ESCRITORES

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“Cantantis Fricotis, Arretadus Sumus. Axé-Babá, Dendê Est”

Brasília – Eu não sei o que a Bahia está fazendo que ainda não se tornou independente desse País engrezilhado e empepinado que é o Brasil! Saibam os senhores, senhoras e senhorinhas que me leem que até os gaúchos – um povo muito bom e decente, mas que vive para chupar bomba de mate e chamar os outros de tchê – pensam em mais uma vez se independizar, num repeteco pouco glorioso da República de Piratini, enquanto a gente, na Bahia, fica no bem-bom, logo a gente que tem experiência de independência, bastante lembrar o escarcéu que fizemos com os portugueses aí pelos odes ao Dois de Julho

Ora, se naquela época, quando a Bahia não era a Bahia de hoje, a gente jogou pesado na chamada pugna imensa, travada nos cerros, e ganhou a independência no berro, por que logo hoje, em sendo a Bahia a potência industrial, cultural, artística, culinária, religiosa, futebolística, política e outras íticas mis que é, nos damos por conformados e ficamos atrelados aos grilhões vis que nos prendem a um Brasil que deve a gato e cachorro e que todo mundo esculhamba no estrangeiro? Onde está o bom senso e a razão, a valentia e o tesão desse vetusto povo baiano, que ainda não descobriu que tem tudo para fazer da Bahia Velha de Guerra um próspero país, verdadeira ilha da felicidade dos trópicos, com suas fronteiras e símbolos, hinos e bandeiras? 

Creio que é tudo uma questão de fazer a hora. Não importa quem, se um vereador de Quijingue, ou um deputado por Pilão Arcado, se um negão da Boca do Rio ou o Beijoca, alguém tem que se munir de uma arma – uma faca – três tostões – ou um badoque, uma espingarda de socar pela boca ou um prato de arraia mijona – e, erguendo-a aos céus, bradar, do alto de um trio ou de cima de um jegue, do Largo da Mariquita ou às margens plácidas do Dique do Tororó, um grito qualquer que, por originalidade, não deveria ser Independência ou Morte, mas algo tão viril quanto “nóis baiano samos fogo e num queremo mais zorra nenhuma com o Brasil. Vamos botá pra ferver...!” Aí é só fechar as fronteiras e esperar que a brasileirada esperneie, porque só vai ficar no esperneio mesmo, que essa raça de frouxo não é de nada, e depois não vai querer passar o vexame que o povo muito mais especial já passou por aqui, quando quis procurar lera com a gente. Quem duvidar que pergunte aos holandeses, de quem antepassados, em momento de má inspiração, invadiram a Bahia e, ou viraram pirão pra xaréu e baiacu, nas águas de Itaparica, ou tiveram que se picar encagaçados ante nossa fúria patriótica. 

Pela luz que me alumia (enquanto a Coelba não entra em greve!) que temos tudo para ser independentes. 
Autossuficientes em petróleo e em candidatos à Presidência da República, temos também, no dizer de nossos locutores de rádio (que são, igualmente, os melhores do mundo) “o maior carnaval de rua de todo o universo”. A nossa música é a nossa música e de não mais ninguém e o nosso Bahêa é esse time que os senhores bem conhecem e que está – ele sim, a verdadeira Seleção – a dar pau em time de tudo quanto é canto do mundo, até mesmo da Venezuela. E as nossas muitas milhas marítimas? Haverá porventura outras tão azuis-verdejantes, piscosas e belas? 

Até de língua somos ímpares. Falamos um dialeto que tem que ser traduzido juramentadamente para os não-iniciados, não é mesmo meu Rei? No campo da mulherada, sem duplo sentido, matamos a pau, também. É só lembrar Marta Vasconcelos e o outra Marta, a Rocha, a das duas polegadas a mais. Temos Academia Bahiana de Letras, escritores sem livros, cineastas sem filmes, e poetas sem rimas. Temos uma religião oficial, eclética, bela e eficaz, que mistura santo com comida, pipoca-branca com hóstia, encruzilhada com catedral e coruja-ebó com monsenhor, de maneiras que a independência está às mãos, é só alguém virar cavalo de Simon Bolívar ou D. Pedro, inflar o impávido peito (sem esquecer de comprimir os efluviais gases de dandá e milome) e dar um nó de corpo na História, fazendo da Bahia um novo e glorioso país. Com dívidas também, é bem verdade, mas com toda a disposição de sentar com os credores, em volta de umas brahmas com pititingas fritas e arreglar: “Devemos, não negamos, pagaremos quando puder, de formas que em vez de nos preocupar porque lhes devemos, vocês é que têm que se preocupar, não é verdade? A propósito, o doutor aí não quer um acarajé, por acaso?”. 

Tenho a absoluta certeza de que seríamos ainda mais felizes. Não sei se terei vida e saúde para ainda ver tremulando nos mastros o novo pavilhão nacional da Bahia. Como vocês sabem, pimenta e birita são duas desgraças para o fígado. E em sendo assim, não há fígado que sempre dure nem cirrose que nunca se acabe. Já pensou, tremulando aos céus da Bahia, o altaneiro pendão encarnado, azul e branco, centralizado por um alguidá fervilhante e transbordante de esfuziante moqueca de siri-mole, tendo bem abaixo, escrito em letras indeléveis, o nosso lema: “Cantantis Fricotis, Arretadus Sumus. Axé-Babá, Dendê Est”? O que significa? E eu sei lá, mas se o senhor, por falta de melhor fazer, sair pelo mundo lendo lemas de bandeiras, constatará que todos eles também não significam zorra nenhuma...

Texto hilariante do Jornalista Fernando Vita, extraído de Ultraleve – Livro de crônicas editado pelo jornal A Tarde, 1989, idealização e coordenação editorial de Tasso Franco com ilustrações e capa de Setúbal. Textos de Cora Lima, Fernando Vita, Chico Ribeiro, Alex Ferraz, José Augusto Berbert, José Umberto, Luís Eduardo Dórea, Marcos Venâncio, Oleone Coelho Fontes, Setúbal, Péricles Diniz, Sérgio de Souza e Tasso Franco, o qual, pontua com duas crônicas: O cemitério das almas e How do you do, baby?

Para saber mais sobre a obra do jornalista Tasso Franco, acesse:
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