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ESCRITORES
Jorge Luis Borges em Essência
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Ingresia - Ironia, humor e galhofa na verve sertaneja de Franciel Cruz
[www.youtube.com/watch?v=0VsRg7h85qU]
Parabólicas e Mandacarus - Autorretrato - Conto II
O universo mágico, poético e insólito dos contos de Murilo Rubião

Uma obra composta de trinta e dois contos não muito longos pode parecer um tanto inconsistente. Mas seu autor passou a vida toda reescrevendo-os, como se ele próprio fosse um personagem que explorasse as fronteiras do absurdo, tema ao qual se filiou desde os primeiros escritos, mesmo antes de ler Kafka, García Márquez, Borges ou Cortázar.
Por Marcílio Godoi - Revista Língua Portuguesa - edição - 112
Ladeiras, vielas & farrapos - Tom Correia
Falo de mulher - Ivana Arruda Leite
Leia alguns contos do livro, acessando:
[https://www.amazon.com.br/Falo-Mulher-Ivana-Arruda-Leite-ebook]
Saiba mais sobre a obra de Ivana Arruda Leite, acessando:
[https://www.itaucultural.org.br/ivana-arruda-leite-escritores-leitores]
Dessemelhanças femininas e o lado delirante da noite (Conto integrante do meu livro Parabólicas e Mandacarus)
Será a balzaquiana? —
cujo rosto já denota certa materialidade do tempo; com seus olhos azul-topázio,
de gestos mansos, meiga e manhosa; de pele alvinha e sem manchas, mamilos
cor-de-rosa, fera selvagem quando está comigo na cama; assemelha-se demais aos
felinos com sua sexualidade agressiva e seu caminhar sigiloso de gata vadia.
Ou será aquela com
avidez de ventre capaz de saciar uma cidade inteira? — fêmea sempre no cio; de
andar bamboleante, irrequieta nos quadris e na alma; muito chegada a forró e
samba de roda; encantam-me o rebolado e suas curvas negras e carnudas;
enlouquece quando escuta: “quero morrer numa batucada de bamba, na cadência
bonita do samba”, seu corpo se contorce com requebros que me deixam em
descontrole apalpando, acariciando, beijando, gozando em sua carne íntima
suada; e aí ela fala, ela canta, ela grita, ela fode, ela goza rebolando a
bunda de negra modal e eu sinto na pele o volume macio de seus seios e de seu
corpo inteiro nu em descanso.
Será a ninfeta à
Nabokov? — o pomo do desejo ainda em penugem; em público casta, ensimesmada; em
privado consegue dissimular muito bem o contrário daquilo que aparenta; de
palavra depravada, mãos exímias de dedos sábios e
errantes adentrando meu corpo atrás, na frente, em cima, embaixo, entre, dedos
que não brocham; exímia mais ainda com a boca, esse órgão que serve à vida, ao
verbo e ao sexo; tem um jeito especial de me beijar o sexo que deixa o mundo
rodando, e tudo vai ficando solto, convulso, desconexo.
Ou será aquele rapaz obsceno com seu falo libidinoso, sua vitalidade anárquica e sua força compulsiva para a devassidão?
As três sempre chegam
juntas e, com discreta elegância, sentam numa mesa circular formando entre si
um triângulo equilátero; noite dessa, ouvi um fragmento de conversa íntima das
três; a primeira, com olhar fixo na terceira: esse amor convencional vivido por
você que levou ao casamento, filhos e ao tédio é decadente, subdesenvolvido; a
segunda completou: meu amor, a vida para ser plena precisa ser múltipla, multifacetada;
a terceira encarando ambas: vocês fazem ideia do quanto sofri de agressões
físicas e psicológicas que só tiveram fim quando ele foi embora ao descobrir
que eu nutria vida extraconjugal com outras duas mulheres?
Oito da manhã de domingo, deixo o bordel, entro na igreja matriz, faço uma oração
reflexiva sobre a vida; beatas ajoelhadas adoram deuses nus esculpidos pelo
homem. Retorno ao bar do Bira para a última rodada, tragar
inflorescências femininas de cânhamo ou uma viagem lisérgica. A vida do porto,
as ruas, a cidade ainda dormem, exceto a inquietude do bar do Bira, onde a
noite nunca tem fim. No interior do bar, olhos vermelhos vararam a madrugada,
não arredam, espreitam acesos os primeiros movimentos da manhã. Na mesa oito,
um malandro mediúnico se arrepia, capta minha presença torpe, sente meu perfume
de sândalo misturado com chope, odor delicado de boceta limpa em dia de mormaço
quente. Em transe místico, observo as outras mesas. Numa delas: adolescentes
andróginos, dândis, lésbicas e afins; noutra: Aretino, Sade, ninfetas
pervertidas e querubins; noutra: ianomâmis masturbam mulheres magras sedentas;
noutra: Safo de Lesbos lambe a vulva de uma virgem-prostituta santa e sinistra;
as visões libertinas recrudescem quando avisto um painel imaginário que recobre
a parede do fundo com a imagem de Jesus, Maria Madalena e os apóstolos numa
Santa Ceia profana.
Meca da boemia, nesta hora da manhã o bar do Bira
é puro delírio, covil da vadiagem que reúne uma horda de boêmios notívagos,
intelectuais, artistas, navegantes e um gato vadio que, quando me vê, se
espreguiça para receber afeto; acolhe músicos e cantores dos cabarés, gente da
polícia, padres e pastores à paisana; aloja ladinos, loucos e exploradores de
mulheres; mistura vendedores de haxixe e uma leva diversificada de malandros
insones e mulheres livres que zanzam batalhando na noite.
Bebo a oitava saideira,
saio com passos incertos, ando no leito de paralelepípedos cambaleando; não sei
se sou eu que observo a rua ou se é a rua que me olha; preso nessa espécie de
reticência do tempo, na minha mente reverberam versos de Zé Ramalho: “há meros
devaneios tolos a me torturar”, “e isso explica por que o sexo é assunto
popular”.
Possuído pelo imponderável das paixões mundanas, vagueio por mundos insondáveis, corto de fininho o ramo hiperbólico que contorna o cais, sinto no rosto a brisa casta da manhã e rumo para casa à espera de que o próximo sábado aconteça.
Tripé do tripúdio e outros contos hediondos - Glauco Mattoso
O realismo insólito, tenso e hipnótico de Samanta Schweblin
A hora e vez de Augusto Matraga - Guimarães Rosa
Na linguagem de Guimarães Rosa encontramos os jogos de palavras, o prazer lúdico, quase infantil, dos trocadilhos, das associações inesperadas de imagens, do trabalho sonoro e poético com a prosa. A pontuação das frases de Guimarães Rosa também está ligada a esta preocupação lúdica com a linguagem: trata-se sempre de associar o jogo de palavras aos elementos da narrativa (personagens, narrador, enredo, etc.) Com a pontuação, ele busca um ritmo que só pode ser encontrado na poesia do sertão, na marcha das boiadas, na passagem lenta e imperceptível do tempo, no bater das asas dos periquitos, no balançar sinuoso das folhas do buriti. Guimarães Rosa é, em conclusão, o criador de uma obra em que elementos da cultura popular e elementos da cultura erudita se mesclam para reinventar a força da linguagem sertaneja e mineira. Conhecedor de pelo menos dezoito idiomas, ao lado das palavras que traz do vocabulário sertanejo há várias construções importadas do latim, do francês, do inglês e do alemão em seus livros. Poucos como ele têm a capacidade de reunir a erudição das reflexões filosóficas à transposição do imaginário popular, sem menosprezar as primeiras, e simplificando o segundo. É o que vemos ao ler alguns trechos de Sagarana, onde percebemos o ritmo, a cadência, a fecundidade e o mistério, difícil de decifrar, de sua linguagem.
Para ler o conto integralmente, acesse:
[Joao/Guimaraes/Rosa/Sagarana/Sagarana.pdf]
Transposição da obra para o cinema:
Malagueta, Perus e Bacanaço - João Antônio
Livros que amei - As leituras essenciais de Sérgio Sant'Anna
Para saber mais sobre a vida e obra do escritor Sérgio Sant'Anna, acesse:
[rascunho.gazetadopovo.com.br/sergio-sant%E2%80%99anna]
[enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa16805/sergio-santanna]
Uma visão crítica e bem-humorada do modo de vida no Brasil - André Sant'Anna
Para ler o texto completo, acesse:
Para ler excelente resenha sobre a obra, acesse:
[www.revistaamalgama.com.br/06/2014/o-brasil-e-bom-andre-santanna]
Para ler um trecho, acesse: [www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php]
| A oração interrogativa estabelece um diálogo com o leitor e o convida a refletir sobre a centralidade do dinheiro, no mundo contemporâneo, valorizado mais do que saúde, paz, amor, nos votos de fim de ano, festa de grande valor simbólico. |
"No último réveillon, quantas pessoas desejaram dinheiro para você?
Você está só porque ninguém se interessa pelos seus problemas, pela sua solidão, pelo seu dinheiro que você não tem, pela sua solidão intransponível, pelas injustiças que vivem acontecendo na sua vida, na vida.
Você está só porque a imagem de uma criança toda queimada, toda suja de lama numa maca cheia de moscas voando ao redor, é apenas uma imagem na televisão, patrocinada por um banco que finge ser seu amigo, finge estar à sua disposição no momento em que você mais precisar dele, aquele banco legal, aquele banco amigão.
Você está só porque tem dinheiro.
Você está só porque não tem dinheiro.
Você está só por causa do dinheiro.
Só dinheiro.
Só."
(SANT'ANNA, André. O Brasil é bom. São Paulo: Cia. das Letras, 2014, p. 58) |
Repetida exaustivamente, a afirmação "você está só" atua como espinha dorsal do conto, que aborda a incontornável solidão do homem contemporâneo. Ao mesmo tempo, reforça a proximidade entre o narrador anônimo e o "você", também indefinido, imagem do leitor a quem o narrador se dirige.
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Ao longo desse parágrafo, aparece duas vezes repetida a palavra "solidão", uma delas, inclusive, qualificada pelo adjetivo "intransponível", o que a torna ainda mais dolorosa e inevitável.
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Nesse trecho, o pronome possessivo "seu" não remete à posse, mas ao contrário, à ausência de posse, já que se trata, contraditoriamente, do "seu dinheiro que você não tem".
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Inicialmente, a palavra "vida" está circunscrita ao indivíduo não nomeado a quem o narrador atribui "sua vida"; no entanto, no fim do período, amplia-se o seu significado e "vida" passa a englobar um sentido mais amplo e coletivo.
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O discurso publicitário - que é também incorporado na repetição persuasiva da afirmação "você está só" - é aqui referido de modo explícito, quando o conto expõe os bastidores do mundo da notícia, patrocinado pelo banco, ironicamente, qualificado como "legal" e "amigão", que apenas "finge", verbo repetido duas vezes, se interessar pela vida dos clientes.
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Nos parágrafos finais, a narrativa em prosa se aproxima da tessitura do poema. Mantém-se o uso da anáfora, com a repetição de "você está só", e variação apenas da segunda parte do sintagma, com pequenas variações: afirmação, no primeiro, negação no segundo e mudança do conectivo, no terceiro.
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Apaga-se o pronome "você" e acentua-se a exclusividade do dinheiro como único elemento importante no mundo, na vida, "só dinheiro", enfatizando o processo de reificação, típico de uma sociedade de consumo. Por fim, numa espécie de degradação, apaga-se a palavra "dinheiro" e resta apenas "só", indicando a circularidade da narrativa. A solidão é uma espécie de círculo do qual não podemos escapar? - indagamos, entre tristes e esperançosos.
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O Inédito de Kafka - Mayrant Gallo
"O ato de ler está arraigado ao ser humano" Mayrant Gallo
Para saber mais e ler trechos da obra, acesse:
[elmirdad.blogspot.com.br/2015/01/pilulas-o-inedito-de-kafka-de-mayrant.html]
Blog do Autor:
[nonleia.blogspot.com.br]
Os contos preferidos de Mário de Andrade
[...] O que será que esse homem verde-amarelo lia? Que autores privilegiava? Que temas preferia ler na ficção? Essa resposta pode ser respondida com o lançamento do livro Mário de Andrade: seus contos preferidos, que reúne 23 contos de autores variados. A coletânea organizada por Luiz Ruffato é o resultado de uma enquete muito antiga, feita pela Revista Acadêmica, ainda em 1938, cuja questão era: “Quais os dez melhores contos brasileiros?”. Alguns autores fizeram suas listas, tais como Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes… Mário de Andrade, no entanto, não obedecendo ao limite, afirmou que sua lista deveria ter pelo menos duas dúzias de contos. O modernista traça um panorama que, a seu ver, mostraria a singularidade da tradição do gênero conto no Brasil. Inicia com Álvares de Azevedo, um dos pioneiros do conto no país, passando depois por Machado de Assis, Artur Azevedo, Monteiro Lobato, João do Rio, Lima Barreto, Alcântara Machado e outros contistas que a tradição não preservou. Mas todos os textos têm características ímpares e representam muito bem esse gênero de narratividade curta, cujo foco recai sobre a cena, o episódio; gênero de narrativa sintética, mas nem por isso, limitada.
Para ler o texto completo, acesse:
As narrativas hodiernas de Emmanuel Mirdad
Diário Bordô e outras pequenas vastidões
Sobre o livro:
"Tô com vontade de uma coisa que eu não sei o que é"
Para saber mais sobre a obra e a autora, acesse [umadosedetatibernardi.blogspot.com.br]
Pó de parede - Carol Bensimon
Depoimentos
Li e reli as histórias pelo prazer de redescobrir sua capacidade de lidar com a linguagem, com a complexidade inevitável da existência, sem afetação, sem falsos heroísmos, sem condescendência. Carol é a prova de que maturidade literária pouco tem a ver com a idade, e este seu Pó de parede é um dos melhores livros de estreia de autor brasileiro que tive oportunidade de ler nos últimos anos.
A expressão pó de parede remete à arquitetura e à passagem do tempo, e é a articulação justamente desses dois elementos o mote das narrativas reunidas por Carol Bensimon em seu livro de estreia. Três histórias que apresentam uma unidade e um domínio técnico admirável para uma primeira publicação autoral.
Para saber mais sobre a obra, acesse [www.naoeditora.com.br/catalogo/po-de-parede]
Saber mais sobre a escritora, acesse [www.carolbensimon.com]














