ESCRITORES

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Elegia, Uma canção ao leito da mulher amada





John Donne (1572-1631), poeta metafísico e teólogo anglicano, tornou-se famoso por causa de seus sermões. Mas, além da obra sacra, escreveu poemas de caráter acentuadamente erótico - um dos mais conhecidos é "Elegy-XIX". Em 1979, o poema foi adaptado por Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos, transformando-se na belíssima música Elegia, que Caetano Veloso gravou e incluiu no álbum [Cinema Transcendental]

Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz, se um homem só a conquista

Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo

(Como a alma sem corpo) sem vestes.
Como encadernação vistosa,
Feita para iletrados, a mulher se enfeita

Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la.
Eu sou um que sabe.
Um, um ...
Leia o poema completo, tradução de Augusto de Campos, em:

John Donne, Vida &Obra: [John Donne-1], [John Donne-2]

Percepções acerca do tempo na literatura musical de Gilberto Gil



"Novo tempo sempre se inaugura
A cada instante que você viver
O que foi já era, e não há era
Por mais nova que possa trazer de volta
O tempo que você perdeu, perdeu, não volta
Embora o mundo, o mundo, dê tanta volta
Embora olhar o mundo cause tanto medo
Ou talvez tanta revolta"
Gilberto Gil - Música, Era Nova

OUTROS VÍDEOS: [EXPRESSO 2222], [PARABOLICAMARÁ]

Tempo rei
Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos

Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
Água mole
Pedra dura
Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei
Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas de repente ficam sujas
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

"Tempo Rei é a minha versão para uma questão colocada em Oração ao Tempo, onde a frase-chave para mim é: 'Quando eu tiver saído para fora do teu círculo, não serei nem terás sido' - quer dizer: o tempo desaparecerá, eu desaparecerei; o tempo e aquele que o inventa, o ego, estarão ambos desinventados, portanto. Na música do Caetano parece haver um niilismo essencial, um mergulho no nada absoluto e uma resignação plena, orgulhosa e altiva com a extinção. Na minha tem uma coisa mais cristã; uma, quem sabe, quimera; um vago desejo de permanência e de transformação. 
"Em todo o meu filosofar popular sobre o existente e o eterno, há sempre uma possível porta aberta pra algo pós. Para mim é muito difícil não crer no pós sem não crer no pré. Como me é absolutamente impossível anular a existência do anterior a mim, também me é muito difícil aceitar a inexistência do posterior; para mim são coisas iguais. Assim como eu 'não posso esquecer que um dia houve em que eu não estava aqui' [Cada Tempo em Seu Lugar], um dia haverá em que eu não estarei aqui: mas esse dia haverá; haverá o ser das coisas que serão independentes de mim então. Eu não imagino a extinção de tudo com a extinção do meu ego. A morte de todas as pessoas que nós conhecemos até aqui não extinguiu o mundo - nem o que foi anterior a elas, nem o que lhes foi posterior; por que esse milagre aconteceria justo comigo? Eu levaria tudo comigo? 
"Aí reside para mim um problema do existencialismo. Aí, e só aí, eu esbarro um pouco em Sartre, apesar do meu grande amor por ele, e ele não me convence. Sartre morreu e o mundo está aí! Por isso à sua filosofia eu chamaria mais de individualismo do que existencialismo. Um existencialismo individualista, não algo universalizável."
O provérbio "água mole em pedra dura etc." fala da eficácia que as coisas acabam tendo ao durarem no tempo. Na letra, a omissão do final do ditado, "até que fura" [cujo significado é o da ação de interferência no mundo, dentro do plano do tempo "real", cronológico], e a sua substituição pela expressão "que não restará nem pensamento", além de servirem para romper a expectativa de enunciação completa de um dito conhecido, servem, segundo Gil, sobretudo ao seu propósito de sugerir a ideia de corte da dimensão do tempo enquanto duração para a dimensão do tempo "enquanto eternidade sorvedora de todas as suas dimensões, para a sua transdimensionalização"; de saída "do tempo-existência para o tempo-essência [o eterno]"; do tempo para o "atempo" - onde, nas palavras do compositor, "já nem pensar é possível". 

Expresso 2222
Começou a circular o Expresso 2222
Que parte direto de Bonsucesso pra depois
Começou a circular o Expresso 2222
Da Central do Brasil
Que parte direto de Bonsucesso
Pra depois do ano 2000

Dizem que tem muita gente de agora
Se adiantando, partindo pra lá
Pra 2001 e 2 e tempo afora
Até onde essa estrada do tempo vai dar
Do tempo vai dar
Do tempo vai dar, menina, do tempo vai

Segundo quem já andou no Expresso
Lá pelo ano 2000 fica a tal
Estação final do percurso-vida
Na terra-mãe concebida
De vento, de fogo, de água e sal
De água e sal
De água e sal
Ô, menina, de água e sal

Dizem que parece o bonde do morro
Do Corcovado daqui
Só que não se pega e entra e senta e anda
O trilho é feito um brilho que não tem fim
Oi, que não tem fim
Que não tem fim
Ô, menina, que não tem fim

Nunca se chega no Cristo concreto
De matéria ou qualquer coisa real
Depois de 2001 e 2 e tempo afora
O Cristo é como quem foi visto subindo ao céu
Subindo ao céu
Num véu de nuvem brilhante subindo ao céu

"Um dia em Londres eu anotei num caderno: 'Começou a circular o expresso 2222, que parte direto de Bonsucesso pra depois' - e esse pra depois me suscitou imediatamente uma parada. Não tive o mínimo ímpeto de continuar nada; decidi deixar aquilo ali como um vinho, num barril de carvalho, pra envelhecer. Só quase um ano mais tarde, já em outra casa, peguei de novo o caderno [onde, além de versos, eu anotava recados telefônicos, bilhetes para Sandra], musiquei o que tinha escrito e, com o violão, fui fazendo o resto."
Por que 2222 - "Da infância até a idade adulta eu fiz muita viagem de trem, que era um dos meios de transportes fundamentais para nós da Bahia. Os trens da Companhia Leste Brasileira - e outros - saindo e entrando nas estações, em Salvador, em Ituaçu, em Nazaré das Farinhas, me marcaram. Não sei por que cargas d'água, essa repetição do 2 era algo de que eu estava impregnado; alguma locomotiva, de número 222, que eu vi, ficou na minha cabeça e, quando comecei a letra, a primeira imagem que me veio foi dela."
As metáforas da canção - "É evidente que a idéia de viagem, expressa na letra, está ligada às drogas, os modificadores e expansores de consciência da época. Era um tempo de muita maconha, LSD, mescalina; Londres vivia o auge dessa cultura. O expresso foi uma alegoria literal disso. E 'Bonsucesso' entrou porque era rima e, além disso, referência a um lugar de onde eu vinha, de onde a viagem poderia ter-se iniciado - o Brasil, o Rio de Janeiro, aquele bairro -, seguindo dali pra depois..."
Vocativo funcional - "A tal menina que aparece no meio da música é uma interlocutora fictícia, que só entrou para fazer a transição rítmica entre uma linha e outra, como um engate dos vagões de um trem, mas que ganhou personalidade e reapareceu na estrofe seguinte. Eu senti necessidade de chamá-la à cena de novo, de revê-la na próxima estação... Essas coisas malucas; o feitio de uma canção é uma loucura!"

Parabolicamará
Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar

Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabaça
Nem tá preso nem foge
No instante que tange o berimbau, meu camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo da volta, camará

De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião, o tempo de uma saudade

Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico, Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino apresentar
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

"Eu queria fazer uma canção falando dos contrastes entre o rural e o urbano, o artesanal e o industrial, usando um linguajar simples, típico de comunidades rudimentares, e uma cadência de roda de capoeira. Aí, compondo os primeiros versos, quando me ocorreu a palavra 'antena' - seguida de 'parabólica' - para rimar com 'pequena', eu pensei em 'camará' [palavra usada comumente nas cantigas de capoeira como vocativo] para completar a linha e a estrofe. Como 'parabólica camará' dava um cacófato, eu cortei uma sílaba 'ca' e fiz a junção das palavras, criando o vocábulo 'parabolicamará'. Uma verdadeira invenção concretista; uma concreção perfeita em som, sentido e imagem. Nela, como um símbolo, vinham-me reveladas todas as interações de mundos que eu queria fazer. Aí se tornou irrecusável prosseguir e, mais, fazer daquilo um emblema do conceito, não só da canção, mas de todo o disco (Parabolicamará)."
"Em Parabolicamará pus o tempo existencial, psíquico, em contraposição ao tempo cronológico - a eternidade, a encarnação e a saudade à jangada e ao saveiro - e estes dois ao avião -, para insinuar o encurtamento do tempo-espaço provocado pelo aumento da rapidez dos meios de comunicação física e mental do mundo-tempo moderno e das velocidades transformadoras em que vivemos. Pus também o tempo sub-atômico, da partícula, da subfração de tempo; do átomo de tempo - cuja imagem mais representativa é exatamente a correção equilibradora que a Rosa faz com o balaio. E pus por fim o tempo da morte, o tempo-corte, o tempo que corta, ceifa, o tempo-foice, onde alguma coisa é e de repente foi-se, lembrando - na citação dos caymmianos Chico, Ferreira e Bento - a morte do meu filho: a situação, segundo se imagina, de ele meio sonolento no volante do carro sendo subitamente assaltado pelo evento acidental que o levaria à morte."
Letras das músicas e textos extraídos do site: [www.gilbertogil.com.br]

Elomar - poeta, filósofo e trovador místico da Caatinga





Elomar Figueira Mello, músico e poeta singular, vive no Interior da Bahia compondo suas músicas. Em 1973 gravou um elepê que até hoje não se encontra onde comprar. Foi elogiado por pouquíssimos: continuou ignorado por muitos. Trovador místico, arquiteto criador de bodes, inspirador de Henfil na criação de Francisco Orelhana (o verdadeiro existe e mora lá na Caatinga, às margens do Rio Gavião), e da graúna, Elomar é uma estranha mistura. "Prumodi" compreendê-lo, é preciso viajar 500 e poucos quilômetros, de Salvador até Vitória da Conquista, embrenhar-se com ele numa estradinha de 102 quilômetros, que se percorre de carro, em quatro horas; e, depois andar, mais quilômetro e meio a pé, atravessando na área seca os dois braços do Gavião, vendo os corpos dos cabritinhos mortos ao sol. Tudo isso faz parte do aprendizado. Tudo isso - apenas isso! - explica o homem inquieto, cercado de morte, empenhado em cantar a vida eterna". (Tania Pacheco, setembro/-quase primavera de 1976) Em 1979, quando a atuante Associação Paulista de Críticos de Arte considerou "Na Quadrada das Águas Perdidas" como o melhor disco daquele ano, a surpresa foi grande: afinal, quem era Elomar, o solitário compositor - intérprete das canções rudes, de letras estranhas, exigindo a atenta leitura do texto acompanhando o álbum para conseguir entender as palavras - muitas das quais necessitando de um dicionário para a devida interpretação? A crítica paulista descobria com atraso de seis anos aquilo que alguns poucos brasileiros - entre os quais nos incluímos - já havia percebido em 1973: a força e originalidade do mais importante criador de raízes populares surgido nos anos 70: Elomar Figueira de Mello, baiano de Vitória da Conquista, arquiteto que optou pelo canto da caatinga, pela criação de bodes e por ser apenas um cantador na melhor tradição medieval. ... DAS BARRANCAS DO RIO GAVIÃO - Roberto Sant'Anna, um infatigável Ziegfield tupiniquim, lançador de tantos talentos - do Quinteto Violado em 1971 ao Luís Caldas, atual desbunde baiano com seu "Fricote", foi quem, há 13 anos passados fez com que a música originalíssima de Elomar chegasse ao disco. Convenceu o arisco sertanejo a entrar num estúdio e gravar 12 de suas mais belas canções - de imagens notáveis, enriquecidas por sua sonoridade única. "... Das barrancas do Rio Gavião", título do elepê (Philips/Polygran, reeditado em 1978 - e ainda nas lojas) foi um desbum para quem sabe ver/ouvir o que o Brasil tem de mais belo.
Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 23 de março de 1986
TEXTO COMPLETO:
[www.millarch.org/artigo/elomar-o-cantador-da-caatinga]

SITE OFICIAL DO ARTISTA:
[www.elomar.com.br]