ESCRITORES

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"Construção" - Primoroso Mosaico de Versos Dodecassílabos


Corria o ano de 1972, e, com apenas 28 anos, Chico Buarque lançava o histórico e antológico “Construção”, disco cujo nome provinha do título da canção que ocupava a última faixa do lado A. Além do primoroso arranjo de Rogério Duprat e da bela participação do MPB-4, a música “Construção” trazia uma letra de tessitura talvez inédita até então (e até hoje) em nossa canção popular: um mosaico de versos dodecassílabos, que sempre terminam numa proparoxítona. Os dezessete versos da primeira parte (quatro quartetos, acrescidos de um verso-desfecho) são praticamente os mesmos dezessete que compõem a segunda parte; o que muda é a última palavra, quase sempre tirada da lista das proparoxítonas que encerram os versos da primeira parte e, obviamente, posta em um verso diferente. Na terceira parte da letra, o número de versos diminui (são sete), mas o mosaico permanece.
Para a temática do seu poema-canção, Chico talvez se tenha inspirado em “O Operário em Construção”, de Vinicius de Moraes, mas a sua “Construção” tem características formais únicas, que vão da semelhança entre a arquitetura das estrofes/versos e a das paredes de um edifício ao requinte do verso dodecassílabo esdrúxulo, ou seja, encerrado por uma proparoxítona. E é aqui que quero deter-me. Por que encerrar o verso com uma proparoxítona? Que têm elas de especial? A explicação disso é também a explicação de boa parte da mecânica do funcionamento do nosso sistema (tônico e gráfico) de acentuação.
Vejamos como é isso, pois. Sabemos todos que a sílaba tônica de uma palavra portuguesa pode ser a última, a penúltima ou a antepenúltima. Das três, a menos comum é a antepenúltima, o que equivale a dizer que as proparoxítonas são as palavras menos comuns na nossa língua. É justamente por isso que todas são acentuadas. O nosso sistema de acentuação gráfica foi feito para que se acentuasse sempre o que é incomum, raro, diferente. O pontapé inicial é dado pelas proparoxítonas para que se matem dois coelhos com um só golpe: cumpre-se a promessa de acentuar o que contraria a tendência e fica-se com apenas dois tipos de palavras (oxítonas e paroxítonas), o que permite que se estabeleça com os vocábulos um sistema binário, baseado na relação comparação/exclusão. Se, por exemplo, uma paroxítona terminada em “r” é acentuada (“éter”, “mártir”, “fêmur” etc.), uma oxítona de mesma terminação não será acentuada (“amor”, “correr”, “partir” etc.).
E por que se decidiu acentuar as paroxítonas que terminam em “r” e não as oxítonas que terminam em “r”? Por sorteio? Não; por método. Como vimos, acentuam-se as diferentes, as incomuns: as oxítonas terminadas em “r” são abundantes (para começar, “só” todos os verbos de mais de uma sílaba, quando no infinitivo, terminam em “r” e são oxítonos); as paroxítonas terminadas em “r” são raras (tente pensar em duas dezenas delas e veja quanto tempo você gastará para completar a lista _tomara que consiga!).
Esse mecanismo baseado no binômio comparação/exclusão permanece em todo o sistema de acentuação gráfica da nossa língua. O resultado disso é que acentuamos graficamente poucas palavras (algo muito próximo de 10% delas). Se quiser conferir, apanhe dois parágrafos quaisquer de um texto qualquer, conte as palavras que os compõem e depois veja quantas desses vocábulos recebem acento gráfico. Tenho certeza de que, no máximo, chegam a 12%. Isso não é bruxaria, não; é estatística mesmo.
Em tempo: se fizer o que sugeri, aproveite para notar que as proparoxítonas são realmente as menos comuns. E não se espante se um desses parágrafos tiver apenas uma (ou nenhuma) proparoxítona.
Na construção da sua “Construção”, nosso querido Chico Buarque certamente teve muito trabalho, e boa parte dele deve ter sido consumida na busca das vinte proparoxítonas (desprezadas as que resultam da flexão de gênero ou número) que encerram os quarenta e um versos dessa memorável letra.
PASQUALE CIPRO NETO em: PENSO; LOGO ESCREVO no site [TÔ SABENDO MAIS]

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