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Na canção Triste Bahia, Caetano Veloso relembra-nos um belíssimo poema de Gregório de Matos

Caetano Veloso é daqueles artistas que envelhecem da melhor maneira: aprimorando a sua arte. Suas interpretações recentes de antigas gravações mostram que ele não parou no tempo, se reinventando e, ao mesmo tempo, mantendo-se instigante, perturbador, provocador com arte. De quebra relembra-nos um belíssimo poema de Gregório de Matos mesclado a versos doces e nostálgicos.
 

Compositores: Caetano Veloso / Gregório de Mattos
Triste Bahia! Oh quão dessemelhante
Estás, e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

Triste Bahia! Oh quão dessemelhante

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim vem me trocando, e tem trocado
Tanto negócio, e tanto negociante.
Triste, oh, quão dessemelhante, triste
Pastinha já foi à África
Pastinha já foi à África
Pra mostrar capoeira do Brasil
Eu já vivo tão cansado
De viver aqui na Terra
Minha mãe, eu vou pra lua
Eu mais a minha mulher
Vamos fazer um ranchinho
Tudo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua
E seja o que Deus quiser

Triste, oh, quão dessemelhante
Ê, ô, galo canta
O galo cantou, camará
Ê, cocorocô, ê cocorocô, camará
Ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará
Ê, pelo mundo afora, ê pelo mundo afora camará
Ê, triste Bahia, ê, triste Bahia, camará
Bandeira branca enfiada em pau forte
Afoxé leî, leî, leô
Bandeira branca, bandeira branca enfiada em pau forte
O vapor da cachoeira não navega mais no mar
Triste Recôncavo, oh, quão dessemelhante
Maria pé no mato é hora
Arriba a saia e vamo-nos embora
Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vai embora
Oh, virgem mãe puríssima
Bandeira branca enfiada em pau forte
Trago no peito a estrela do norte
Bandeira branca enfiada em pau forte
Bandeira...

A lírica profana, iconoclasta e satírica de Gregório de Mattos



Gregório, nada gregário

Como todos os que nasceram no Brasil antes da Independência, "Boca do Inferno" era considerado luso-brasileiro. Filho de influente empreiteiro português, o baiano Gregório de Matos foi procurador, desembargador, tesoureiro da corte, cargos dos quais era destituído por sua verve corrosiva contra a sociedade e a Igreja. 
Apesar do início lírico e até sacro de sua obra, assumiu uma acidez que o tornou poeta iconoclasta, satírico e ofensivo. Condenado pela Inquisição, foi deportado para Angola, onde contraiu uma febre que o levaria à morte quando já repatriado, no Recife. Antes de morrer, padeceu de arrependimento.
Há pendenga entre críticos sobre a tradição na formação de uma literatura nacional como fenômeno de civilização, que excluiria o barroco e, com ele, a perspectiva de Gregório ou de Pe. Antônio Vieira, dada a imaturidade de seu meio, como teorizou Antonio Candido. Acima e ao largo disso, das "representatividades dos sistemas", passa o estilo único de Gregório de Matos, a inquieta pena penada de nosso primeiro grande poeta pairando pia ou ímpia sobre a história da língua portuguesa.
Por: Marcílio Godoi, Revista Língua Portuguesa, Edição-96

Veja também, no site da [Academia Brasileira de Letras], a biografia, bibliografia e textos escolhidos.

Para saber mais sobre a obra de Gregório de Matos, acesse: [www.jornaldepoesia.jor.br/grego.html]