ESCRITORES

ESCRITORES
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

Uma vela para Dario - Análise profunda da miséria humana na criação literária de Dalton Trevisan

A solidão pela ausência de solidariedade é o tema central do conto Uma vela para Dario. Estar sofrendo um momento de extrema dificuldade, precisando de amparo, ajuda e, ao invés de recebê-la, ser ainda destituído de seus pertences e da própria dignidade nos faz refletir sobre o fato se devemos ou não nos preocupar com pessoas desconhecidas, ao serem encontradas nas ruas, em situação de perigo, precisando de ajuda: “A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.” O espaço é o elemento da narrativa mais explorado neste conto. É nele que se desenvolve todo o enredo. É através dele que percebemos o quanto foi dramático o sofrimento da personagem Dario: a rua é um espaço aberto, destituído de qualquer conforto, áspero, sujo, deprimente, que expõe a pessoa a todos os olhares e comentários e também às intempéries da natureza como o vento, a chuva: “É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las”. Para Dalton Trevisan, o espaço mais significativo é a cidade de Curitiba. Em grande parte de seus contos, Curitiba aparece citada através de nomes de ruas, bairros, monumentos, pontos de referência. A sua Curitiba é um local com problemas, degradado, mas que assim mesmo acolhe seus moradores. Neste conto não há referência à cidade de Curitiba, mas percebe-se que se trata de um grande centro urbano, onde as pessoas não têm muito conhecimento umas com as outras: “Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite”  “Registra-se a correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia”.Dalton mostra o lado cruel da cidade para com os “estrangeiros”, aqueles que não pertencem à comunidade, que estão de passagem. O único movimento solidário para com ele partiu de um menino negro, provavelmente outra vítima da exclusão social: “Um menino de cor e descalço vem com uma vela que acende ao lado do cadáver". "Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair".
Por Sônia Aparecida Bittencourt Morski, em:
[www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/476-4.pdf]



Parabólicas e Mandacarus - Onde eu nasci passa um rio - Conto I

ONDE EU NASCI PASSA UM RIO

Onde eu nasci passa um rio

Que passa no igual sem fim

Igual sem fim minha terra

Passava dentro de mim

CAETANO VELOSO

 





Vou a Riopara, me disseram que ela vai desaparecer. Vão represar o rio no Salto de Santana do Sobrado, meu pai me disse em sua última carta.

O ônibus descia a estreita escarpa da Serra das Araras Azuis quando descortinou na paisagem, por entre todas as cores que o sol do entardecer concede, aquilo que eu sabia estar sendo visto pela última vez: a natureza que servia de berço a Riopara aprazia aos olhos e cativava o espírito pela intensidade da beleza; a vista do entorno espantava qualquer cansaço; límpidas praias temporárias, lagoas, baixios, ilhas, barcos e velas na direção do rio; rochedos, montes e serras no rumo da caatinga. Sobressaía nessa geografia uma abóbada celeste que sempre esteve mais próxima da terra do que em qualquer outro lugar e a água do rio lambendo cariciosa o grande lábio da margem onde a cidadezinha subsistia vivendo seus últimos instantes.

- Vamos até o morro do cruzeiro; de lá do alto, dar pra gente ver tudo.

Meu pai chamou fitando meu rosto com olhar transcendente de quem adivinhava o revés que estava por vir.

- É bom irmos logo!, em pouco tempo a água começa a cobrir o cais.

 Após alertar, ele se fez silêncio durante todo o caminho e apenas suas firmes passadas faziam com que eu não me sentisse só; em nossa companhia eram dezenas agora e pairava no ar o prenúncio trágico de que algo ia ter fim e alguma coisa indeterminada ia começar quando as águas irromperam pelas aberturas da balaustrada do cais.

Do alto do antigo cruzeiro, sobre a parte que ainda restava da bela base maciça de alvenaria, eu e meu pai, envoltos em semicírculo por uma densidade humana, contemplávamos com absoluta consternação o rio avançar sobre a urbe despovoada em vaga fluvial volumosa, e numa enchente diluviana, submergir vastas extensões de terra, vilarejos, veredas, plantações; templos, terreiros e antigos casarões; praças, ruas, estradas e o sepulcro das almas que nos eram familiares, e que, segundo os olhos videntes de meu pai, a água afogava até o espírito dos mortos, e estes julgando que já fosse o juízo final, saíam de seus túmulos para andar sobre as águas à procura dos caminhos que se bifurcam para o inferno, purgatório ou direto ao paraíso.

Março, manhã, mormaço no vale são-franciscano; intensa luz solar projetava lume cintilante sobre a superfície das águas quando chegou o dia de Riopara partir em derradeira viagem para imergir no fluxo universal do tempo. Levou tudo consigo: singularidade, crenças, histórias e reminiscências; sua essência fluviocaatingueira, sonhos, pesadelos e um século e meio de pecados cometidos. Nas últimas horas daquele apocalipse adiantado no tempo submergiu com seu vistoso casario, não adiantou a força e a fúria de seus deuses, totens, anjos e demônios; desapareceu com sua concepção do mundo, sua ancestralidade, seu modo de menina, suas idiossincrasias, seus imponderáveis e sua felicidade libertina.

Introspectivo, olhos lacrimosos por ter sido desterrado, como se quisesse afugentar sentimentos dolorosos, meu pai discursou: as cidades, do mesmo modo que os seres vivos que se originam de minúsculas células, nascem de diminutos vilarejos anteriores, reproduzem-se, desenvolvem-se, conurbam-se. Há aquelas que eventualmente morrem. Umas são de índole agreste, selvagens, violentas, cheiram mal, confundem e suicidam devagarinho seus habitantes; há outras que, de tão aprazíveis, tudo à sua volta iluminam e suavizam, parecem avencas altivas e delicadas. Entre as derradeiras, desde sempre, esteve Riopara.

No prelúdio da idade, sem ter ainda conhecido a mutualidade do sexo ou de um amor maior, sem ter feito qualquer coisa de memorável e desolado com a destruição, de súbito senti meu corpo a mover-se sob as águas noutra forma de vida, revivendo num Salminus brevidens - peixe tubarana, piraju, peixe dourado. E naquele instante em que reiniciava vivência com outra aparência física, um cheiro forte de terra seca desvirginada pelas águas da cheia impregnou a atmosfera. Talvez faltasse apenas uma hora, talvez menos, até Riopara ficar submersa e sumir no horizonte seus últimos vestígios.

O desalento daquele dia ficou para sempre marcado em mim vendo Riopara jazer imersa sob uma planície líquida na vastidão de um lago antrópico; aves itinerantes cruzavam o céu em arribação procurando pouso noutras paragens; por baixo d'água, a vida inteira daquele lugar repousava na memória, no aroma e no remanso das águas do “Velho Chico”.

Antes que o sol desse dia decaísse, com a existência preservada em recente corpo físico, sumi no seio do rio em busca dos cardumes dourados para recomeçar outra vida, esse imenso mistério.


Para ler o segundo conto, acesse:

Xico Sá - Aventuras e desventuras dos machos perdidos e das fêmeas que se acham


Chabadabadá
"Xico Sá é um sábio escriba do Crato que ganhou o mundo e se tornou cidadão de tantas paragens quantas já tiveram a honra de sua presença. Neste livro de agudas crônicas nos propõe discutir o papel do homem e da mulher numa nova configuração social que já está dando demais na vista. Os medos, as inseguranças, a coragem delas (e a incapacidade deles) de chorar em público, de dizer “eu te amo”, de comprometer-se. Em suas inúmeras elucubrações, devaneios mil, Xico tenta realizar feitos de Hércules, impossíveis, como o de tentar decifrar os enigmas da mulher. Não chega a muitas conclusões, além do confessado fascínio e reiterada paixão, mas solta uma pérola dos gêneros: “homem é vírgula, mas mulher é ponto final.” O livro é composto de dezenas de pílulas de sapiência ofertadas por este sertanejo cosmopolita, filósofo cearense, oráculo de edificantes e alcoólicas noites, lembrando-nos que “se a vida dói, uísque caubói.”
Continue a leitura em excelente resenha sobre a obra de Xico Sá, acessando:

[...] Em CHABADABADÁ, com o sugestivo subtítulo Aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha, Xico analisa relacionamentos amorosos, o papel do macho moderno, as queixas femininas. Mas vai logo avisando: “Sim, a perdição do macho é real, mas não sou eu que vou procurá-lo, como digo no relato de abertura do livro”. Último dos boêmios, é justamente da boêmia, fonte onde bebe sem temer ressaca, que tira todas as narrativas, chistes, trocadilhos, máximas e frases de efeito.[...]

O homem de agora não é igual ao homem de antes. Depois que as mulheres saíram de casa, tomaram as rédeas e exigiram seus direitos, o macho jurubeba — patriarcal, provedor, senhor do lar — entrou em extinção. Mas o que tomou o seu lugar? O homem sensível? O homem metrossexual? O homem fofo? Neste Café Filosófico, o cronista Xico Sá discute os novos homens e as novas mulheres, e debate como o macho contemporâneo pode lidar com essa realidade tão nova e diferente.


As descrições surreais do conto "Sábado à noite no bar do Bira"

Não há de que se envergonhar. Afinal, há alguns milhares de anos que amamos desvairadamente de todas as formas registradas ou não no Kama Sutra e nos murais de Pompeia. (...) E, embora o que se passa na cama seja segredo de quem ama, nunca houve segredo mais repartido que esse em todos os tempos e culturas. 
(Affonso Romano de Sant’Anna – trecho do texto “O Erotismo nos deixa Gauche?”, prefácio do livro O Amor Natural, de Carlos Drummond de Andrade; Editora Record, Rio de Janeiro, 2007);

Todo sábado às oito da noite vou à região portuária, zona boêmia da cidade, me instalo na mesa oito do bar do Bira, bebo cervejas como um bávaro, e lá, findo a noite para me aprazer com uma mulher ou ocasionalmente com um homem. Com experiência amorosa marginal, das ruas, da noite, creio já ter vivenciado todas as delícias e prazeres sensuais que uma relação a dois, a três, proporciona. Arraigado ao hedonismo do vinho, do sexo, da boa mesa, não me deixo levar pelas rédeas do conservadorismo, da hipocrisia e do recato. Ente devasso e doido manso, escandalizo puritanos e castos saciando meus desejos, desatinos e taras fazendo do amor livre o meu modus vivendi. O cristianismo hedonista de Michel Onfray é minha religião, seu livro: A arte de ter prazer, minha bíblia.
Nessas noitadas sabáticas conheci uma diva; culta cortesã, leitora contumaz dos cânticos sensuais de Salomão, com quem vivo intensos prazeres de alcova; dama dotada de estreita bainha, libertina que não quer descanso quando fode com requintes de puta-rainha; ousada e transgressora, ela devassa os aspectos intelectual, imaginativo, romântico, emocional e obsceno da sexualidade e faz do bar do Bira um reduto da libertinagem.
Num anexo contíguo ao bar funciona um bordel onde sete mulheres – oito no total – incluindo a cafetina Maria Lupanar, compõem o corpo feminino da casa. Apelidada Tabaco de Bronze decorrente do fato que, reconhecidamente, a xoxota dela é a bainha mais estreita daquela paragem ribeirinha, cona de carne rija, de leveza no esfoliar, justa a tal ponto que parece sem lubricidade ao penetrar. Toda a população masculina, incluindo o padre, o pastor, o prefeito e o poeta, coabita no cerne incrustado entre suas pernas. Forte figura feminina que conhece desejos e manhas da alma masculina; doutorada em sexualidade nos prostíbulos da vida, deixa homens e mulheres em desvario pelos prazeres que lhes proporciona em sua lida. Além do sexo, caracteriza-a fisicamente o fascínio do olhar sedutor e fêmeo feito ímãs dos olhos que se escondem atrás de burcas afegãs.
Ao deitar com essa dama no recôndito de sua intimidade, os desejos medram, emocionam, variam, surpreendem; o sexo floresce e vai se misturando com risos, promessas e palavras obscenas; o clímax ganha intensidade com a música, a dança, a poesia e o vinho; o ato incorpora fantasias e elementos afrodisíacos que alentam minha loucura para depois prosseguir na noite em companhia de:

Maria Lolita – ninfeta à Nabokov; sensualidade e desejos à flor da pele; fogosa, irresistível, indomável. Desde sua noite de primícias que seu acentuado apetite sexual só é saciado em ménage à trois por mim e Jesus Jatobá, afamado frequentador que às vezes se faz meu parceiro de cama, de copo e de cruz; únicos que a deixam levitando após os ritos eróticos de uma grande noitada. Maria Lolita sempre dança rebolando sensualmente, e nesses momentos, Jesus Jatobá costuma dizer: Essa cortesã é uma tentação obscena, incita-nos a luxúria e a sodomia; no meio da noite, quando abatida pelo cansaço, se deixa dominar, dorme; sua alma dorme profundamente, seu corpo, ao contrário, se mantém vivo e pleno de feminilidade; descanso sentindo a fragrância que deixa cada palmo do quarto saturado de sua intimidade; quando desperta, ao se afastar do recinto, deixa sempre um rastro abstrato de pura fascinação;

Maria Casmurra – balzaquiana cujo rosto já denota certa materialidade do tempo; em público casta, ensimesmada, sempre resmungando e de mal com a vida, reclama de tudo. Em privado consegue dissimular muito bem o contrário daquilo que aparenta, gosta extremamente do ofício; de palavra depravada, mãos exímias com seus dedos sábios, dedos errantes que adentram meu corpo atrás, na frente, em cima, embaixo, entre, dedos que não brocham; exímia mais ainda com a boca, esse órgão que serve à vida, ao verbo e ao sexo; tem um jeito especial de me beijar o sexo que deixa o mundo rodando, e tudo vai ficando solto, convulso e desconexo;

Maria Gata Mansa – a mais bela e sensual, de gestos mansos, meiga e manhosa; de pele alvinha e sem manchas, mamilos cor-de-rosa, felídea selvagem quando está comigo na cama; assemelha-se demais aos felinos com sua sensualidade agressiva e seu caminhar sigiloso de gata vadia;

Maria de Luanda – conduz a cozinha e a cama com cadência, engenhosidade e arte; de sorriso obsceno, negra fagueira com olor de fêmea no cio; de andar bamboleante, irrequieta nos quadris e na alma; muito chegada a forró e samba-de-roda; encantam-me o rebolado e suas belas curvas negras e carnudas; enlouquece quando escuta: “quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”, seu corpo se contorce com requebros que me deixam em descontrole apalpando, acariciando, beijando, gozando em sua carne íntima suada; e aí: ela fala, ela canta, ela grita, ela fode, ela “morre” na cadência bonita do samba;

Maria Lua Cheia – olhar de cachorro doido e alma andrógina, alma revestida de um masculino invisível; valentia em pessoa, quem a desrespeitar apanha na certa, muito propensa a brigas e devaneios com as outras mulheres; em noite alta de lua cheia se entrega concupiscente às suas amantes já falecidas e, em êxtase, goza e me faz gozar alucinadamente durante horas, e por fim;

Maria Gioconda – riso silencioso de Mona Lisa; enigmática, tímida e frígida, uma pedra, abstrata, alheamento total na cama, nem mesmo Jesus Jatobá, o falo libidinoso do bordel, consegue lhe dar prazer, por mais diminuto que seja. Fraca figura feminina que contém fortalezas dentro de si, alma fugidia, de corpo inalcançável. Apesar de hermética, mantenho estranha relação com ela; excita-me o cheiro canforado que emana de sua cona, arrepios deliciosos percorrem meu corpo, uma cócega sobe entre minhas coxas e se aninha no meu sexo; o odor de sua intimidade me embriaga os sentidos; tenho orgasmos espontâneos.

Excetuando Maria Gioconda, vieram ao mundo para gozar a existência, para o prazer; nenhuma engravida; serão todas infecundas? Na trama e nos instintos são todas iguais às mulheres da minha rua; minha rua atravessa vilas, cidades, países, não há fronteiras. Apenas eu, cobaia de Deus e do Diabo, conheço o hedonismo e infecundidade destas mulheres; por motivo misterioso, pessoal, ou mesmo por teimosia, não revelo a ninguém. Coexisto entre vivos e mortos, tomo corpo em todas elas, me revisto de forma material e trago todas entranhadas em mim; a oitava Maria do bar do Bira sou eu; mais uma entre tantas Marias; lá, sou fêmea de buceta metafísica, lúbrica, lasciva, mulher de alma libertina, de tanto tesão, deliro; me viro do avesso e sou toda vulvar.

Domingo, oito da manhã, deixo o bordel, entro no Gato da Noite, nome oficial do bar do Bira, para a última birra, umas tragadas de inflorescências de cânhamo ou uma viagem lisérgica. Tobinha, o garçom dileto da casa, peito e músculos à mostra, calça arregaçada, botinas rangentes, com vassoura de piaçava e rodo nas mãos, esfrega e lava o chão da calçada do bar. O porto, as ruas, a cidade ainda dormem, afora o bar do Bira onde a noite nunca tem fim. No interior do bar, olhos vermelhos vararam a madrugada, não arredam, espreitam acesos os primeiros movimentos da manhã. Na mesa oito, um malandro mediúnico se arrepia, capta minha presença torpe, sente meu perfume de sândalo misturado com chope, odor delicado de buceta limpa em dia de mormaço quente. Em transe místico observo as outras mesas, numa delas: adolescentes andróginos, dândis, lésbicas e afins; noutra: Aretino, Sade, ninfetas pervertidas e querubins; noutra: ianomâmis masturbam mulheres magras sedentas, noutra: Safo de Lesbos lambe a vulva de uma virgem-prostituta santa e sinistra; avisto também um painel que recobre a parede do fundo com a imagem de Jesus Cristo, Maria Madalena e os apóstolos numa Santa Ceia profana.

Meca da boemia, nesta hora da manhã o Gato da Noite é puro delírio, covil da vadiagem que reúne uma horda de boêmios notívagos, intelectuais, artistas, navegantes e um gato vadio que quando me vê se espreguiça sobre a prateleira para receber afeto; acolhe músicos e cantores dos cabarés, gente da polícia e padres à paisana; aloja ladinos, loucos e exploradores de mulheres; mistura vendedores de haxixe e uma leva diversificada de malandros insones e mulheres livres que zanzam batalhando na noite.

Bebo a última cerveja, belisco a bunda de Bira, levito e saio; ando no leito de paralelepípedos cambaleando lentamente; não sei se sou eu que observo a rua ou se é a rua que me olha; nesta espécie de limbo, minha mente reverbera versos de Zé Ramalho: “há meros devaneios tolos a me torturar”, “e isso explica porque o sexo é assunto popular”.

Vagueio por mundo insondável possuída pela liberdade e pelo imponderável das paixões; corto de fininho o ramo hiperbólico que contorna o cais e sinto no rosto a brisa casta da manhã à espera do próximo sábado...

Vídeo Correlato - A história da cidade romana de Pompeia

A menor mulher do mundo - conto existencial de Clarice Lispector

A escritora, professora e crítica literária Noemi Jaffe apresenta 5 contos de grande representatividade narrativa e existencial. Nesse primeiro vídeo, Noemi discorre sobre o conto A menor mulher do mundo de Clarice Lispector. 



Nas profundezas da África Equatorial o explorador francês Marcel Pretre, caçador e homem do mundo, topou com uma tribo de pigmeus de uma pequenez surpreendente. Mais surpreso, pois, ficou ao ser informado de que menor povo ainda existia além de florestas e distâncias. Então mais fundo ele foi.
No Congo Central descobriu realmente os menores pigmeus do mundo. E – como uma caixa dentro de uma caixa, dentro de uma caixa – entre os menores pigmeus do mundo estava o menor dos menores pigmeus do mundo, obedecendo talvez à necessidade que às vezes a Natureza tem de exceder a si própria.
Entre mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada. “Escura como um macaco”, informaria ele à imprensa, e que vivia no topo de uma árvore com seu pequeno concubino. Nos tépidos humores silvestres, que arredondam cedo as frutas e lhes dão uma quase intolerável doçura ao paladar, ela estava grávida.
Ali em pé estava, portanto, a menor mulher do mundo. Por um instante, no zumbido do calor, foi como se o francês tivesse inesperadamente chegado à conclusão última. Na certa, apenas por não ser louco, é que sua alma não desvairou nem perdeu os limites. Sentindo necessidade imediata de ordem, e de dar nome ao que existe, apelidou-a de Pequena Flor. E, para conseguir classificá-la entre as realidades reconhecíveis, logo passou a colher dados a seu respeito.
Sua raça de gente está aos poucos sendo exterminada. Poucos exemplares humanos restam dessa espécie que, não fosse o sonso perigo da África, seria povo alastrado. Fora doença, infectado hálito de águas, comida deficiente e feras rondantes, o grande risco para os escassos Likoualas está nos selvagens Bantos, ameaça que os rodeia em ar silencioso como em madrugada de batalha. Os Bantos os caçam em redes, como fazem com os macacos. E os comem. Assim: caçam-nos em redes e os comem. A racinha de gente, sempre a recuar e a recuar, terminou aquarteirando-se no coração da África, onde o explorador afortunado a descobriria. Por defesa estratégica, moram nas árvores mais altas. De onde as mulheres descem para cozinhar milho, moer mandioca e colher verduras; os homens, para caçar. Quando um filho nasce, a liberdade lhe é dada quase que imediatamente. É verdade que muitas vezes a criança não usufruirá por muito tempo dessa liberdade entre feras. Mas é verdade que, pelo menos, não se lamentará que, para tão curta vida, longo tenha sido o trabalho. Pois mesmo a linguagem que a criança aprende é breve e simples, apenas essencial. Os Likoualas usam poucos nomes, chamam as coisas por gestos e sons animais. Como avanço espiritual, têm um tambor. Enquanto dançam ao som do tambor, um machado pequeno fica de guarda contra os Bantos, que virão não se sabe de onde.
Foi, pois, assim que o explorador descobriu, toda em pé e a seus pés, a coisa humana menor que existe. Seu coração bateu porque esmeralda nenhuma é tão rara. Nem os ensinamentos dos sábios da Índia são tão raros. Nem o homem mais rico do mundo já pôs olhos sobre tanta estranha graça. Ali estava uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais pudera imaginar. Foi então que o explorador disse, timidamente e com uma delicadeza de sentimentos de que sua esposa jamais o julgaria capaz:
– Você é Pequena Flor.
Nesse instante Pequena Flor coçou-se onde uma pessoa não se coça. O explorador – como se estivesse recebendo o mais alto prêmio de castidade a que um homem, sempre tão idealista, ousa aspirar – o explorador, tão vivido, desviou os olhos.
A fotografia de Pequena Flor foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural. Enrolada num pano, com a barriga em estado adiantado. O nariz chato, a cara preta, os olhos fundos, os pés espalmados. Parecia um cachorro.
Nesse domingo, num apartamento, uma mulher, ao olhar no jornal aberto o retrato de Pequena Flor, não quis olhar uma segunda vez “porque me dá aflição”.
Em outro apartamento uma senhora teve tal perversa ternura pela pequenez da mulher africana que – sendo tão melhor prevenir que remediar – jamais se deveria deixar Pequena Flor sozinha com a ternura da senhora. Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho. A senhora passou um dia perturbada, dir-se-ia tomada pela saudade. Aliás era primavera, uma bondade perigosa estava no ar.
Em outra casa uma menina de cinco anos de idade, vendo o retrato e ouvindo os comentários, ficou espantada. Naquela casa de adultos, essa menina fora até agora o menor dos seres humanos. E, se isso era fonte das melhores carícias, era também fonte deste primeiro medo do amor tirano. A existência de Pequena Flor levou a menina a sentir – com uma vaguidão que só anos e anos depois, por motivos bem diferentes, havia de se concretizar em pensamento – levou-a a sentir, numa primeira sabedoria, que “a desgraça não tem limites”.
Em outra casa, na sagração da primavera, a moça noiva teve um êxtase de piedade:
– Mamãe, olhe o retratinho dela, coitadinha! olhe só como ela é tristinha!
– Mas – disse a mãe, dura e derrotada e orgulhosa – mas é tristeza de bicho, não é tristeza humana.
– Oh! mamãe – disse a moça desanimada.
Foi em outra casa que um menino esperto teve uma ideia esperta:
– Mamãe, e se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho enquanto ele está dormindo? quando ele acordasse, que susto, hein! que berro, vendo ela sentada na cama! E a gente então brincava tanto com ela! a gente fazia ela o brinquedo da gente, hein!
A mãe dele estava nesse instante enrolando os cabelos em frente ao espelho do banheiro, e lembrou-se do que uma cozinheira lhe contara do tempo de orfanato. Não tendo boneca com que brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixou mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor. Então olhou para o filho esperto como se olhasse para um perigoso estranho. E teve horror da própria alma que, mais que seu corpo, havia engendrado aquele ser apto à vida e à felicidade. Assim olhou ela, com muita atenção e um orgulho inconfortável, aquele menino que já estava sem os dois dentes da frente, a evolução, a evolução se fazendo, dente caindo para nascer o que melhor morde. “Vou comprar um terno novo para ele”, resolveu olhando-o absorta. Obstinadamente enfeitava o filho desdentado com roupas finas, obstinadamente queria-o bem limpo, como se limpeza desse ênfase a uma superficialidade tranquilizadora, obstinadamente aperfeiçoando o lado cortês da beleza. Obstinadamente afastando-se, e afastando-o, de alguma coisa que devia ser “escura como um macaco”. Então, olhando para o espelho do banheiro, a mãe sorriu intencionalmente fina e polida, colocando, entre aquele seu rosto de linhas abstratas e a cara crua de Pequena Flor, a distância insuperável de milênios. Mas, com anos de prática, sabia que este seria um domingo em que teria de disfarçar de si mesma a ansiedade, o sonho, e milênios perdidos.
Em outra casa, junto a uma parede, deram-se ao trabalho alvoroçado de calcular com fita métrica os quarenta e cinco centímetros de Pequena Flor. E foi aí mesmo que, em delícia, se espantaram: ela era ainda menor que o mais agudo da imaginação inventaria. No coração de cada membro da família nasceu, nostálgico, o desejo de ter para si aquela coisa miúda e indomável, aquela coisa salva de ser comida, aquela fonte permanente de caridade. A alma ávida da família queria devotar-se. E, mesmo, quem já não desejou possuir um ser humano só para si? O que, é verdade, nem sempre seria cômodo, há horas em que não se quer ter sentimentos:
– Aposto que se ela morasse aqui terminava em briga – disse o pai sentado na poltrona, virando definitivamente a página do jornal. – Nesta casa tudo termina em briga.
– Você, José, sempre pessimista – disse a mãe.
– A senhora já pensou, mamãe, de que tamanho será o nenenzinho dela? – disse ardente a filha mais velha de treze anos.
O pai mexeu-se atrás do jornal.
– Deve ser o bebê preto menor do mundo – respondeu a mãe, derretendo-se de gosto. –
Imagine só ela servindo a mesa aqui em casa! e de barriguinha grande!
– Chega dessas conversas! – engrolou o pai.
– Você há de convir – disse a mãe inesperadamente ofendida – que se trata de uma coisa rara. Você é que é insensível.
E a própria coisa rara?
Enquanto isso, na África, a própria coisa rara tinha no coração – quem sabe se negro também, pois numa Natureza que errou uma vez já não se pode mais confiar – enquanto isso a própria coisa rara tinha no coração algo mais raro ainda, assim como o segredo do próprio segredo: um filho mínimo. Metodicamente o explorador examinou com o olhar a barriguinha do menor ser humano maduro. Foi neste instante que o explorador, pela primeira vez desde que a conhecera, em vez de sentir curiosidade ou exaltação ou vitória ou espírito científico, o explorador sentiu mal-estar.
É que a menor mulher do mundo estava rindo.
Estava rindo, quente, quente. Pequena Flor estava gozando a vida. A própria coisa rara estava tendo a inefável sensação de ainda não ter sido comida. Não ter sido comida era algo que, em outras horas, lhe dava o ágil impulso de pular de galho em galho. Mas, neste momento de tranquilidade, entre as espessas folhas do Congo Central, ela não estava aplicando esse impulso numa ação – e o impulso se concentrara todo na própria pequenez da própria coisa rara. E então ela estava rindo. Era um riso como somente quem não fala, ri. Esse riso, o explorador constrangido não conseguiu classificar. E ela continuou fruindo o próprio riso macio, ela que não estava sendo devorada. Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida. Enquanto ela não estava sendo comida, seu riso bestial era tão delicado como é delicada a alegria. O explorador estava atrapalhado.
Em segundo lugar, se a própria coisa rara estava rindo, era porque, dentro de sua pequenez, grande escuridão pusera-se em movimento.
É que a própria coisa rara sentia o peito morno do que se pode chamar de Amor. Ela amava aquele explorador amarelo. Se soubesse falar e dissesse que o amava, ele inflaria de vaidade. Vaidade que diminuiria quando ela acrescentasse que também amava muito o anel do explorador e que amava muito a bota do explorador. E quando este desinchasse desapontado, Pequena Flor não compreenderia por quê. Pois, nem de longe, seu amor pelo explorador – pode-se mesmo dizer seu “profundo amor”, porque, não tendo outros recursos, ela estava reduzida à profundeza – pois nem de longe seu profundo amor pelo explorador ficaria desvalorizado pelo fato de ela também amar sua bota. Há um velho equívoco sobre a palavra amor, e, se muitos filhos nascem desse equívoco, tantos outros perderam o único instante de nascer apenas por causa de uma suscetibilidade que exige que seja de mim, de mim! que se goste, e não de meu dinheiro. Mas na umidade da floresta não há desses refinamentos cruéis, e amor é não ser comido, amor é achar bonita uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha. Pequena Flor piscava de amor, e riu quente, pequena, grávida, quente.
O explorador tentou sorrir-lhe de volta, sem saber exatamente a que abismo seu sorriso respondia, e então perturbou-se como só homem de tamanho grande se perturba. Disfarçou ajeitando melhor o chapéu de explorador, corou pudico. Tornou-se uma cor linda, a sua, de um rosa esverdeado, como a de um limão de madrugada. Ele devia ser azedo.
Foi provavelmente ao ajeitar o capacete simbólico que o explorador se chamou à ordem, recuperou com severidade a disciplina de trabalho, e recomeçou a anotar. Aprendera a entender algumas das poucas palavras articuladas da tribo, e a interpretar os sinais. Já conseguia fazer perguntas.
Pequena Flor respondeu-lhe que “sim”. Que era muito bom ter uma árvore para morar, sua, sua mesmo. Pois – e isso ela não disse, mas seus olhos se tornaram tão escuros que o disseram – pois é bom possuir, é bom possuir, é bom possuir. O explorador pestanejou várias vezes.
Marcel Pretre teve vários momentos difíceis consigo mesmo. Mas pelo menos ocupou-se em tomar notas e notas. Quem não tomou notas é que teve de se arranjar como pôde:
– Pois olhe – declarou de repente uma velha fechando o jornal com decisão – pois olhe, eu
só lhe digo uma coisa: Deus sabe o que faz.
[Conto extraído do livro "Laços de Família" Editora Rocco - Edição Digital: Fev/2013]

Leia excelente resenha sobre o conto, em:
[homoliteratus.com/wesley-peres-resenha-a-menor-mulher-do-mundo-de-clarice-lispector]

Saiba mais sobre a vida e obra de Clarice Lispector, acessando:
[www.rocco.com.br/especial/claricelispector]

A Terceira Margem do Rio - João Guimarães Rosa





[Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.]

Seguindo a série sobre contos existenciais, Noemi Jaffe discorre sobre A Terceira Margem do Rio de Guimarães Rosa. Veja e depois corra para a biblioteca.



A trajetória do autor através de entrevistas com parentes, amigos e estudiosos de sua obra. O programa usa o acervo da TV Cultura para mostrar como as histórias e a linguagem única do escritor serviram de inspiração para filmes, músicas e exposições.


A Ficção Minimalista de Carlos Barbosa





"Com o poder de síntese e a linguagem precisa, às vezes dura, outras poética, desta vez Carlos Barbosa traz à tona 80 minicontos no livro A Segunda Sombra (Editora Multifoco/RJ, 2010). Flashes da vida, já que insinua muito mais do que conta uma história, seja em momentos de revelação ou de situação-limite, ponta de um iceberg submerso na consciência do leitor, convidado a reconstruir o que leu, o miniconto é também a sombra de um conto, caso se possa admitir que o conto é, por sua vez, a silhueta de um romance. Se o bom conto é aquele em que a história fica em aberto, o miniconto soa com uma fímbria de luz em um quarto escuro, luz que não clareia, mas convida à claridade exterior. Este subgênero do conto, minimalista, agora em moda e, ao mesmo tempo, a apontar para um difícil poder de concisão – como o axioma – e uma certa indolência criativa (algo como a pressa de terminar o que ainda poderia ser esticado, já que tratamos, aqui, de sugestões de histórias), tem o efeito de perturbar o leitor e tirá-lo de seu comodismo habitual. O miniconto jamais responde. Indaga e levanta suspeitas. Porta aberta para a imaginação, o miniconto, portanto, comporta diferentes interpretações, ao gosto do leitor. 
[...] 
Sombra luminosa do conto, o miniconto tem em Carlos Barbosa um esgrimista hábil de histórias portáteis." 
[Texto de Elieser Cesar, jornalista e escritor, em Resenha publicada na edição de 25.09.2010, no Caderno 2+ do jornal A Tarde, Salvador-BA]


Veja entrevista com o escritor no canal da Assembleia Legislativa da Bahia:

Tchekhov, mestre do conto em dezoito histórias


"Tchekhov é um daqueles autores cuja inteligência é tão poderosa que por um momento somos seduzidos pelo prazer de acreditar no progresso humano, na evolução moral da espécie; então, em seguida, vemos que na verdade ele nada mais é que um gigante, uma anomalia, talvez um anjo, e que é bem possível que não tenhamos outro igual nos próximos mil anos."
Russell Banks

Além de ter escrito peças teatrais que se tornaram célebres, como O jardim das cerejeiras, Anton Tchekhov [1860-1904] gravou para sempre o seu nome na história das artes graças aos contos, gênero literário que praticou com maestria, em abundância e criando uma vertente nova. Exímio contador de histórias [Tolstói chamou-o de "um incomparável artista da vida"], pintou a Rússia rural e as pequenezas da condição humana. Os contos aqui reunidos são exemplares do estilo do autor. São atmosféricos, cheios de um sentimento de sabedoria e compaixão; a caracterização psicológica dos personagens e das situações têm mais peso do que eventuais reviravoltas de enredo. Com humor, perspicácia, honestidade e, sobretudo, amor pelas pessoas, a arte de Tchekhov demonstra através dos séculos o poder transcendente de sensibilizar e de, partindo de detalhes cotidianos, iluminar a vida humana.

18 histórias do mestre do Conto, tradução do russo e apresentação de Tatiana Belinky, Coleção L&PM POCKET