ESCRITORES

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Da poeta ao inevitável - Maria Giulia Pinheiro

[...] Sua poética é definitivamente uma poética do corpo, desdobrado em um caleidoscópio imagético. Como bem coloca o professor Welington Andrade no prefácio, “é o exercício daquela escritura do corpo de que nos fala Roland Barthes”. “Uhum” apresenta um sistemático desmantelo da carne, posto em moção por um rito sexual antropófago, que tange os limites do incorpóreo, do indizível. Ao fim, só nos sobra o poder sugestivo das interjeições: “aham/ aham./ uhum.”
E o corpo revelado pela poeta é, constantemente, uma presença em transfiguração, afetada pela guerra sem quartel da metáfora. Assim, a voz humana que nos sopra impropérios líricos eventualmente se torna “cão”, mundana, ou até mesmo alguma das deusas do Olimpo, divina. Aliás, é na seção intitulada “Seis Deusas” que residem alguns de seus mais fortes textos, como “Per se” e “Afrodisíaca”.
Transitando pelos domínios do prosaico e do extraordinário, do sagrado e do profano, Maria Giulia constrói um livro substancial. Uma ressalva: a abundância de poemas, em sua maioria relativamente longos, subtrai aos textos mais interessantes um pouco de sua capacidade de ressonância. O volume é irregular, porém generoso, reservando-nos diversos momentos de sensibilidade e lirismo. Mais uma saborosa estreia promovida pela Patuá, que tem privilegiado os novos escritores. Fique atento aos próximos jorros cáusticos da poeta.
Para ler o texto completo, acesse: [www.musarara.com.br/inevitavelmente-poeta]
Para conhecer melhor os textos de Maria Giulia, acesse: [oconvento.wordpress.com]

Autora do livros de poemas Da Poeta ao Inevitável, Alteridade e Avessamento, Maria Giulia Pinheiro estudou jornalismo, teatro e ciências sociais, mas trabalha como roteirista, diretora, dramaturga, produtora e atriz. Escreve poesias há quatro anos e se arrisca, nas horas vagas, a contos curtos. Formou-se na Cásper Líbero e no Teatro Escola Célia Helena e ainda cursa a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. É diretora e dramaturga do grupo de pesquisas teatrais Companhia e Fúria e coordena o Grupo de Pesquisas Artísticas de Pulsões Femininas. Acredita que existe uma batalha a ser travada no campo do imaginário: criar realidades de poder feminino e explorar arquétipos diferentes do herói guerreiro. Escreveu o manifesto Por um imaginário em que explora as contradições desta luta artística. 

Para ler outros poemas de Maria Giulia Pinheiro, acesse:

Videopoema - Afrodisíaca


Todos os namoradinhos que tive
matei de amores. 
Depois, passei. 

Eles,
alucinados pela vertigem que produzi, 
diante do vermelho abismo sexo,
vomitaram palavras de louvor
até acabar com tudo o que queimava dentro. 

Eles,
insuportáveis resquícios do que foi o 
furacão libidinal em 
clara casca calma com que os destruí, 
não me encaram, se me veem. 

Eles,
todos,
me trocaram por mulheres mais fáceis, 
cabelos lisos e impecáveis, 
frequentadoras assíduas da academia de ginástica. 

Quando pensam em mim, 
eles
e elas, 
têm tremeliques de medo e tesão. 

Só um 
não me substituiu por uma mulher mais fácil:
namora um modelo de cuecas Armani 
e vive bem. 

Afrodisíaca foi publicado em "Da Poeta ao Inevitável", de Maria Giulia, em 2013, pela Editora Patuá, no caderno "Seis Deusas".
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