ESCRITORES

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As diversas faces do Carnaval da Bahia




O Carnaval de Salvador é uma das maiores manifestações populares do Mundo. Reúne todos os anos cerca de dois milhões e setecentos mil foliões em seis dias de festa, numa manifestação espontânea e livre, onde o carnal, o lúdico e o físico se misturam com a ginga e a emoção dos baianos que conseguem renovar a festa a cada ano.
O som eletrizante do trio é a marca para que nos três circuitos: Osmar - Avenida, Dodô- Barra-Ondina e Batatinha no Centro Histórico haja uma verdadeira explosão de alegria. São 16 afoxés, 41 afros, 15 alternativos, 45 blocos de trio, 03 especiais, 02 de índios, 07 infantis, 17 pequenos grupos, 33 de percussão, 06 orquestras, 12 de travestidos e 30 trios independentes (cadastrados pela Emtursa) fazendo do carnaval de Salvador uma festa singular.
O Carnaval se estende por 25 quilômetros, abrigando camarotes, arquibancadas, postos de saúde, postos policiais, além de toda infraestrutura especial montada pelos diversos órgãos municipais, estaduais e federais. Nos seis dias, como nos remete a própria marca da festa: “O coração do mundo bate aqui” e Salvador recebe gente dos quatro cantos do planeta que se une para viver a mesma emoção.

Trio Elétrico - Carnaval - Armandinho, Dodô e Osmar
[Fobica - O primeiro Trio Elétrico]

A História do Trio Elétrico:
Depois de participarem do desfile da famosa "Vassourinha", entidade carnavalesca de Pernambuco que tocava frevo na rua Chile, e empolgados com a receptividade do bloco junto ao público, a dupla elétrica formada por Adolfo Antônio Nascimento - o Dodô e Osmar Álvares de Macêdo - Osmar, resolveu restaurar um velho Ford 1929, guardado numa garagem.
Na primeira aparição do trio elétrico de Dodô e Osmar acontecida em 1950 às 17h do domingo de Carnaval, durante o desfile do bloco dos Fantoches da Euterpe, a Fobica foi recebida com vaias de um lado e aplausos do outro. Na época a praça Castro Alves ainda não era a praça do povo, como cantou há mais de 100 anos o poeta. Era o cenário onde as elites baianas faziam o seu carnaval. Primeiro com os carros alegóricos dos clubes, depois com carros conversíveis americanos. A diretoria trajada a rigor (de fraque e cartola), pediu para que a "dupla elétrica" desligasse o carro de som. Quando eles obedeciam, a multidão gritava pedindo que voltassem a tocar as marchinhas de frevo. Por fim, venceu a turma do "quero mais" e a fobica elétrica, com os músicos tocando os chamados "paus elétricos" levantou a poeira das ruas até a terça-feira.
Hoje os Trios Elétricos tornaram- se verdadeira instituição do carnaval da Bahia e revolucionaram a história da festa. Hoje, grandes carretas carregadas com instrumentos elétricos de som e material potente, verdadeiros estúdios, palcos ambulantes, comandam a animação dos foliões fazendo a festa grandiosa que é o Carnaval.

Os Anos 70:
Na década de 70 a praça Castro Alves foi o palco da ascensão e apogeu do Carnaval baiano.
Surgiram os "Novos Baianos". Influenciados pela contracultura e pela emergente Tropicália, Luiz Dias Galvão, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo ousaram e colocaram algumas caixas de som no trio, além de equipamentos transistorizados inserindo elementos universais renovando mais uma vez a cara da festa.
Não bastassem tantas mudanças, uma ainda mais radical ocorreu no Carnaval 74 com o surgimento do bloco-afro "Ilê Aiyê". A entidade deu início ao processo de reafricanização da festa, contribuiu com a aparição do afoxé "Badauê" e o renascimento do afoxé "Filhos de Gandhy". Era o começo do crescimento cultural do Carnaval de Salvador, que passou a enfatizar os conflitos e a protestar contra o racismo.
Em 1975 o trio elétrico "Dodô e Osmar" comemorou o jubileu de prata e retornou definitivamente à cena carnavalesca após um período de 14 anos afastado. O trio voltou com uma nova formação incluindo o músico Armandinho, filho de Osmar, e mudou o nome para "Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar".

Anos 80:
No início dos anos 80, o Carnaval de Salvador se modernizou ainda mais. O bloco "Traz Os Montes" inovou, trazendo para os trios elétricos equipamentos transistorizados, instalação de ar condicionado, instalação de caixas de som substituindo as antigas bocas de alto-falantes, eliminou a tradicional percussão que ficava nas partes laterais do trio e inseriu uma banda com bateria, cantor e outros músicos em cima do caminhão.
Em 1981, o bloco Eva, surgido em 1980 vem trazer mais inovações para o Carnaval contratando engenheiros, fazendo uma reestruturação no trio trazendo do Estados Unidos um novo sistema de sonorização chamando atenção do público e da crítica com a diferença gritante entre os seus equipamentos e os demais, assim como a qualidade dos cantores e das bandas, obrigando os outros blocos a investirem também em seus trios. Neste mesmo ano o Governador da Bahia assina o Decreto nº 27.811, que determina a suspensão do expediente nas repartições públicas na sexta-feira da semana anterior ao carnaval.
No ano de 1983, surgiram entre 30 e 40 ritmos trazendo mais uma vez renovação.

Paralelo da música do Carnaval da Bahia:
Mais tarde, Moraes Moreira, dos Novos Baianos teria a ideia de subir num trio (que era apenas instrumental) para cantar – foi o marco zero da axé music.
As origens do axé estão na década de 1950, com as “guitarras baianas” de Dodô Osmar e com o nascimento do trio elétrico, atração do carnaval baiano que Caetano Veloso chamou a atenção em 1968 na canção "Atrás do Trio Elétrico".
Paralelamente ao movimento dos trios, aconteceu o da proliferação dos blocos-afro: Ilê Aiyê, Filhos de Gandhi, Muzenza, Araketu e Olodum que chegaram tocando ritmos africanos como o ijexá, brasileiros como o maracatu e samba, e caribenhos como o merengue. Com a cadência e as letras das canções de Bob Marley misturados à música Latina e o traço de afirmação da negritude surgiu um novo ritmo em Salvador e fez sucesso com artistas como Tonho Matéria, Gerônimo, Banda Reflexus e Bamda Mel.
Com o crescimento do mercado da Música baiana, logo, Luiz Caldas (do trio Tapajós) e Paulinho Camafeu tiveram a ideia de juntar o frevo elétrico dos trios e o ijexá. Surgiu assim o "Deboche", que rendeu em 1986 o primeiro sucesso nacional daquela cena musical de Salvador: Fricote, gravado por Caldas. A modernidade das guitarras se encontrava com a tradição dos tambores numa mistura toda especial. Com esta inovação eclode uma nova geração de estrelas no Brasil: Chiclete com Banana, Sara Jane, Cid Guerreiro, Marcia Freire e Margareth Menezes (a primeira a engatilhar carreira internacional, com a bênção do líder da banda americana de rock Tolking Heards, David Byrne) Pouco tempo depois, o Olodum seria convidado pelo cantor e compositor americano Paul Simon para gravar participação no seu disco.
Após a década de 90 a Axé Music perdeu forças para música internacional. Desta forma, os gêneros musicais brasileiros, até mesmo o pagode, saíram do sucesso máximo nas rádios, bares, restaurantes e clubes.
Paralelamente, surgiu uma nova manifestação musical no estado da Bahia que trouxe fama de volta à música baiana, mas agora não na forma de samba de roda, mas uma mistura entre o samba, pagode e reggae das músicas latinas e a presença do carácter de negritude com os atabaques na música. E, apesar de o samba reggae ter origem na Bahia, não é considerado Axé e sim um estilo da MPB independente e inovador.
A música baiana avançaria mais ainda na direção do pop quando em 1992 o Araketu injetou música eletrônica em seus tambores, e o resultado foi o disco Araketu, lançado apenas na Europa.
No mesmo ano Daniela Mercury lançaria, O Canto da Cidade, e o Brasil se renderia de vez ao axé, surgindo aí o movimento que trouxe Ricardo Chaves, Asa de Águia e outros artistas. Enquanto o axé se fortalecia comercialmente, alguns nomes buscavam alternativas criativas para a música baiana. O mais significativo deles foi a Timbalada liderado por Carlinhos Brown com a proposta de resgatar o som dos timbales, incorporação de várias tendências do pop e da MPB à música baiana.
Nesse interim nomes de sucesso da música baiana multiplicavam-se: Banda Beijo, Jamil e Uma Noites e Bragadá são exemplos desta fase.
A nova fase traz a releitura do pagode, a mistura de ritmos locais como o samba-reggae e samba duro, trazidos por bandas como o Gera Samba, de lá para cá o movimento se multiplicou e surgiram inúmeras bandas fazendo com que o ritmo dominasse o Carnaval da Bahia.
O Carnaval da Bahia se diversificou de tal maneira que hoje integra, as mais variadas manifestações e pessoas de todas as camadas sociais no mesmo ambiente. Dentro dos blocos de trio, na “pipoca” em meio à multidão, ou sobre os recém criados e superluxuosos camarotes o povo movimenta a engrenagem desta grande fábrica de sonhos, chamada Carnaval.

Os Afoxés:
São entidades carnavalescas e trazem diversos elementos do Candomblé. Surgiram desde 1885 e apresentam-se cantando na língua nagô, valorizando através da indumentária, dos atabaques e dos agogôs a cultura africana.

Os Blocos-Afro:
Os Blocos-afro trazem através da indumentária, dos ritmos e das letras aspectos das culturas da África, valorizando e revivendo as tradições africanas. Os blocos-afro mais famosos são: Araketu, Ilê Aiyê, Malê DeBalê e Olodum.

Blocos de Travestidos:
Os blocos de travestidos se tornaram uma atração à parte no carnaval baiano, abrilhantando a grande festa, com uma irreverência fora do comum. As Muquiranas, o mais famoso deles, traz para a Avenida mais de três mil componentes que trazem graça e purpurina, a alegria e a liberdade de expressão do carnaval.

Blocos Alternativos:
Os Alternativos desfilam entre quinta-feira e sábado de carnaval. “Puxados” pelos trios elétricos eles surgiram em 1994 com a ideia de integração já que eram mais acessíveis do que os tradicionais.

Pipoca:
O folião pipoca é aquele que não teve acesso ao abadá nem aos camarotes, ou seja, aquele que dança fora destes grupos organizados (blocos) e aproveitam a passagem dos trios na rua ou seguem os trios independentes.

Camarotes:
Os camarotes são a opção para quem não quer o agito da multidão dos blocos e não quer deixar de participar da festa. Hoje os camarotes possuem uma rica estrutura de lazer, com bares, salões de beleza, pista de dança, espaço para shows e até restaurantes de grife.

Condição Atual:
Hoje sem dúvida alguma, o Carnaval de Salvador é uma das maiores festas de rua do mundo em questão de público, audiência, participação independente de classe social, cor ou credo. Todos os anos, dezenas de trios elétricos dão um verdadeiro show de alegria e muita paz para todo o mundo.


Transmissão SBT Folia. Armandinho e Irmãos puxando trio independente no domingo de Carnaval em Salvador 2015, circuito Barra/Ondina.

Vídeos de músicas que imortalizaram uma das melhores festas de rua do mundo: O carnaval da Bahia.
[VÍDEO-1] - Festa do interior/Bloco do Prazer, Moraes Moreira
[VÍDEO-2] - Chão da Praça, Ivete Sangalo e Margareth Menezes
[VÍDEO-3] - Força do Ilê/Pérola Negra, Daniela Mercury
[VÍDEO-4] - Filhos de Gandhi - Gilberto Gil e Jorge Benjor

VÍDEOS ESPECIAIS: [TV BRASIL-1], [TV BRASIL-2]
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