ESCRITORES

ESCRITORES

Tangolomango - Ritual das Paixões deste Mundo

Tangolomango - Raimundo Carrero
"Um dos escritores mais premiados do país, o pernambucano Raimundo Carrero, de 68 anos, não parou de produzir nem na recuperação de um AVC, sofrido em outubro de 2010. Meses depois, já ditava à sua terapeuta um romance e, depois, passaria ele mesmo a escrever, com um dedo da mão direita. Tangolomango - Ritual das Paixões deste Mundo passaria por três tratamentos, modificando-se enquanto o autor recuperava movimentos e a articulação da fala.
A capa, da designer Hallina Beltrão, sugere o que encontraremos. Carrero é obcecado pela loucura, pelo sexo, pelo que Ariano Suassuna definiu como confrontação com o mal. A obra do pernambucano é, como acena Ariano, um confronto, ambíguo em suas mobilizações e desarmamentos, ora repudiando, ora fascinado pelo "maior de todos os mistérios". Antevemos tia Guilhermina, senhora mascarada, seios nus, arrebatada pelo gozo momesco. É ela que conduzirá a narrativa intrincada, oferecendo-nos mais um ponto de vista sobre a família retratada em romances anteriores do autor." Revista Língua Portuguesa - Edição 90
A seguir, trechos da entrevista concedida à Revista Língua Portuguesa na qual o escritor discorre sobre sua obra:

- O sexo e a loucura são temas quase indistintos nos seus textos recentes.
Sexo é loucura. Não há lucidez no sexo. O sexo é movido pelas forças interiores, pela psique, pela alma. Não há sexo movido pelo corpo. O corpo só movimenta. Sexo sem espírito não existe, há só gestos. Isso é o que mais me inquieta. Não o sexo pelo prazer comum, vulgar. Mas pelo desejo de se realizar plenamente. Tia Guilhermina fala do grande sexo que faz o homem ser grandioso na sua capacidade de reinventar o mundo com alegria. Daí a liberdade que só o carnaval permite. Atingir o ponto central que é não representar, mas ser. Sempre busco essas coisas na alma humana. Se não for assim não é possível fazer nada, só repetir os demais autores. E não quero repetir ninguém.

- Tangolomango é também sobre uma espera sem fim. Tia Guilhermina "esperaria horas, meses e anos, simplesmente porque não havia marcado com ninguém".
Ela se apaixona pelo que não existe. Vai a bares e espera por namorados que não existem. Como a gente, que passa a vida esperando pelo que não há, porque nós também não existimos. Inventamos a existência. É o encontro não marcado que nunca teremos. Não é possível encontrar algo que nos seja suficiente. Somos mentirosos, cínicos e pedantes. Eis o que me angustia enquanto escritor. Sou escritor por isso. Em O Amor não tem Bons Sentimentos, Matheus tenta o tempo todo convencer de que estuprou e matou a mãe e a irmã. E não matou ninguém. Só procura agredir aquele ser que ele não é. Se dissesse que é normal, não daria boa existência, assim como um homem normal não dá bom romance. 

- É como o narrador sugere: "O carnaval eterno já é um começo. E o cordão de isolamento era proteção que o sofrimento concede a todo ser vivo". 
Exato. Como o homem não se expõe, é protegido por um cordão de isolamento que é o seu sofrimento, sua angústia, sua dor. Esse cordão protege o homem contra a verdade do mundo. Se não existisse, o mundo seria uma loucura.

Para saber mais sobre a obra de Raimundo Carrero, acesse:

"Nada mais triste que o carnaval". Com essas palavras, o escritor pernambucano Raimundo Carrero reflete sobre seu mais novo livro Tangolomango - Ritual das paixões deste mundo, no Imagem da Palavra. Raimundo cria um romance que combina as festividades carnavalescas e a melancolia, em uma quebra dos clichês identitários nacionais. A partir de uma família ficcional corroída pelo incesto, o autor retrata aspectos de uma sociedade devastada. Parceiro de Ariano Suassuna no Movimento Armorial, Raimundo Carrero fala sobre a língua portuguesa, o sentimento sertanejo e sobre sua vida após ter sofrido um AVC.


Postar um comentário