AUTORRETRATO
Entro no meu quarto e me deito para descansar um pouco; fazendo a análise de minha vida pregressa, me dei conta dos aspectos mais representativos, das inquietações mais agudas que constituíram os fundamentos da minha existência. Meus lastros fundadores sempre me impeliram para fugir dos padrões dominantes e não ocupam lugar em espaços de espíritos exemplares, vivem na casa dos desviantes e dos maus exemplos, estou no rol daqueles que ninguém governa. Ajusto-me a mim, não ao mundo.
Adormecido ou acordado, minha alma, corpo e nariz apontam para os chapadões rioparenses, na linha do nada onde tudo se reparte em aura de mistério, livusias, ideias, pessoas e abstrações. Tenho boca ávida pela vida e pela água do “Velho Chico”; meu coração quer entranhar o mundo em mim enquanto meus olhos miram atentos e abarcam todas as paisagens do sertão profundo.
Percorro estradas e caminho pelo mundo sem saber filosoficamente quem sou, nem por que estou aqui. No vagar do tempo, vou vivendo.
Fluviocaatingueiro das barrancas são-franciscanas, cresci no seio leitoso da caatinga navegando em barcos ou montado em jumentos; descalço, livre e exalando do corpo aquele indefinível cheiro da juventude, tive os pés regulados para andar por caminhos e veredas, cabelos esvoaçando ao vento, ouvindo os sons de uma fauna alegre e bucólica; matuto liberto do tempo, vivia absorto, contando estrelas, nadando na terceira margem do rio, entregue a fantasias e devaneios.
Em Juazeiro, na adolescência, vivenciei o amor, esse rio imenso que tudo leva em seu curso, ante o qual sentimos que não se pode resistir; experimentei as primícias do sexo e o delicado abismo da loucura; aprendi a fumar e a beber, matei aulas no colégio para estripulias amorosas e conheci um anjo safado de grande sabedoria, que me disse: vai Edinho, ser torto na vida.
Passei um tempo na terra das alterosas e o meu coração que até então era baiano-vadio ficou barroco-mineiro. Subi e desci ladeiras da pátria Minas imaculada onde foram inventados o silêncio, a liberdade e a terceira margem do rio. Descobri que na vida existem mais hipóteses do que teoremas. Supor é melhor que demonstrar, pois na dúvida reside a vontade de continuar a viver.
Depois deixei a memória, o patrimônio de séculos construído pelo homem, o silêncio das montanhas e a voz interna de minha alma na terra “de onde o oculto do mistério se escondeu”, de onde o Velho Chico vem. Calcei chinelos, peguei o trem, e vim embora para cá onde as ruas ora são largas, ora estreitas, antissimétricas e calçadas de “pedras polidas pisadas de pretos”, os sons das sirenes são atabaques, padres, pastores e poetas são da noite, o vizinho que mora ao lado é Quincas Berro D’água, os malucos são beleza, árvores são centenárias e sagradas, o cantar das aves é intrigante, a religião oficial é eclética, bela e eficaz, mistura santo com comida, pipoca-branca com hóstia, encruzilhada com catedral e coruja-ebó com monsenhor; e o acarajé, especialidade magnífica da culinária afro-baiana, é o hambúrguer do povo.
Em Salvador nasci pela segunda vez; meu coração bateu aflito, mas assim que vi o mar, serenei e tudo que havia existido voltou subitamente, e volta sempre, quando caminho pelo calçadão do Porto da Barra até ao Largo das Gordinhas em Ondina ou circundando as sinuosas curvas do enigmático Dique do Tororó à sombra de enormes árvores centenárias.
Na terra de todos os santos iniciei minha estirpe dando existência a duas lindas descendentes femininas; e em terra coirmã, a um belo varão. Às mulheres que amei e com quem convivi devo muito do que sou naquilo que possa ter de virtuoso. Aí, o que foi e o que poderia vir a ser andam comigo, incluindo o sonho e a liberdade de um libertino a vaguear pelas licenciosas ruas da Bahia.
Entusiasta da liberdade, não gosto que me deem ordens nem me digam o que devo fazer, por isso gosto tanto de viajar por esse mundo afora onde “ninguém dirige aquele que Deus extravia”.
Sou anjo torto, um traquinas que não consegue contrariar o seu signo de baiano rioparense, de vagabundo iluminado da Latinoamérica, pois tenho a convicção de que morrerei, conforme a canção, de “amores, de susto, de bala ou vício, entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços nos braços, nos olhos, nos braços de uma mulher”.
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