ESCRITORES

ESCRITORES
Mostrando postagens com marcador Stella Florence. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stella Florence. Mostrar todas as postagens

Em seu terceiro romance, Stella Florence vai à essência das questões físicas e psicológicas ocasionadas pelo estupro

Stella Florence - Eu me possuo
É possível abordar com leveza um tema tão duro quanto o estupro sem perder a profundidade? A escritora Stella Florence, autora do romance Eu me possuo, garante que sim: "Eu foquei o livro não na violência sexual que a protagonista sofre, mas na superação dela".
Sobre o novo romance, Stella afirma: “É muito comum agressores serem pessoas conhecidas e eu quis abordar essa questão sempre coberta pelo silêncio e a vergonha”. O início da carta que Karina escreve a Gustavo, o estuprador, dá o tom da narrativa: “O fato de eu ter me sentido atraída por você, ter ido a sua casa, ter desejado transar com você, não significa que você poderia me violentar. Desejar um homem não é o mesmo que desejar ser estuprada por ele”.

Leia um trecho no qual a protagonista (Karina) envia uma carta para o seu estuprador:
"Naquela noite, eu dei um nó no meu vestido para disfarçar o rasgo que você fez e me limpei como pude no elevador. Fiquei perambulando pela rua meio tonta, depois entrei num táxi e fui para casa da minha avó. Fui direto para o chuveiro limpar aquilo de mim. Me senti suja, me senti culpada, me senti inferior, me senti até ruim de cama: carreguei por muito tempo acusações que serviam para você, não para mim. Minha falta de experiência me fez acreditar que a culpa era minha, que eu apertei algum botão maldito em você e que talvez sexo fosse aquele horror mesmo. Por isso eu me mantive em silêncio. Mas meu corpo gritava! Em três meses eu engordei quinze quilos tentando me tornar incapaz de instigar desejo num homem, tentando criar uma segunda e grossa pele que me afastasse da dor. E pelos seis anos seguintes eu me mantive trancada.
Se eu pudesse voltar no tempo, eu diria àquela menina assustada o que permiti que minha avó me dissesse anos mais tarde no chão do seu banheiro: que eu não tive culpa, que a sujeira daquilo tudo não estava em mim, que aquela coisa medonha tinha nome e que o nome feio dela é estupro, que sexo não era aquilo e que aquela experiência não poderia me definir nem definir o resto da minha vida. Foi um caminho longo e árduo, mas terminou.
Hoje essa carne mais macia, mais fértil de células e sensações, é parte de mim. Meu corpo não me afasta da vida, do prazer, dos homens interessantes – dos óbvios, sim, mas os óbvios eu não quero. Hoje eu gozo, Gustavo, no sexo e muito além dele. E quem forjou a chave para abrir meu cativeiro fui eu. A força que hoje me habita é criação minha. Eu me possuo. Ninguém mais."



Saiba mais sobre a vida e obra da autora, acessando:
[www.stellaflorence.net]

Escrita Criativa, Por: Eliane Brum, Stella Florence e Xico Sá

"Começo a escrever dentro de mim. Vou ao computador com o texto já em mim. Resolvo os meus conflitos pela escrita"

Tanto na reportagem como na ficção começo a escrever dentro de mim. Sou intuitiva na minha escrita. Dificilmente tenho bloqueios, porque quando vou para o computador a história já está dentro de mim.
O processo é como uma gestação. A reportagem começa em um movimento interno de esvaziamento - da visão de mundo, dos preconceitos, dos julgamentos. Sei que nunca vou me esvaziar por completo - não podemos esquecer que somos seres históricos. Volto preenchida pela voz que é do outro, pela história do outro. Fico com um humor muito particular, não converso por ninguém. Chego de viagens, de experiências incríveis e só consigo falar depois de escrever.
Na ficção é outro processo: o de ser possuído pela própria voz, pelas vozes do seu subterrâneo que você nem sabia que tinha. Também é uma apuração - dos seus interiores. Ela também começa dentro de mim. É um processo totalmente solitário. É preciso aguentar a angústia [...] 

"Escrever é cortar o ego do escritor. A técnica deve misturar-se à criação sem que percebamos"

Há uma frase atribuída ao Rubem Fonseca que considero perfeita: "Escrever é um labirinto cuja dificuldade não é encontrar a saída, mas a entrada".
Quando se encontra a entrada do texto, tem-se tudo - e não há como forçar esse encontro.
Eu costumava organizar notas, blocos, cadernos, até perceber que eu jamais esquecia o que realmente iria virar texto. Agora eu deixo que a memória funcione como um filtro.
De resto, trabalho todos os dias, em horários flutuantes.
Não tenho manias ou necessidades externas. Preciso apenas de concentração (isso pode acontecer em casa, num aeroporto, num bar, desde que não falem comigo) [...]

"Uma boa abertura é fundamental para vencer o déficit de atenção do leitor de hoje"

Nessa correria de hoje está todo mundo com déficit de atenção. Uma boa abertura é fundamental para abrir a porta ao leitor. Sem um bom começo há mais dificuldade na leitura. Penso numa frase de maior impacto para prender o leitor.
A linguagem com termos pouco usuais funciona, chama a atenção. No texto de internet, que é para o povo mais apressado ainda, jogo adiante dois ou três significados do termo, até brincando com ele. Para livros não tenho essa preocupação, pois imagino um leitor com mais reflexão, que possa ter o entendimento por ele mesmo. São expressões às vezes regionais, que eram usuais no português em desuso.
Acredito que tenha diminuído muito o tamanho do repertório no Brasil.
Quando o texto não sai, às vezes dou uma caminhada [...]
LEIA TEXTO INTEGRAL: Por, Alceu Luís Castilho na [REVISTA LÍNGUA PORTUGUESA]