ESCRITORES

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Poesia, Drama e Ensaio na Literatura de Carlos Barbosa


Buscando o resgate das tradições [as orais, pela poesia; as históricas e sociológicas, pela prosa], Carlos Barbosa constrói o mosaico de uma região em que estão presentes as relações familiares, com sua inegável carga de misticismo.
A dama do Velho Chico traça um panorama peculiar da região baiana atravessada pelo rio São Francisco, em cujas águas ancestrais circularam os antológicos vapores [gaiolas], transportando gente, mercadorias, sonhos, esperanças e descrenças, pontificando histórias inusitadas. Durante a viagem de uma romaria entre Bom Jardim e Bom Jesus da Lapa desenrola-se parte desta instigante trama, com suas projeções psicológicas e metafísicas, onde é tênue a fronteira entre a vida e a morte.
Daura, adolescente de quinze anos, desperta paixões no vaqueiro Agenor, no tio Vilino e em Missinho - que se transtorna com os pensamentos acerca da irmã, depois de perceber a mulher em que ela se transformou. Nessa atmosfera, pululam casos, intimidades, fantasias e conflitos, delineando relações turbulentas e situações misteriosas.
Com uma dicção particular e um desfecho surprendente, A dama do Velho Chico revela um autor que tem pleno domínio da arte ficcional e um aguçado olhar sobre a profundidade dos sentimentos humanos, firmando um estilo vigoroso, que destoa do pastiche, do falso experimentalismo e das inócuas vanguardices que contagiam a literatura contemporânea. [Ronaldo Cagiano, Escritor]

DENSA CORRENTEZA DE POESIA E DRAMA

Em 2009 pela editora [Bom Texto], Carlos Barbosa nos leva de volta às margens do rio São Francisco, onde se passa a história, repleta de histórias, de Beira de rio, correnteza – ventura e danação de um salta-muros no tempo da ditadura. E se já no livro anterior se mostrava romancista capaz de uma narrativa segura, intensa, nesta nova obra revela-se ainda mais senhor de sua arte, com a qual nos conta a ventura e a danação de Gero, um garoto de 14 anos de idade, que se firma como um dos personagens jovens mais dramaticamente importantes da literatura brasileira.
Não há, neste juízo, nenhum exagero. Gero é mais do que convincente: é vivo. Inicialmente adolescente comum, com idéias, sonhos, interrogações e medos comuns, de todos os adolescentes – mas não dos mais destacados, tido até como um molenga –, aos poucos se vai envolvendo, um tanto por acaso e muito devido ao seu caráter inquieto e corajoso, em situações venturosas e danadas, principalmente com a descoberta do amor, da felicidade e, logo, da traição, do ciúme, de impulsos ainda em si insuspeitados. E tudo numa pequena cidade em que transitam ocultamente guerrilheiros fugitivos, perseguidos por soldados da ditadura militar, estes aterrorizando a comunidade, invadindo casas, suspeitando de todos, prendendo, interrogando, espancando, torturando – como no caso do inocente Zé de Gino, que depois das torturas não teve mais forças para a vida. O que aconteceu, de fato, com muitos inocentes, em várias regiões do país.
Lá está a presença sinistra da ditadura. Lá estão as sombras de dois guerrilheiros: Carlos Lamarca e Zequinha Barreto, cujos nomes jamais são pronunciados. Lá, além de um muro que Gero precisa saltar para não morrer, está, inesperadamente, o amor. E, em meio a tudo, o Velho Chico, com as águas mansas, ou irritadas, ou líricas, ou traiçoeiras, passando, passando...
O rio. Pelo menos desde Heráclito de Efeso, a mais perfeita metáfora da vida. Aliás, Carlos Barbosa nos diz: “Observar o fluir do rio é conceber o próprio tempo, frio, enrugado, inexorável, massa bruta e implacável em busca de foz, fim dos pequenos fios. E, também, o desdobrar das existências humanas e animais que seu fluir criou e depois carregou em sua história de rio e corredor.”
Lemos a história de Gero, mas também visitamos a história de um tempo e de um lugar, desde eras remotas. Trata-se, pois, de um romance bem mais vasto do que sugerem suas 208 páginas. Viajamos pela alma de Gero, pelos acontecimentos que o envolvem e em que se envolve voluntariamente, mas também estamos em contato com a alma da terra, de uma secular aventura humana à beira de um rio. O mistério do desaparecimento de Toninho, irmão mais velho de Gero, craque de futebol; o espetáculo da morte de Zé Dugogue; a doçura – e também o mistério – de Liana; a metralha dos soldados... Estes e outros momentos fortes, como tantos mais, são narrados em estilo enxuto, preciso, mas nunca áspero, pedregoso. Na verdade, o leitor logo percebe que Beira de rio, correnteza é tão perpassado pelo rio quanto pela poesia.
Com esta sua nova publicação, Carlos Barbosa vem enriquecer, e muito, a literatura brasileira, especialmente a ficção baiana, adentrando a atmosfera dramática e telúrica de um [Herberto Sales], por exemplo. Um livro denso e maduro. Um belo romance.

[Texto de Ruy Espinheira Filho, poeta e ficcionista, em Resenha publicada na edição de 12.06.2010, no Caderno 2+ do jornal A Tarde, Salvador/BA]
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