, entre os quais a literatura é um dos mais poderosos, por sua singularidade autoral, e, encontrando O grito do mar na noite, achará a própria vida daquela ‘nossa presente época’, pulsando como um coração imortal.” Mayrant Gallo



Diário Bordô e outras pequenas vastidões

"Escrevo o que acredito ser parte de tudo que vivo e observo. Alguns costuram, outros compram ingressos para o cinema, outros mais se ocupam do vento. Eu escrevo. Somente." Letícia Palmeira

Sobre o livro:
"Fico pensando na linearidade, no fio da vida (eu que nunca pensei na vida como um fio!). O livro vai e passa pelas datas, pelos meses. Vai cronológico e dá essa web-cara, esse ar de diário moderno, de bordo bordado, transbordando. Bordoando. E é assim que me sinto, bordoado. De olho roxo, lilás de alegria por me reconhecer nela, não me sentir mais só enquanto demasiado humano. Se Álvaro de Campos a tivesse lido, veria que Palmeira também leva porrada e faz questão de expor o hematoma, como quem grita que aqui, aqui há gente.
Advirto — importante! — a Letícia Autobiográfica aqui presente, apesar de apontar seus caprichos, nada tem de revista de banca. Subverte a lírica e vai de encontro a um existencialismo pulsante. Propõe densidade. “Mas veja que bobagem a literatura que não arde”. Arde sem doer, feito amor de Camões. Ardido, Diário de Bordo é um olhar sobre o ofício de escritora, pinceladas sobre o processo criativo desses textos fecundos, como se bebês já discorressem sobre a união de coxas que os conceberam.
Dada altura a Mulher dispara: “Escrever é gozo e também uma longa corda que nos enforca.”. Convido o leitor corajoso, então, a esse orgasmo suicida."
Por Eder Asa - ator, escritor, no blog da autora.


Saiba mais no Blog da autora [leticiapalmeira.blogspot.com.br]

"Tô com vontade de uma coisa que eu não sei o que é"

Mulher que escreve sobre mulher, gente moderna que fala coisa de gente moderna, otimistas que pretendem melhorar a nossa vida (e/ou deles), pessimistas que fazem piada sobre a condição humana, e por ai vai. As páginas de papel e as telas de computador estão lotadas de textos que tecem comentários a respeito do mundo em que vivemos. Tati Bernardi comenta esses nossos dias de hoje com uma graça espantosa, uma generosa capacidade de rir de si mesma, um olhar que consegue enxergar vários pontos de vista, e um estilo forte e atrevido, além do extremo bom gosto.Vai muito além da “moça que escreve bem sobre o seu tempo”...diferente. Tati é uma escritora e isso fica muito claro em cada ideia, cada imagem, na ousadia, no ritmo, na sonoridade, na forma. Às vezes, sua sinceridade é tão desconcertante que a gente fica pensando se quem fala é ela, ou um personagem: “eu sou um pouco mais estranha do que ser estranha permite. Sou estranha além do charme de ser estranha”. Seja ela, seja uma personagem, essa menina estranha chega lá chega lá no miolo das nossas doidices, manifesta nossos sentimentos mais secretos e escreve bem pra caramba. Bem-vinda ao mundo das palavras que provocam a gente, Tati.
Por, Adriana Falcão em: [tatibernardi.com.br/livros]
Para saber mais sobre a obra e a autora, acesse [umadosedetatibernardi.blogspot.com.br]




Pó de parede - Carol Bensimon


Depoimentos

Li e reli as histórias pelo prazer de redescobrir sua capacidade de lidar com a linguagem, com a complexidade inevitável da existência, sem afetação, sem falsos heroísmos, sem condescendência. Carol é a prova de que maturidade literária pouco tem a ver com a idade, e este seu Pó de parede é um dos melhores livros de estreia de autor brasileiro que tive oportunidade de ler nos últimos anos.
Paulo Scott
A expressão pó de parede remete à arquitetura e à passagem do tempo, e é a articulação justamente desses dois elementos o mote das narrativas reunidas por Carol Bensimon em seu livro de estreia. Três histórias que apresentam uma unidade e um domínio técnico admirável para uma primeira publicação autoral.
Carlos André Moreira, Zero Hora

Carol Bensimon discorre sobre seu primeiro livro, Pó de parede, composto de três novelas narradas com estilo singular e numa cadência que dão ao texto fluidez, musicalidade e produzem efeitos que constituem um sentido de unidade ao conjunto da obra.



Para saber mais sobre a obra, acesse [www.naoeditora.com.br/catalogo/po-de-parede]
Saber mais sobre a escritora, acesse [www.carolbensimon.com]

Amar é Crime - A Prosa Poética de Marcelino Freire

[O escritor Marcelino Freire fala sobre o seu livro "Amar é Crime"]


Amor e morte. Começo e fim. Sexo e paixão. Eis as armas do novo livro de contos do escritor pernambucano MARCELINO FREIRE. Uma reunião de “pequenos romances”, histórias cegas, viscerais, à doida, como ele mesmo chama as 14 histórias do livro [...] 
Amar é Crime traz de volta o estilo inconfundível de Freire – contos que mais parecem “cantos”, numa espécie de mistura sonora entre ficção e repente [...] 
CONTINUE A LEITURA EM: [visiteedith.com]