ESCRITORES

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Memória de minhas putas tristes

É apenas na aparência que esta inesperada e surpreendente história de amor entre um ancião e uma ninfeta se insere numa tradição da qual fazem parte o Vladimir Nabokov de Lolita, O Thomas Mann de Morte em Veneza e o Yuasunari Kawabata de A Casa das belas adormecidas, ainda que este último tenha sido citado na epígrafe de Memória de minhas putas tristes e fornecido o mote a partir do qual o escritor Gabriel García Márquez pôs fim a um período de dez anos longe dos romances.
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Só quando acorda ao lado da ainda pura ninfeta Delgadina é que este personagem vai ganhar a humanidade que lhe faltou enquanto fugia do amor como se tivesse atrás de si um dos generais que se revezaram no poder na mítica Colômbia de Gabriel García Márquez. O medo do amor é tão superlativo que o anti-herói dessas memórias vai preferir conviver com a mais terrível ameaça para o macho latino: o fantasma da impotência. E enquanto tivesse forças, resistiria ao poder do amor.
Parte desse medo se deve aos ridículos a que o amor nos expõe, aqui elevado a última potência em cenas como a que o ancião anda numa bicicleta cantando "com ares do grande Caruso" ou aquela em que destrói um quarto de bordel. E por mais que lidemos com esse sentimento como se fosse um paletó dois números acima do nosso, apenas ele e tão-somente ele, o amor, nos faz humanos, como desde tempos imemoriais a arte vem tentando provar. Seja nos boleros mais sentimentais, que ressoam nas paixões evocadas pelos grandes mestres da ficção, ou em obras-primas como esta.
Contracapa do livro [Editora Record]


Transposição da obra para o cinema:


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