ESCRITORES

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Parabólicas e Mandacarus - Um lugar chamado Riopara - Conto I

As cidades, do mesmo modo que os seres vivos que se originam de minúsculas células, nascem de minúsculos vilarejos anteriores, reproduzem-se, desenvolvem-se, conurbam-se. Há aquelas que eventualmente morrem. Umas são de índole agreste, são selvagens, violentas, cheiram mal, confundem e suicidam lentamente seus habitantes; há outras que, de tão aprazíveis, tudo à sua volta iluminam e suavizam, parecem avencas altivas e delicadas. Entre as derradeiras, desde sempre, esteve Riopara.


JUSTINO JATOBÁ, EM SEU ÚLTIMO DISCURSO COMO PREFEITO 


O homem chega, já desfaz a natureza
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
[...]
Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento Sé.
Adeus, Pilão Arcado, vem o rio te engolir.
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira.
Por cima da cachoeira o gaiola vai, vai subir.
Vai ter barragem no salto do Sobradinho,
e o povo vai-se embora com medo de se afogar.
O sertão vai virar mar.
Dá no coração
o medo que algum dia o mar também vire sertão...
SÁ & GUARABYRA

Vim a Riopara porque me disseram que ela vai desaparecer. Vão represar o rio no Salto de Santana do Sobrado, meu pai me disse em sua última carta.
- Luiz, vamos até o morro do cruzeiro, de lá do alto dar pra gente ver tudo. 
Meu pai chamou e me fitou com olhar de quem sabe ler no rio o revés que estava por vir.
- Vamos agora porque a água em pouco tempo começa a cobrir o cais. 
Outras pessoas nos seguiram. Pairava no ar o prenúncio de que algo ia terminar e alguma coisa indeterminada ia começar quando a água irrompeu pelas frestas da balaustrada do cais. 
No alto do antigo cruzeiro, sobre a parte que ainda restava da bela base maciça de alvenaria, eu e meu pai Justino Jatobá contemplávamos com absoluta consternação o rio avançar sobre a cidade em vaga fluvial volumosa e numa enchente diluviana, submergir vastas extensões de terra, vilarejos, veredas, plantações; templos, terreiros e antigos casarões; praças, ruas, estradas e o sepulcro das almas que nos eram familiares, e que, segundo os olhos videntes de meu pai, a água afogava até o espírito dos mortos, e estes julgando que já fosse o juízo final, haviam saído de seus túmulos para andar sobre as águas à procura dos caminhos que se bifurcam para o inferno, purgatório ou direto ao paraíso.

Março, manhã, mormaço no vale do São Francisco, luz solar intensa, lume cintilante sobre a superfície das águas quando chegou o dia de Riopara partir em derradeira viagem para imergir no fluxo universal do tempo. Levou tudo consigo: singularidade, crenças, histórias e reminiscências; sua essência fluviocatingueira, sonhos, pesadelos e pecados cometidos. Nas últimas horas daquele apocalipse adiantado no tempo submergiu com seu antigo e vistoso casario, não adiantou a força e a fúria de seus deuses, totens, anjos e demônios; desapareceu com sua concepção do mundo, sua ancestralidade, seu modo de menina, suas idiossincrasias, seus imponderáveis e sua felicidade libertina.
“Adeus, Riopara, o rio veio te engolir.” “O sertão vai virar mar, dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão...”, Justino Jatobá cantarolou baixinho, desconsolado, e com uma marca de dor estampada na face, falou: Riopara não tem mais dimensão, não tem mais geografia, virou um labirinto imaginário, universo imaterial.
Na flor da idade, sem ter ainda conhecido mulher, sem ter feito qualquer coisa de memorável e desolado com a destruição, me imaginei morto sob as águas reencarnado noutra forma de vida, revivendo num Salminus brevidens - peixe tubarana, piraju, peixe dourado. E naquele instante em que reiniciara vivência com outra aparência física, um cheiro forte de terra seca desvirginada pelas águas da cheia impregnou a atmosfera. Talvez faltasse apenas uma hora, talvez menos, até Riopara ficar invisível e imergirem-se no horizonte os últimos vestígios de sua estrutura física e imaterial.
Naquele momento vi que Riopara inexistia; seu corpo tridimensional, agora intangível, jazia imerso numa planície líquida sob a vastidão de um lago antrópico; transubstanciara-se. Aves itinerantes cruzavam o céu em arribação na busca de pouso noutras paragens; por baixo d'água, a vida inteira daquele lugar repousava na memória, no aroma e no remanso das águas do “Velho Chico”. Suavemente, Riopara encantou-se; e, antes que o sol desse dia decaísse, sua alma surreal sumiu no seio do rio...


UM LUGAR CHAMADO RIOPARA  - CONTO I

“Onde eu nasci passa um rio
Que passa no igual sem fim
Igual sem fim minha terra
Passava dentro de mim"
CAETANO VELOSO


Toda cidade pequena é outra Macondo; cada uma assemelha-se à sua maneira. Riopara não escapava à regra: lugar insólito e natural, intensamente fluvial, tornando-se aos poucos não urbana, agreste, transmudando-se no espaço-tempo em terras e plantas semiáridas. Nela vivia uma gente incomum, fluviocatingueira; sobressaíam as antagônicas famílias Jatobá e Tapuia.

Dez anos anteriores à inundação, Riopara era cidadezinha singular com seus mortos, anjos, demônios e não mais que dois mil viventes. Local onde todo mundo se conhecia e onde tudo se sabia, até mesmo aquilo que ainda não tinha acontecido. Majestosa, pequenina, familiar, nela se podia ir a pé a qualquer lugar. No cenário urbano eram determinantes as casas de construção antiga e ruas estreitas calçadas de pedras graníticas lapidadas. Um cais, em forma de ramo de hipérbole, construído no contorno da cidade, protegia os casarões de reboco, adobe ou taipa das enchentes periódicas anuais. Todas as construções ladeavam a margem direita de um volumoso rio de águas verde-barrentas, que no seu leito largo, arrastavam vagarosamente seixos e areias brancas, vegetação arbustiva e enormes touceiras de capim arrancadas das margens, que quando encalhavam nas pedras formavam ilhotas ao longo do seu curso. Devido à posição e altitude em relação às margens, a natureza que servia de berço a Riopara atordoava pela imensa beleza; a vista do entorno espantava qualquer cansaço; límpidas praias temporárias, lagoas, baixios, ilhas, barcos e velas na direção do rio; rochedos, montes e serras no rumo da caatinga. Sobressaía nessa geografia e encantava ainda mais uma abóbada celeste que sempre esteve mais próxima da terra do que em outros lugares.

Barcas, batelões, balsas de remeiro, rebocadores e mais de trinta navios fluviais chamados de vapores atracavam em seu movimentado porto para proverem-se de lenha, abastecer comerciantes com diversificados tipos de mercadoria, cereais, rapadura, sal refinado, querosene, cachaças de Januária e outros produtos de consumo barranqueiro. Embarcações de todas as procedências que serviam toda uma região desprovida de estradas pavimentadas e ferrovias. O rio, única via de acesso num segmento navegável de 1370 km; estrada fluvial que no seu leito largo e contorcido ia se arrastando feito cobra em cada corredeira, em cada curva, em cada porto e ribanceira, ocultando mitos e mistérios entre Juazeiro na Bahia e Pirapora em Minas Gerais.

Os vapores davam a conhecer de suas chegadas com longos e melodiosos apitos e pelo barulho resfolegante de suas rodas-d’água e caldeiras. Ao som dos apitos, parte da população se dirigia ao porto em grande alvoroço, ansiosa por alvíssaras, retorno de parentes, chegada de pessoas de fora ou para vender produtos locais.
– Olha aí pessoal! Olha a melancia, pinha, manga-rosa, goiaba, quem vai querer?..., gritavam alguns vendedores mais agitados. Outros ofereciam mel de abelha, beijús-cambraia, esteiras de taboa ou de palha de carnaúba, queijo de leite de cabra e requeijão. Mercadorias de boa qualidade e aceitação. Durante a estadia do navio, tudo era vendido para tripulantes e passageiros. Em minutos nada sobrava. Depois das manobras de desatracação, quase todas as pessoas permaneciam paradas no porto esperando o vapor partir e desaparecer no curso sinuoso do rio.

Transcorria Janeiro em dia ensolarado característico da época, antes das oito da manhã o navio Benjamim Guimarães, primeira embarcação a se aproximar, atracou em Riopara trazendo uma encomenda para Justino Jatobá, então, o prefeito.
Após descarregamento dos caixotes contendo uma antena parabólica e acessórios, o comandante do navio, sujeito corpulento, de grande estatura, barba branca e de mãos enormes, feição acaboclada num rosto típico de fluviocatingueiro que exibia sinais de severidade logo desmentida por suas maneiras mansas e encantadoras se apresentou como Leonídio Barroso e deu a conhecer às pessoas presentes aquilo que ele considerava a maior invenção tecnológica do século XX. O artefato que tiraria Riopara do isolamento, do atraso e da incomunicabilidade. A população da pequena vila iria se conectar ao resto do mundo tão logo a antena fosse instalada e tivesse o foco direcionado para a vastidão da esfera celeste em busca de satélites.

Chiquinho do Jegue foi cedo ao porto esperar o vapor que trouxera a antena, para em seguida, transportá-la até a casa de Justino Jatobá no lombo de seu burrico, o jumento Tinhoso. Chiquinho puxava o asno com a certeza de que levava modernidade, transformações sociais, novos padrões culturais, enfim: a civilização. Durante o caminho, seguido por uma multidão bastante diversificada, todo orgulhoso, ia anunciando a boa-nova quando de repente o jegue cismou de empacar defronte ao adro da igreja matriz.
O transporte da parabólica teria acontecido dentro da normalidade não fosse a atitude inesperada do jegue que acabou transformando o traslado do equipamento num dos fatos mais insólitos já vividos pela população. No meio do trajeto, grande confusão se estabeleceu quando Tinhoso parou ao chegar diante da igreja. O beato João do Rosário, única pessoa em Riopara contrariada com a chegada da antena, antevendo não se sabe o quê, proferiu fanaticamente: “Esse troço é uma arte do capiroto, só vai trazer devassidão, lascívia e muita safadeza!”, e, colérico, ameaçou espancar o animal.
João do Rosário irritou-se ainda mais quando um grupo de garotos e as lascivas moças do bordel de Maria Xibiu Seco começaram a bater palmas para o animal, crentes em que o muar desejava que padre Jesuíno benzesse a parabólica. A atitude dos rapazes e moças enfureceu o beato, que bradou: “Tirem esse animal da calçada da Igreja! Aqui é local santificado, lugar de veneração e respeito a Deus.” Era como se o jegue Tinhoso carregasse nas costas todas as iniquidades, mazelas e obscenidades do mundo.
Chiquinho não se conformava. Gritava e assegurava que tinha o direito de ir e vir com seu jegue para onde bem quisesse. Isso encolerizou ainda mais o beato, que de posse de um porrete, atingiu as pernas do animal ameaçando aleijá-lo. O gesto intempestivo do beato revoltou os garotos, as putas, Maria Xibiu Seco, até mesmo Pôncio Tapuia, um sujeito sempre propenso à crueldade e vilanias, e demais pessoas paradas nas cercanias da igreja. Às pressas, dois policiais plantonistas foram chamados para tentar resolver o impasse do jegue. Um dos soldados queria obrigar Chiquinho a tirar o bicho do local. Muito revoltado, Chiquinho disse: “Meu animal foi agredido! Exijo que esse maldito beato seja preso imediatamente”.

Para aumentar ainda mais a confusão, o impassível jegue começou a zurrar e se dirigir em direção às escadas de acesso à porta principal da igreja. A cidadezinha se quedou inteiramente perplexa atraída por aquela celeuma. Formigava gente nas imediações do templo. Todo mundo ansiava pelo desfecho daquele acontecimento raro. Os policiais queriam que todos fossem embora, mudaram de ideia quando o endiabrado jumento numa investida espetacular resolveu soltar peidos, subir, mijar e cagar nas escadarias da igreja. Foram grandes o rebuliço e o alarido geral.

- “Vai todo o mundo agora pra delegacia, inclusive o jegue”, – bradou o militar mais velho.


Na delegacia, após entrega da parabólica em domicílio de Justino Jatobá, mais um entrave surgiu na hora de apresentar o jegue ao delegado: Chiquinho empregou vários meios, fez de tudo, mas não conseguiu fazer o sestroso jumento subir a rampa de acesso ao pátio. Vigiado pelos policiais e populares, o animal acabou amarrado numa árvore em frente ao prédio. Um boletim de ocorrência por maus tratos contra animal foi lavrado e o jegue encaminhado para exames no Centro de Zoonoses da vizinha cidade de Juazeiro. Atestadas as lesões, obrigado a arcar com as custas e condenado a prestar serviços comunitários, meses depois, João do Rosário foi acusado de pedofilia; desta vez encarcerado, enlouqueceu, enforcou-se.

2 comentários:

Izza Shocks. disse...

Adorei o blogue, parabéns!

Tânia Marques disse...

Obrigada pela sua presença em um dos meus blogs. Devido ao excesso de compromissos com a Filosofia da Diferença e com a arte, ando meio sem tempo de atualizá-los, mas prometo isso para logo, para as próximas férias. Visite também:
http://palavraseimagensposmodernas.blogspot.com
Adorei seus escritos! Seguiremos conversando! Beijos anarcoamigos.