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Parabólicas e Mandacarus - Autorretrato - Conto II


AUTORRETRATO

Entro no meu quarto e me deito para descansar um pouco; fazendo a análise de minha vida pregressa, me dei conta dos aspectos mais representativos, das inquietações mais agudas que constituíram os fundamentos da minha existência. Meus lastros fundadores sempre me impeliram para fugir dos padrões dominantes e não ocupam lugar em espaços de espíritos exemplares, vivem na casa dos desviantes e dos maus exemplos, estou no rol daqueles que ninguém governa. Ajusto-me a mim, não ao mundo.

Adormecido ou acordado, minha alma, corpo e nariz apontam para os chapadões rioparenses, na linha do nada onde tudo se reparte em aura de mistério, livusias, ideias, pessoas e abstrações. Tenho boca ávida pela vida e pela água do “Velho Chico”; meu coração quer entranhar o mundo em mim enquanto meus olhos miram atentos e abarcam todas as paisagens do sertão profundo.

Percorro estradas e caminho pelo mundo sem saber filosoficamente quem sou, nem por que estou aqui. No vagar do tempo, vou vivendo.

Fluviocaatingueiro das barrancas são-franciscanas, cresci no seio leitoso da caatinga navegando em barcos ou montado em jumentos; descalço, livre e exalando do corpo aquele indefinível cheiro da juventude, tive os pés regulados para andar por caminhos e veredas, cabelos esvoaçando ao vento, ouvindo os sons de uma fauna alegre e bucólica; matuto liberto do tempo, vivia absorto, contando estrelas, nadando na terceira margem do rio, entregue a fantasias e devaneios.

Em Juazeiro, na adolescência, vivenciei o amor, esse rio imenso que tudo leva em seu curso, ante o qual sentimos que não se pode resistir; experimentei as primícias do sexo e o delicado abismo da loucura; aprendi a fumar e a beber, matei aulas no colégio para estripulias amorosas e conheci um anjo safado de grande sabedoria, que me disse: vai Edinho, ser torto na vida.

Passei um tempo na terra das alterosas e o meu coração que até então era baiano-vadio ficou barroco-mineiro. Subi e desci ladeiras da pátria Minas imaculada onde foram inventados o silêncio, a liberdade e a terceira margem do rio. Descobri que na vida existem mais hipóteses do que teoremas. Supor é melhor que demonstrar, pois na dúvida reside a vontade de continuar a viver.

Depois deixei a memória, o patrimônio de séculos construído pelo homem, o silêncio das montanhas e a voz interna de minha alma na terra “de onde o oculto do mistério se escondeu”, de onde o Velho Chico vem. Calcei chinelos, peguei o trem, e vim embora para cá onde as ruas ora são largas, ora estreitas, antissimétricas e calçadas de “pedras polidas pisadas de pretos”, os sons das sirenes são atabaques, padres, pastores e poetas são da noite, o vizinho que mora ao lado é Quincas Berro D’água, os malucos são beleza, árvores são centenárias e sagradas, o cantar das aves é intrigante, a religião oficial é eclética, bela e eficaz, mistura santo com comida, pipoca-branca com hóstia, encruzilhada com catedral e coruja-ebó com monsenhor; e o acarajé, especialidade magnífica da culinária afro-baiana, é o hambúrguer do povo.

Em Salvador nasci pela segunda vez; meu coração bateu aflito, mas assim que vi o mar, serenei e tudo que havia existido voltou subitamente, e volta sempre, quando caminho pelo calçadão do Porto da Barra até ao Largo das Gordinhas em Ondina ou circundando as sinuosas curvas do enigmático Dique do Tororó à sombra de enormes árvores centenárias.

Na terra de todos os santos iniciei minha estirpe dando existência a duas lindas descendentes femininas; e em terra coirmã, a um belo varão. Às mulheres que amei e com quem convivi devo muito do que sou naquilo que possa ter de virtuoso. Aí, o que foi e o que poderia vir a ser andam comigo, incluindo o sonho e a liberdade de um libertino a vaguear pelas licenciosas ruas da Bahia.

Entusiasta da liberdade, não gosto que me deem ordens nem me digam o que devo fazer, por isso gosto tanto de viajar por esse mundo afora onde “ninguém dirige aquele que Deus extravia”.

Sou anjo torto, um traquinas que não consegue contrariar o seu signo de baiano rioparense, de vagabundo iluminado da Latinoamérica, pois tenho a convicção de que morrerei, conforme a canção, de “amores, de susto, de bala ou vício, entre saudades, soluços, eu vou morrer de bruços nos braços, nos olhos, nos braços de uma mulher”.

Xico Sá - Aventuras e desventuras dos machos perdidos e das fêmeas que se acham


Chabadabadá
"Xico Sá é um sábio escriba do Crato que ganhou o mundo e se tornou cidadão de tantas paragens quantas já tiveram a honra de sua presença. Neste livro de agudas crônicas nos propõe discutir o papel do homem e da mulher numa nova configuração social que já está dando demais na vista. Os medos, as inseguranças, a coragem delas (e a incapacidade deles) de chorar em público, de dizer “eu te amo”, de comprometer-se. Em suas inúmeras elucubrações, devaneios mil, Xico tenta realizar feitos de Hércules, impossíveis, como o de tentar decifrar os enigmas da mulher. Não chega a muitas conclusões, além do confessado fascínio e reiterada paixão, mas solta uma pérola dos gêneros: “homem é vírgula, mas mulher é ponto final.” O livro é composto de dezenas de pílulas de sapiência ofertadas por este sertanejo cosmopolita, filósofo cearense, oráculo de edificantes e alcoólicas noites, lembrando-nos que “se a vida dói, uísque caubói.”
Continue a leitura em excelente resenha sobre a obra de Xico Sá, acessando:

[...] Em CHABADABADÁ, com o sugestivo subtítulo Aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha, Xico analisa relacionamentos amorosos, o papel do macho moderno, as queixas femininas. Mas vai logo avisando: “Sim, a perdição do macho é real, mas não sou eu que vou procurá-lo, como digo no relato de abertura do livro”. Último dos boêmios, é justamente da boêmia, fonte onde bebe sem temer ressaca, que tira todas as narrativas, chistes, trocadilhos, máximas e frases de efeito.[...]

O homem de agora não é igual ao homem de antes. Depois que as mulheres saíram de casa, tomaram as rédeas e exigiram seus direitos, o macho jurubeba — patriarcal, provedor, senhor do lar — entrou em extinção. Mas o que tomou o seu lugar? O homem sensível? O homem metrossexual? O homem fofo? Neste Café Filosófico, o cronista Xico Sá discute os novos homens e as novas mulheres, e debate como o macho contemporâneo pode lidar com essa realidade tão nova e diferente.


As descrições surreais do conto "Sábado à noite no bar do Bira"

Não há de que se envergonhar. Afinal, há alguns milhares de anos que amamos desvairadamente de todas as formas registradas ou não no Kama Sutra e nos murais de Pompeia. (...) E, embora o que se passa na cama seja segredo de quem ama, nunca houve segredo mais repartido que esse em todos os tempos e culturas. 
(Affonso Romano de Sant’Anna – trecho do texto “O Erotismo nos deixa Gauche?”, prefácio do livro O Amor Natural, de Carlos Drummond de Andrade; Editora Record, Rio de Janeiro, 2007);

Todo sábado às oito da noite vou à região portuária, zona boêmia da cidade, me instalo na mesa oito do bar do Bira, bebo cervejas como um bávaro, e lá, findo a noite para me aprazer com uma mulher ou ocasionalmente com um homem. Com experiência amorosa marginal, das ruas, da noite, creio já ter vivenciado todas as delícias e prazeres sensuais que uma relação a dois, a três, proporciona. Arraigado ao hedonismo do vinho, do sexo, da boa mesa, não me deixo levar pelas rédeas do conservadorismo, da hipocrisia e do recato. Ente devasso e doido manso, escandalizo puritanos e castos saciando meus desejos, desatinos e taras fazendo do amor livre o meu modus vivendi. O cristianismo hedonista de Michel Onfray é minha religião, seu livro: A arte de ter prazer, minha bíblia.
Nessas noitadas sabáticas conheci uma diva; culta cortesã, leitora contumaz dos cânticos sensuais de Salomão, com quem vivo intensos prazeres de alcova; dama dotada de estreita bainha, libertina que não quer descanso quando fode com requintes de puta-rainha; ousada e transgressora, ela devassa os aspectos intelectual, imaginativo, romântico, emocional e obsceno da sexualidade e faz do bar do Bira um reduto da libertinagem.
Num anexo contíguo ao bar funciona um bordel onde sete mulheres – oito no total – incluindo a cafetina Maria Lupanar, compõem o corpo feminino da casa. Apelidada Tabaco de Bronze decorrente do fato que, reconhecidamente, a xoxota dela é a bainha mais estreita daquela paragem ribeirinha, cona de carne rija, de leveza no esfoliar, justa a tal ponto que parece sem lubricidade ao penetrar. Toda a população masculina, incluindo o padre, o pastor, o prefeito e o poeta, coabita no cerne incrustado entre suas pernas. Forte figura feminina que conhece desejos e manhas da alma masculina; doutorada em sexualidade nos prostíbulos da vida, deixa homens e mulheres em desvario pelos prazeres que lhes proporciona em sua lida. Além do sexo, caracteriza-a fisicamente o fascínio do olhar sedutor e fêmeo feito ímãs dos olhos que se escondem atrás de burcas afegãs.
Ao deitar com essa dama no recôndito de sua intimidade, os desejos medram, emocionam, variam, surpreendem; o sexo floresce e vai se misturando com risos, promessas e palavras obscenas; o clímax ganha intensidade com a música, a dança, a poesia e o vinho; o ato incorpora fantasias e elementos afrodisíacos que alentam minha loucura para depois prosseguir na noite em companhia de:

Maria Lolita – ninfeta à Nabokov; sensualidade e desejos à flor da pele; fogosa, irresistível, indomável. Desde sua noite de primícias que seu acentuado apetite sexual só é saciado em ménage à trois por mim e Jesus Jatobá, afamado frequentador que às vezes se faz meu parceiro de cama, de copo e de cruz; únicos que a deixam levitando após os ritos eróticos de uma grande noitada. Maria Lolita sempre dança rebolando sensualmente, e nesses momentos, Jesus Jatobá costuma dizer: Essa cortesã é uma tentação obscena, incita-nos a luxúria e a sodomia; no meio da noite, quando abatida pelo cansaço, se deixa dominar, dorme; sua alma dorme profundamente, seu corpo, ao contrário, se mantém vivo e pleno de feminilidade; descanso sentindo a fragrância que deixa cada palmo do quarto saturado de sua intimidade; quando desperta, ao se afastar do recinto, deixa sempre um rastro abstrato de pura fascinação;

Maria Casmurra – balzaquiana cujo rosto já denota certa materialidade do tempo; em público casta, ensimesmada, sempre resmungando e de mal com a vida, reclama de tudo. Em privado consegue dissimular muito bem o contrário daquilo que aparenta, gosta extremamente do ofício; de palavra depravada, mãos exímias com seus dedos sábios, dedos errantes que adentram meu corpo atrás, na frente, em cima, embaixo, entre, dedos que não brocham; exímia mais ainda com a boca, esse órgão que serve à vida, ao verbo e ao sexo; tem um jeito especial de me beijar o sexo que deixa o mundo rodando, e tudo vai ficando solto, convulso e desconexo;

Maria Gata Mansa – a mais bela e sensual, de gestos mansos, meiga e manhosa; de pele alvinha e sem manchas, mamilos cor-de-rosa, felídea selvagem quando está comigo na cama; assemelha-se demais aos felinos com sua sensualidade agressiva e seu caminhar sigiloso de gata vadia;

Maria de Luanda – conduz a cozinha e a cama com cadência, engenhosidade e arte; de sorriso obsceno, negra fagueira com olor de fêmea no cio; de andar bamboleante, irrequieta nos quadris e na alma; muito chegada a forró e samba-de-roda; encantam-me o rebolado e suas belas curvas negras e carnudas; enlouquece quando escuta: “quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”, seu corpo se contorce com requebros que me deixam em descontrole apalpando, acariciando, beijando, gozando em sua carne íntima suada; e aí: ela fala, ela canta, ela grita, ela fode, ela “morre” na cadência bonita do samba;

Maria Lua Cheia – olhar de cachorro doido e alma andrógina, alma revestida de um masculino invisível; valentia em pessoa, quem a desrespeitar apanha na certa, muito propensa a brigas e devaneios com as outras mulheres; em noite alta de lua cheia se entrega concupiscente às suas amantes já falecidas e, em êxtase, goza e me faz gozar alucinadamente durante horas, e por fim;

Maria Gioconda – riso silencioso de Mona Lisa; enigmática, tímida e frígida, uma pedra, abstrata, alheamento total na cama, nem mesmo Jesus Jatobá, o falo libidinoso do bordel, consegue lhe dar prazer, por mais diminuto que seja. Fraca figura feminina que contém fortalezas dentro de si, alma fugidia, de corpo inalcançável. Apesar de hermética, mantenho estranha relação com ela; excita-me o cheiro canforado que emana de sua cona, arrepios deliciosos percorrem meu corpo, uma cócega sobe entre minhas coxas e se aninha no meu sexo; o odor de sua intimidade me embriaga os sentidos; tenho orgasmos espontâneos.

Excetuando Maria Gioconda, vieram ao mundo para gozar a existência, para o prazer; nenhuma engravida; serão todas infecundas? Na trama e nos instintos são todas iguais às mulheres da minha rua; minha rua atravessa vilas, cidades, países, não há fronteiras. Apenas eu, cobaia de Deus e do Diabo, conheço o hedonismo e infecundidade destas mulheres; por motivo misterioso, pessoal, ou mesmo por teimosia, não revelo a ninguém. Coexisto entre vivos e mortos, tomo corpo em todas elas, me revisto de forma material e trago todas entranhadas em mim; a oitava Maria do bar do Bira sou eu; mais uma entre tantas Marias; lá, sou fêmea de buceta metafísica, lúbrica, lasciva, mulher de alma libertina, de tanto tesão, deliro; me viro do avesso e sou toda vulvar.

Domingo, oito da manhã, deixo o bordel, entro no Gato da Noite, nome oficial do bar do Bira, para a última birra, umas tragadas de inflorescências de cânhamo ou uma viagem lisérgica. Tobinha, o garçom dileto da casa, peito e músculos à mostra, calça arregaçada, botinas rangentes, com vassoura de piaçava e rodo nas mãos, esfrega e lava o chão da calçada do bar. O porto, as ruas, a cidade ainda dormem, afora o bar do Bira onde a noite nunca tem fim. No interior do bar, olhos vermelhos vararam a madrugada, não arredam, espreitam acesos os primeiros movimentos da manhã. Na mesa oito, um malandro mediúnico se arrepia, capta minha presença torpe, sente meu perfume de sândalo misturado com chope, odor delicado de buceta limpa em dia de mormaço quente. Em transe místico observo as outras mesas, numa delas: adolescentes andróginos, dândis, lésbicas e afins; noutra: Aretino, Sade, ninfetas pervertidas e querubins; noutra: ianomâmis masturbam mulheres magras sedentas, noutra: Safo de Lesbos lambe a vulva de uma virgem-prostituta santa e sinistra; avisto também um painel que recobre a parede do fundo com a imagem de Jesus Cristo, Maria Madalena e os apóstolos numa Santa Ceia profana.

Meca da boemia, nesta hora da manhã o Gato da Noite é puro delírio, covil da vadiagem que reúne uma horda de boêmios notívagos, intelectuais, artistas, navegantes e um gato vadio que quando me vê se espreguiça sobre a prateleira para receber afeto; acolhe músicos e cantores dos cabarés, gente da polícia e padres à paisana; aloja ladinos, loucos e exploradores de mulheres; mistura vendedores de haxixe e uma leva diversificada de malandros insones e mulheres livres que zanzam batalhando na noite.

Bebo a última cerveja, belisco a bunda de Bira, levito e saio; ando no leito de paralelepípedos cambaleando lentamente; não sei se sou eu que observo a rua ou se é a rua que me olha; nesta espécie de limbo, minha mente reverbera versos de Zé Ramalho: “há meros devaneios tolos a me torturar”, “e isso explica porque o sexo é assunto popular”.

Vagueio por mundo insondável possuída pela liberdade e pelo imponderável das paixões; corto de fininho o ramo hiperbólico que contorna o cais e sinto no rosto a brisa casta da manhã à espera do próximo sábado...

Vídeo Correlato - A história da cidade romana de Pompeia