ESCRITORES

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Parabólicas e Mandacarus [Um lugar chamado Riopara] - Capítulo I

“...gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.”
JOÃO GUIMARÃES ROSA

Chegara o dia de Riopara partir em sua viagem para imergir no fluxo universal do tempo. Partia com sua singularidade, suas crenças, histórias e reminiscências. Sua essência fluviocatingueira imergia com todos os sonhos, pesadelos e pecados cometidos. A cidade vivia as últimas horas de um apocalipse adiantado no tempo e submergia com seu casario antigo, com a força e a fúria de seus deuses, seus mortos, seus totens, anjos e demônios; Riopara sumia com sua concepção do mundo, sua ancestralidade e seu modo de menina; com suas idiossincrasias, seus imponderáveis e sua felicidade libertina.
Março, manhã, mormaço; dia típico na região são-franciscana. Luz solar intensa; lume cintilante sobre a superfície das águas. Encontrava-me em cima da parte que ainda restava da bela base maciça de alvenaria no alto do antigo cruzeiro, e com absoluta consternação, contemplava o rio São Francisco avançar sobre a cidade, numa enchente diluviana, em vaga fluvial volumosa, e submergir vastas extensões de terra, vilarejos, veredas e plantações; templos, terreiros e antigos casarões; ruas, estradas e o sepulcro das almas que me eram familiares, quando pressentir Justino Jatobá ser arremessado às águas impulsionado por balas de grosso calibre, despedir-se desse mundo e reencarnar no mesmo instante noutra forma de vida, reviver num Salminus brevidens - peixe tubarana, piraju, peixe dourado. Naquele instante em que Justino Jatobá voltava à vida para reiniciar vivência com outra aparência física, um cheiro forte de terra seca desvirginada pelas águas da cheia impregnava a atmosfera.
Agora, Riopara inexistia, era não lugar, jazia imersa sob longos céus e a vastidão de um lago antrópico; transubstanciara-se. Aves de arribação cruzavam o céu em busca de pouso e habitat noutras paragens; e por baixo d'água, uma vida inteira repousava na memória, no aroma e no remanso das águas do “Velho Chico”. Suavemente, Riopara encantou-se; e, antes que o sol desse dia decaísse, sua alma surreal sumiu  no seio do rio...




PRIMEIRO CAPÍTULO - UM LUGAR CHAMADO RIOPARA

“Onde eu nasci passa um rio
Que passa no igual sem fim
Igual sem fim minha terra
Passava dentro de mim"
CAETANO VELOSO


Rio São Francisco - Carrancas Literárias

Toda cidade pequena é outra Macondo; cada uma assemelha-se à sua maneira. Riopara não escapava à regra: espaço-tempo decorrido, era um lugar insólito e natural, intensamente fluvial, tornando-se aos poucos não urbana, agreste, transmudando-se em terras e plantas semiáridas. Nela vivia uma gente incomum, fluviocatingueira; sobressaíam as antagônicas famílias Jatobá e Tapuia.

Dez anos anteriores à inundação, Riopara era cidadezinha singular com seus mortos, anjos, demônios e não mais que dois mil viventes. Local onde todo mundo se conhecia e onde tudo se sabia, até mesmo aquilo que ainda não tinha acontecido. Majestosa, pequenina e familiar, nela se podia ir a pé a qualquer lugar. No cenário urbano eram determinantes as casas de construção antiga e ruas estreitas calçadas de pedras graníticas lapidadas. Um cais, em forma de ramo de hipérbole, construído no contorno da cidade, protegia os casarões de reboco, adobe ou taipa das enchentes periódicas anuais. Todas as construções ladeavam a margem direita de um volumoso rio de águas verde-barrentas, que no seu leito largo, arrastavam vagarosamente seixos e areias brancas, vegetação arbustiva e enormes touceiras de capim arrancadas das margens, que quando encalhavam nas pedras formavam ilhotas ao longo do seu curso. Devido à sua posição e altitude em relação às margens, a natureza que servia de berço a Riopara atordoava pela imensa beleza; a vista do entorno espantava qualquer cansaço: límpidas praias temporárias, lagoas, baixios, ilhas, barcos e velas na direção do rio; rochedos, montes e serras no rumo da caatinga.

Riopara tinha um próspero comércio em função de seu movimentado porto.  No antigo embarcadouro atracavam mais de trinta navios fluviais chamados de vapores, afora: barcas, batelões, balsas de remeiro e rebocadores para proverem-se de lenha e abastecer comerciantes locais com diversificados tipos de mercadoria, cereais, rapadura, sal refinado, querosene, cachaças de Januária e outros produtos de consumo barranqueiro. Embarcações de todas as procedências que serviam toda uma região desprovida de estradas pavimentadas e ferrovias. O rio era a única via de acesso num segmento navegável de aproximadamente 1370 km; estrada fluvial que no seu leito largo e contorcido ia se arrastando como cobra em cada corredeira, em cada curva, em cada porto e ribanceira, ocultando mitos e mistérios entre Juazeiro na Bahia e Pirapora em Minas Gerais.

Os vapores davam a conhecer aos moradores das suas chegadas com longos e melodiosos apitos e pelo barulho resfolegante de suas rodas-d’água e caldeiras. Ao som dos apitos, parte da população se encaminhava para o porto em grande alvoroço, ansiosa por notícias alvissareiras, retorno de parentes, chegada de pessoas de fora ou para vender produtos locais. – Olha aí pessoal! Olha a melancia, pinha, manga-rosa, goiaba, quem vai querer?..., gritavam alguns vendedores mais agitados. Outros ofereciam mel de abelha, beijús-cambraia, esteiras de taboa ou de palha de carnaúba, queijo de leite de cabra e requeijão. Mercadorias de boa qualidade e aceitação. Durante a estadia do navio, tudo era vendido para tripulantes e passageiros. Em minutos nada sobrava. Depois das manobras de desatracação, quase todas as pessoas permaneciam paradas no porto esperando o vapor partir e desaparecer no curso sinuoso do rio.

Transcorria o início de Janeiro, dia ensolarado, característico da época, por volta das oito horas da manhã, o vapor Benjamim Guimarães, primeira embarcação a atracar, chegou a Riopara trazendo uma encomenda para Justino Jatobá, o então prefeito: uma antena parabólica.
Logo após o descarregamento dos caixotes contendo a antena e acessórios, o comandante do navio, sujeito corpulento, de grande estatura e feição acaboclada, barba branca e de mãos enormes, que se apresentou como Leonídio Barroso, deu a conhecer às pessoas presentes aquilo que ele considerava a maior invenção tecnológica do século XX. O artefato que tiraria Riopara do isolamento, do atraso e da incomunicabilidade cultural. A população da pequena vila iria se conectar ao resto do mundo tão logo a antena fosse instalada e tivesse o foco direcionado para a vastidão da esfera celeste em busca de satélites.

A parabólica foi transportada até a cidade no lombo do jumento Tinhoso. Francisco Oliveira, cognominado Chiquinho do Jegue, foi cedo ao porto esperar o vapor em que chegava a antena, para em seguida, transportá-la no seu burrico até a casa de Justino Jatobá. Chiquinho puxava o asno com a certeza de que levava a modernidade, as transformações sociais da época, novos padrões culturais, enfim: a civilização. Todo orgulhoso, durante o caminho, seguido por uma multidão bastante diversificada, Chiquinho ia anunciando a boa-nova, quando de repente, o jegue cismou de empacar defronte ao adro da igreja matriz.

O transporte da parabólica teria acontecido dentro da normalidade não fosse a atitude inesperada do jegue que acabou transformando o traslado do equipamento num dos fatos mais insólitos já vividos pela população. No meio do trajeto, uma grande confusão se estabeleceu quando Tinhoso parou ao chegar diante da igreja. O beato João do Rosário, única pessoa em Riopara contrariada com a chegada da antena, antevendo não se sabe o quê, proferiu fanaticamente: “esse troço é uma arte do capiroto, só vai trazer devassidão, lascívia e muita safadeza!”, e, sem piedade, começou a espancar o animal.

João do Rosário irou-se ainda mais quando um grupo de garotos assanhados e as lascivas moças do bordel de Maria Xibiu Seco começaram a bater palmas para o animal, crentes em que o muar desejava que o padre Jesuíno benzesse a parabólica. A atitude dos rapazes e moças irritou o beato, que bradou: “Tirem esse animal da calçada da Igreja! Aqui é um local santificado, lugar de veneração e respeito a Deus.” Era como se o jegue Tinhoso carregasse nas costas todas as iniquidades, mazelas e obscenidades do mundo.

Chiquinho não se conformava. Gritava e assegurava que tinha o direito de ir e vir com seu jegue para onde bem quisesse. Isso encolerizou ainda mais o beato, que de posse de um porrete, atingiu as pernas do animal ameaçando aleijá-lo. O gesto intempestivo do beato revoltou os garotos, as putas, Maria Xibiu Seco, até mesmo Zeca Tapuia, um sujeito sempre propenso à crueldade e vilanias, e demais pessoas paradas nas cercanias da igreja. Às pressas, dois policiais plantonistas foram chamados para tentar resolver o impasse do jegue. Um dos soldados queria obrigar Chiquinho a tirar o bicho do local. Muito revoltado, Chiquinho disse: “meu animal foi agredido! Exijo que esse maldito beato seja preso imediatamente”.

Para aumentar ainda mais a confusão, o impassível jegue começou a zurrar e se dirigir em direção às escadas de acesso à porta principal da igreja. A cidadezinha se quedou inteiramente perplexa, irresistivelmente atraída por aquela celeuma. Formigava de gente nas imediações do templo. Todos ansiavam pelo desfecho daquele acontecimento raro. Os policiais queriam que todos fossem embora, mas mudaram de ideia quando o jumento numa investida espetacular resolveu subir, mijar e cagar nas escadarias da igreja. Foram grandes o rebuliço e o alarido geral.

- “Vai todo o mundo agora pra delegacia, inclusive o jegue”, – bradou o militar mais velho.

Na delegacia, após a entrega da parabólica em domicílio de Justino Jatobá, mais um entrave surgiu na hora de apresentar o jegue ao delegado: Chiquinho empregou vários meios, fez de tudo, mas não conseguiu fazer o sestroso jumento subir a rampa de acesso ao pátio. O animal acabou amarrado numa árvore em frente ao prédio, vigiado pelos populares. Um boletim de ocorrência por maus tratos contra animal foi lavrado e o jegue encaminhado para exames no Centro de Zoonoses da vizinha cidade de Juazeiro. Atestadas as lesões, obrigado a arcar com as custas e condenado a prestar serviços comunitários, meses depois, João do Rosário foi acusado de pedofilia; desta vez encarcerado, enlouqueceu, enforcou-se.

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