ESCRITORES

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As descrições surreais do conto "Sábado à noite no bar do Bira"

Não há de que se envergonhar. Afinal, há alguns milhares de anos que amamos desvairadamente de todas as formas registradas ou não no Kama Sutra e nos murais de Pompeia. (...) E, embora o que se passa na cama seja segredo de quem ama, nunca houve segredo mais repartido que esse em todos os tempos e culturas. 
(Affonso Romano de Sant’Anna – trecho do texto “O Erotismo nos deixa Gauche?”, prefácio do livro O Amor Natural, de Carlos Drummond de Andrade; Editora Record, Rio de Janeiro, 2007);

Todo sábado às oito da noite, como sempre, vou à região portuária, zona boêmia da cidade, me instalo na mesa oito do bar do Bira, bebo cervejas como um bávaro, e lá, findo a noite para me aprazer com uma mulher ou ocasionalmente com um homem. Com a experiência que tenho de vivência amorosa marginal, das ruas, da noite, creio já ter vivenciado todas as delícias e prazeres sensuais que uma relação a dois, a três..., proporciona. Ente arraigado ao hedonismo do vinho, do sexo, da boa mesa, não me deixo comandar pelas rédeas do conservadorismo moral, da hipocrisia e do recato. Um tanto devasso e doido manso, escandalizo puritanos e castos saciando meus desejos, desatinos e taras fazendo do amor livre o meu modus vivendi. O cristianismo hedonista de Michel Onfray é minha religião, seu livro: “A arte de ter prazer”, minha bíblia.
Nas minhas noitadas sabáticas conheci uma diva; culta cortesã, leitora contumaz dos cânticos sensuais de Salomão, com quem vivo intensos prazeres de alcova; dama dotada de estreita bainha, libertina que parece não querer descanso quando fode com requintes de puta-rainha; ousada e transgressora, ela devassa os aspectos intelectual, imaginativo, romântico, emocional e obsceno da sexualidade e faz do bar do Bira um reduto da libertinagem.
Num anexo contíguo ao bar funciona um bordel onde sete mulheres – oito no total – incluindo a cafetina Maria Lupanar, apelidada tabaco de bronze, compõem o corpo feminino da casa. O apelido "Tabaco de Bronze" decorre do fato que, reconhecidamente, a xoxota dela é a bainha mais estreita daquela paragem ribeirinha, cona de carne rija, de leveza no esfoliar, justa a tal ponto que parece sem lubricidade ao penetrar. Toda a população masculina, incluindo o padre, o pastor, o prefeito e o poeta, coabita no cerne incrustado entre suas pernas. Forte figura feminina que conhece desejos e manhas da alma masculina; doutorada em sexualidade nos prostíbulos da vida, deixa homens e mulheres em desvario pelos prazeres que ela lhes proporciona em sua lida. Além do sexo, caracteriza-a fisicamente o fascínio do olhar: sedutor e fêmeo como ímãs dos olhos que se escondem atrás de burcas afegãs.
Ao deitar com essa dama no recôndito de sua intimidade, os desejos medram, emocionam, variam, surpreendem; o sexo floresce e vai se misturando com risos, promessas e palavras obscenas; o clímax ganha intensidade com a música, a dança, a poesia e o vinho; o ato incorpora fantasias e elementos afrodisíacos que alentam minha loucura para prosseguir na noite em companhia de...
Maria Lolita – ninfeta à Nabokov; a mais desejada; irradia sensualidade e desejos arrebatados; fogosa, irresistível, indomável. Desde sua noite de primícias que seu acentuado apetite sexual só é saciado em ménage à trois por mim e Jesus Jatobá, afamado frequentador, que às vezes se faz meu parceiro de cama, de copo e de cruz; únicos que a deixam levitando após os ritos eróticos de uma grande noitada. Quando Maria Lolita dança rebolando sensualmente, Jesus Jatobá costuma dizer: “Essa pequena cortesã é uma tentação obscena, incita-nos a luxúria e a sodomia”; e no meio da noite, quando abatida pelo cansaço, ela se deixa dominar, dorme; sua alma dorme profundamente, mas seu corpo, ao contrário, se mantém vivo e pleno de feminilidade; e eu descanso sentindo a fragrância que deixa cada palmo do quarto saturado de sua intimidade; e quando desperta, ao se afastar do recinto, ela deixa sempre um rastro abstrato de pura fascinação; e depois...
Maria Casmurra – balzaquiana cujo rosto já denota certa materialidade do tempo; em público casta, ensimesmada, sempre resmungando e de mal com a vida, reclama de tudo. Em privado consegue dissimular muito bem o contrário daquilo que aparenta, gosta extremamente do ofício; de palavra depravada, mãos exímias com seus dedos sábios, dedos errantes que adentram meu corpo atrás, na frente, em cima, embaixo, entre, dedos que não brocham; exímia mais ainda com a boca, esse órgão que serve à vida, ao verbo e ao sexo; tem um jeito especial de me beijar o sexo que deixa o mundo rodando, e tudo vai ficando solto, convulso e desconexo; e mais...
Maria Gata Mansa – a mais bela e sensual, de gestos mansos, meiga e manhosa; de pele alvinha e sem manchas, mamilos cor-de-rosa, felídea selvagem quando está comigo na cama; assemelha-se demais aos felinos com sua sensualidade agressiva e seu caminhar sigiloso de gata vadia; e então...
Maria de Luanda – conduz a cozinha e a cama com cadência, engenhosidade e arte; de sorriso obsceno, negra fagueira com olor de fêmea no cio; de andar bamboleante, irrequieta nos quadris e na alma; muito chegada a um forró e samba-de-roda; me encantam o rebolado e suas belas curvas negras e carnudas; enlouquece quando escuta: “quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”, seu corpo se contorce com requebros que me deixam em descontrole apalpando, acariciando, beijando, gozando em sua carne íntima suada; e aí: ela fala, ela canta, ela grita, ela fode, ela “morre” na cadência bonita do samba; e ainda...
Maria Lua Cheia – olhar de cachorro doido e alma andrógina, alma revestida de um masculino invisível; valentia em pessoa, quem a desrespeitar apanha na certa, muito propensa a brigas e devaneios com as outras mulheres; em noite alta de lua cheia se entrega concupiscente às suas amantes já falecidas e, em êxtase, goza e me faz gozar alucinadamente durante horas; e por fim...
Maria Gioconda – riso silencioso de Mona Lisa; enigmática, tímida e frígida, uma pedra, abstrata, alheamento total na cama, nem mesmo Jesus Jatobá, o falo libidinoso do bordel, consegue lhe dar prazer, por mais diminuto que seja. Fraca figura feminina que contém fortalezas dentro de si, alma fugidia, de corpo inalcançável. Apesar de hermética, mantenho estranha relação com ela; me excita o cheiro canforado que emana de sua cona, arrepios deliciosos percorrem meu corpo, uma cócega sobe entre minhas coxas e se aninha no meu sexo; o odor de sua intimidade me embriaga os sentidos; tenho orgasmos espontâneos.
Hedonistas inconscientes, excetuando Maria Gioconda, parecem ter vindo ao mundo para gozar a existência, para o prazer. Nenhuma engravida; serão todas infecundas?, e se dizem minhas esposas; na trama e nos instintos são todas como as mulheres da minha rua, e minha rua atravessa vilas, cidades, países, não há fronteiras. O hedonismo e infecundidade destas mulheres, só eu, cobaia de Deus e do Diabo, conheço. E que, por motivo misterioso, pessoal, ou mesmo por teimosia, não revelo a ninguém. Coexisto entre vivos e mortos, tomo corpo em todas elas, me revisto de forma material e trago todas entranhadas em mim; sou a oitava Maria do bar do Bira, mais uma entre tantas Marias; no bordel do bar do Bira, sou fêmea de buceta metafísica, lúbrica, lasciva; sou mulher de alma libertina. Estando lá, de tanto tesão, deliro; me viro do avesso e sou toda vulvar.
Domingo, oito da manhã, deixo o bordel, entro no “Gato da Noite”, nome oficial do bar do Bira, para a última birra, umas tragadas de inflorescências de cânhamo ou uma viagem lisérgica. Tobinha, o garçom dileto da casa, peito e músculos à mostra, calça arregaçada, botinas rangentes, com vassoura de piaçava e rodo nas mãos, esfrega e lava o chão da calçada do bar. O porto, as ruas, a cidade ainda dormem, afora o bar do Bira onde a noite é infinda, parece eterna. No interior do bar, olhos vermelhos vararam a madrugada, não arredam, espreitam acesos os primeiros movimentos da manhã. Na mesa oito, um malandro mediúnico se arrepia, capta minha presença torpe, sente meu perfume de sândalo misturado com chope, odor delicado de buceta limpa em dia de mormaço quente. Em transe místico observo as outras mesas, numa delas: adolescentes andróginos, dândis, lésbicas e afins; noutra: Aretino, Sade, ninfetas pervertidas e querubins; noutra: ianomâmis masturbam mulheres magras sedentas, noutra: Safo de Lesbos lambe a vulva de uma virgem-prostituta santa e sinistra; avisto também um painel que recobre a parede do fundo com a imagem de Jesus Cristo, Maria Madalena e os apóstolos numa Santa Ceia profana.
Meca da boemia, nesta hora da manhã o Gato da Noite é puro delírio, covil da vadiagem que reúne uma horda de boêmios notívagos: intelectuais, artistas, navegantes e um gato vadio que quando me vê se espreguiça sobre a prateleira para receber afeto; acolhe músicos e cantores dos cabarés, gente da polícia e padres à paisana; aloja ladinos, loucos e exploradores de mulheres; mistura vendedores de haxixe e uma leva diversificada de malandros insones e mulheres livres que zanzam batalhando na noite.
        Bebo a última cerveja, belisco a bunda de Bira, levito e saio; ando no leito de paralelepípedos cambaleando lentamente; não sei se sou eu ou se é a rua que me olha; nesta espécie de limbo, minha mente reverbera versos de Zé Ramalho: “há meros devaneios tolos a me torturar”, “E isso explica porque o sexo é assunto popular” e vagueia por mundos insondáveis possuída pela liberdade e pelo imponderável das paixões; corto de fininho o ramo hiperbólico que contorna o cais e sinto no rosto a brisa casta da manhã à espera do próximo sábado...

Vídeo Correlato - A história da cidade romana de Pompeia

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