ESCRITORES

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O universo mágico, poético e insólito dos contos de Murilo Rubião

Contos - Murilo Rubião
"(...) Meu pai, homem de boa cultura humanística, era filólogo e pertenceu à Academia Mineira de Letras. Escrevia com rara elegância, apesar de gramático. Dele herdei a timidez e um certo ar cerimonioso, que me tem privado da simpatia de numerosas pessoas. Algumas delas mulheres, o que é lamentável. (...) Muito poderia contar das minhas preferências, da minha solidão, do meu sincero apreço pela espécie humana, da minha persistência em usar pouco cabelo e excessivos bigodes. Mas, o meu maior tédio é ainda falar sobre a minha própria pessoa."
 (Trechos de Auto-retrato, Murilo Rubião)


Uma obra composta de trinta e dois contos não muito longos pode parecer um tanto inconsistente. Mas seu autor passou a vida toda reescrevendo-os, como se ele próprio fosse um personagem que explorasse as fronteiras do absurdo, tema ao qual se filiou desde os primeiros escritos, mesmo antes de ler Kafka, García Márquez, Borges ou Cortázar.
Murilo Rubião (1916-1991) assume, no entanto, a influência de Machado de Assis em sua obra. Sobretudo em contos como Memórias do Contabilista Pedro Inácio e O Pirotécnico Zacarias que, entre outros, fazem dele o precursor do realismo mágico na literatura brasileira. Em todos eles, epígrafes bíblicas inspiram a leitura, universalizam-na. A figura feminina também tem presença unificadora, com a força de violento encanto.
Duas linhas dimensionais, a do inverossímil e a da estranheza que tangencia o real - angústia e solidão -, saltam da obra de Rubião em forma de desvio da realidade, esse mundo que não é, mas, muitas vezes, bem que poderia ser. Vemos Rubião em Dias Gomes, em Chico Buarque, mas o enxergamos mesmo é no incômodo mais excêntrico, no fato de estarmos vivos.

Por Marcílio Godoi - Revista Língua Portuguesa - edição - 112

Saiba mais sobre a vida e obra de Murilo Rubião, acessando:

O Entrelinhas conversa com a diretora Yara de Novaes e com a atriz Débora Falabella sobre a peça "O Amor e Outros Estranhos Rumores", espetáculo que é uma adaptação de três contos de Murilo Rubião, e entrevistou o jornalista Humberto Werneck sobre esse precursor do realismo fantástico no Brasil, que só ganhou reconhecimento aos 60 anos.


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