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O realismo insólito, tenso e hipnótico de Samanta Schweblin

Escritora argentina mais representativa da nova geração, Samanta Schweblin sempre escreveu sem jamais imaginar que viveria do seu ofício. Ganhadora do "Prêmio Casa De las Américas" em 2008, seus contos instigantes ganharam o mundo e hoje ela tem livros publicados em vários países, inclusive no Brasil. Suas opiniões sobre a nova literatura latino-americana e uma viagem por seus contos fantásticos fazem dela a herdeira de Borges, Cortázar e Bioy Casares, mestres da literatura argentina em textos curtos.


Primeiro livro de Samanta Schweblin publicado no Brasil, "Pássaros na boca", é uma antologia de contos que demonstra por que a escritora argentina é considerada a herdeira literária de mestres do realismo fantástico como Borges, Bioy Casares e Julio Cortázar. As dezoito histórias integrantes da obra principiam com situações cotidianas que vão, pouco a pouco, assumindo contornos insólitos, por vezes aterrorizantes. São homens e mulheres, jovens e crianças diante de um mundo hostil em que, de um instante para outro, sem qualquer ruptura ou explicação, o que parecia normal deixa de ser, e de maneira irreversível.



Uma narrativa hipnótico, incômoda e fascinante O campo se transformou diante de nossos olhos sem que ninguém percebesse. Talvez não se trate de estiagens ou de herbicidas – e sim do fio vital e afiado que nos prende a nossos filhos, e do veneno que lançamos sobre eles. "Distância de resgate" acompanha esta fatalidade vertiginosa fazendo sempre as mesmas perguntas: Existe por acaso algum apocalipse que não seja pessoal? Qual é o ponto exato em que, sem saber, damos o passo em falso que acaba nos condenando? Samanta Schweblin escreveu uma narrativa extraordinária e hipnótica, urgente e duradoura, que consegue nos manter inevitavelmente presos e imersos num universo ficcional perturbador.






Parabólicas e Mandacarus - Onde eu nasci passa um rio - Conto I

ONDE EU NASCI PASSA UM RIO

Onde eu nasci passa um rio

Que passa no igual sem fim

Igual sem fim minha terra

Passava dentro de mim

CAETANO VELOSO

 





Vou a Riopara, me disseram que ela vai desaparecer. Vão represar o rio no Salto de Santana do Sobrado, meu pai me disse em sua última carta.

O ônibus descia a estreita escarpa da Serra das Araras Azuis quando descortinou na paisagem, por entre todas as cores que o sol do entardecer concede, aquilo que eu sabia estar sendo visto pela última vez: a natureza que servia de berço a Riopara aprazia aos olhos e cativava o espírito pela intensidade da beleza; a vista do entorno espantava qualquer cansaço; límpidas praias temporárias, lagoas, baixios, ilhas, barcos e velas na direção do rio; rochedos, montes e serras no rumo da caatinga. Sobressaía nessa geografia uma abóbada celeste que sempre esteve mais próxima da terra do que em qualquer outro lugar e a água do rio lambendo cariciosa o grande lábio da margem onde a cidadezinha subsistia vivendo seus últimos instantes.

- Vamos até o morro do cruzeiro; de lá do alto, dar pra gente ver tudo.

Meu pai chamou fitando meu rosto com olhar transcendente de quem adivinhava o revés que estava por vir.

- É bom irmos logo!, em pouco tempo a água começa a cobrir o cais.

 Após alertar, ele se fez silêncio durante todo o caminho e apenas suas firmes passadas faziam com que eu não me sentisse só; em nossa companhia eram dezenas agora e pairava no ar o prenúncio trágico de que algo ia ter fim e alguma coisa indeterminada ia começar quando as águas irromperam pelas aberturas da balaustrada do cais.

Do alto do antigo cruzeiro, sobre a parte que ainda restava da bela base maciça de alvenaria, eu e meu pai, envoltos em semicírculo por uma densidade humana, contemplávamos com absoluta consternação o rio avançar sobre a urbe despovoada em vaga fluvial volumosa, e numa enchente diluviana, submergir vastas extensões de terra, vilarejos, veredas, plantações; templos, terreiros e antigos casarões; praças, ruas, estradas e o sepulcro das almas que nos eram familiares, e que, segundo os olhos videntes de meu pai, a água afogava até o espírito dos mortos, e estes julgando que já fosse o juízo final, saíam de seus túmulos para andar sobre as águas à procura dos caminhos que se bifurcam para o inferno, purgatório ou direto ao paraíso.

Março, manhã, mormaço no vale são-franciscano; intensa luz solar projetava lume cintilante sobre a superfície das águas quando chegou o dia de Riopara partir em derradeira viagem para imergir no fluxo universal do tempo. Levou tudo consigo: singularidade, crenças, histórias e reminiscências; sua essência fluviocaatingueira, sonhos, pesadelos e um século e meio de pecados cometidos. Nas últimas horas daquele apocalipse adiantado no tempo submergiu com seu vistoso casario, não adiantou a força e a fúria de seus deuses, totens, anjos e demônios; desapareceu com sua concepção do mundo, sua ancestralidade, seu modo de menina, suas idiossincrasias, seus imponderáveis e sua felicidade libertina.

Introspectivo, olhos lacrimosos por ter sido desterrado, como se quisesse afugentar sentimentos dolorosos, meu pai discursou: as cidades, do mesmo modo que os seres vivos que se originam de minúsculas células, nascem de diminutos vilarejos anteriores, reproduzem-se, desenvolvem-se, conurbam-se. Há aquelas que eventualmente morrem. Umas são de índole agreste, selvagens, violentas, cheiram mal, confundem e suicidam devagarinho seus habitantes; há outras que, de tão aprazíveis, tudo à sua volta iluminam e suavizam, parecem avencas altivas e delicadas. Entre as derradeiras, desde sempre, esteve Riopara.

No prelúdio da idade, sem ter ainda conhecido a mutualidade do sexo ou de um amor maior, sem ter feito qualquer coisa de memorável e desolado com a destruição, de súbito senti meu corpo a mover-se sob as águas noutra forma de vida, revivendo num Salminus brevidens - peixe tubarana, piraju, peixe dourado. E naquele instante em que reiniciava vivência com outra aparência física, um cheiro forte de terra seca desvirginada pelas águas da cheia impregnou a atmosfera. Talvez faltasse apenas uma hora, talvez menos, até Riopara ficar submersa e sumir no horizonte seus últimos vestígios.

O desalento daquele dia ficou para sempre marcado em mim vendo Riopara jazer imersa sob uma planície líquida na vastidão de um lago antrópico; aves itinerantes cruzavam o céu em arribação procurando pouso noutras paragens; por baixo d'água, a vida inteira daquele lugar repousava na memória, no aroma e no remanso das águas do “Velho Chico”.

Antes que o sol desse dia decaísse, com a existência preservada em recente corpo físico, sumi no seio do rio em busca dos cardumes dourados para recomeçar outra vida, esse imenso mistério.


Para ler o segundo conto, acesse:

O bar, o bordel e oito mulheres hedonistas - II

O bar, o bordel e oito mulheres hedonistas
Um fascinante mergulho na vida hedonista, muitas vezes espantosa e instigante de um narrador-personagem que se mantém incógnito até quase o final da narrativa. Sem apelações pornográficas, este conto surpreende pelo erotismo apresentado em suas inumeráveis formas: do romântico ao dark, passando pelo surreal, louco e obsceno. Mais do que um conto erótico, "O bar, o bordel e oito mulheres hedonistas" oferece ao leitor oito micro-histórias de mulheres que se envolvem (mesmo involuntariamente) ao culto e hedonismo do sexo com beleza, lascívia e delicadeza de estilo....

Leia um trecho do conto extraído do Google Books: 

Contos da Meia-noite II - Teledramaturgia de textos de autores consagrados da Literatura Brasileira

Programas de até 10 minutos inspirados em textos de autores consagrados da literatura nacional. Entre os escritores selecionados estão Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Machado de Assis, Mário de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Antônio Alcântara Machado e Clarice Lispector. Oitenta e nove programas foram gravados com Marília Pêra, Matheus Nachtergaele, Antônio Abujamra, Maria Luísa Mendonça, Beth Goulart, Giulia Gam e outros renomados atores.
Em cena, grandes atores interpretaram os contos dos maiores autores da literatura brasileira, destacando algum personagem central do texto. Foram utilizados os recursos de projeção de imagens sobre os atores e aplicação de texturas e sombras, criando uma interpretação para o texto.

A moralista - Conto de Dinah Silveira de Queiroz  interpretado por Maria Luisa Mendonça.



Relógio de Pêndulo - Conto de Menalton Braff  interpretado por Lázaro Ramos.



Diário de amor de um moço delicado - Conto de Ribeiro Couto interpretado por Matheus Nachtergaele.

A menor mulher do mundo - conto existencial de Clarice Lispector

A escritora, professora e crítica literária Noemi Jaffe apresenta 5 contos de grande representatividade narrativa e existencial. Nesse primeiro vídeo, Noemi discorre sobre o conto A menor mulher do mundo de Clarice Lispector. 



Nas profundezas da África Equatorial o explorador francês Marcel Pretre, caçador e homem do mundo, topou com uma tribo de pigmeus de uma pequenez surpreendente. Mais surpreso, pois, ficou ao ser informado de que menor povo ainda existia além de florestas e distâncias. Então mais fundo ele foi.
No Congo Central descobriu realmente os menores pigmeus do mundo. E – como uma caixa dentro de uma caixa, dentro de uma caixa – entre os menores pigmeus do mundo estava o menor dos menores pigmeus do mundo, obedecendo talvez à necessidade que às vezes a Natureza tem de exceder a si própria.
Entre mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada. “Escura como um macaco”, informaria ele à imprensa, e que vivia no topo de uma árvore com seu pequeno concubino. Nos tépidos humores silvestres, que arredondam cedo as frutas e lhes dão uma quase intolerável doçura ao paladar, ela estava grávida.
Ali em pé estava, portanto, a menor mulher do mundo. Por um instante, no zumbido do calor, foi como se o francês tivesse inesperadamente chegado à conclusão última. Na certa, apenas por não ser louco, é que sua alma não desvairou nem perdeu os limites. Sentindo necessidade imediata de ordem, e de dar nome ao que existe, apelidou-a de Pequena Flor. E, para conseguir classificá-la entre as realidades reconhecíveis, logo passou a colher dados a seu respeito.
Sua raça de gente está aos poucos sendo exterminada. Poucos exemplares humanos restam dessa espécie que, não fosse o sonso perigo da África, seria povo alastrado. Fora doença, infectado hálito de águas, comida deficiente e feras rondantes, o grande risco para os escassos Likoualas está nos selvagens Bantos, ameaça que os rodeia em ar silencioso como em madrugada de batalha. Os Bantos os caçam em redes, como fazem com os macacos. E os comem. Assim: caçam-nos em redes e os comem. A racinha de gente, sempre a recuar e a recuar, terminou aquarteirando-se no coração da África, onde o explorador afortunado a descobriria. Por defesa estratégica, moram nas árvores mais altas. De onde as mulheres descem para cozinhar milho, moer mandioca e colher verduras; os homens, para caçar. Quando um filho nasce, a liberdade lhe é dada quase que imediatamente. É verdade que muitas vezes a criança não usufruirá por muito tempo dessa liberdade entre feras. Mas é verdade que, pelo menos, não se lamentará que, para tão curta vida, longo tenha sido o trabalho. Pois mesmo a linguagem que a criança aprende é breve e simples, apenas essencial. Os Likoualas usam poucos nomes, chamam as coisas por gestos e sons animais. Como avanço espiritual, têm um tambor. Enquanto dançam ao som do tambor, um machado pequeno fica de guarda contra os Bantos, que virão não se sabe de onde.
Foi, pois, assim que o explorador descobriu, toda em pé e a seus pés, a coisa humana menor que existe. Seu coração bateu porque esmeralda nenhuma é tão rara. Nem os ensinamentos dos sábios da Índia são tão raros. Nem o homem mais rico do mundo já pôs olhos sobre tanta estranha graça. Ali estava uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais pudera imaginar. Foi então que o explorador disse, timidamente e com uma delicadeza de sentimentos de que sua esposa jamais o julgaria capaz:
– Você é Pequena Flor.
Nesse instante Pequena Flor coçou-se onde uma pessoa não se coça. O explorador – como se estivesse recebendo o mais alto prêmio de castidade a que um homem, sempre tão idealista, ousa aspirar – o explorador, tão vivido, desviou os olhos.
A fotografia de Pequena Flor foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural. Enrolada num pano, com a barriga em estado adiantado. O nariz chato, a cara preta, os olhos fundos, os pés espalmados. Parecia um cachorro.
Nesse domingo, num apartamento, uma mulher, ao olhar no jornal aberto o retrato de Pequena Flor, não quis olhar uma segunda vez “porque me dá aflição”.
Em outro apartamento uma senhora teve tal perversa ternura pela pequenez da mulher africana que – sendo tão melhor prevenir que remediar – jamais se deveria deixar Pequena Flor sozinha com a ternura da senhora. Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho. A senhora passou um dia perturbada, dir-se-ia tomada pela saudade. Aliás era primavera, uma bondade perigosa estava no ar.
Em outra casa uma menina de cinco anos de idade, vendo o retrato e ouvindo os comentários, ficou espantada. Naquela casa de adultos, essa menina fora até agora o menor dos seres humanos. E, se isso era fonte das melhores carícias, era também fonte deste primeiro medo do amor tirano. A existência de Pequena Flor levou a menina a sentir – com uma vaguidão que só anos e anos depois, por motivos bem diferentes, havia de se concretizar em pensamento – levou-a a sentir, numa primeira sabedoria, que “a desgraça não tem limites”.
Em outra casa, na sagração da primavera, a moça noiva teve um êxtase de piedade:
– Mamãe, olhe o retratinho dela, coitadinha! olhe só como ela é tristinha!
– Mas – disse a mãe, dura e derrotada e orgulhosa – mas é tristeza de bicho, não é tristeza humana.
– Oh! mamãe – disse a moça desanimada.
Foi em outra casa que um menino esperto teve uma ideia esperta:
– Mamãe, e se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho enquanto ele está dormindo? quando ele acordasse, que susto, hein! que berro, vendo ela sentada na cama! E a gente então brincava tanto com ela! a gente fazia ela o brinquedo da gente, hein!
A mãe dele estava nesse instante enrolando os cabelos em frente ao espelho do banheiro, e lembrou-se do que uma cozinheira lhe contara do tempo de orfanato. Não tendo boneca com que brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixou mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor. Então olhou para o filho esperto como se olhasse para um perigoso estranho. E teve horror da própria alma que, mais que seu corpo, havia engendrado aquele ser apto à vida e à felicidade. Assim olhou ela, com muita atenção e um orgulho inconfortável, aquele menino que já estava sem os dois dentes da frente, a evolução, a evolução se fazendo, dente caindo para nascer o que melhor morde. “Vou comprar um terno novo para ele”, resolveu olhando-o absorta. Obstinadamente enfeitava o filho desdentado com roupas finas, obstinadamente queria-o bem limpo, como se limpeza desse ênfase a uma superficialidade tranquilizadora, obstinadamente aperfeiçoando o lado cortês da beleza. Obstinadamente afastando-se, e afastando-o, de alguma coisa que devia ser “escura como um macaco”. Então, olhando para o espelho do banheiro, a mãe sorriu intencionalmente fina e polida, colocando, entre aquele seu rosto de linhas abstratas e a cara crua de Pequena Flor, a distância insuperável de milênios. Mas, com anos de prática, sabia que este seria um domingo em que teria de disfarçar de si mesma a ansiedade, o sonho, e milênios perdidos.
Em outra casa, junto a uma parede, deram-se ao trabalho alvoroçado de calcular com fita métrica os quarenta e cinco centímetros de Pequena Flor. E foi aí mesmo que, em delícia, se espantaram: ela era ainda menor que o mais agudo da imaginação inventaria. No coração de cada membro da família nasceu, nostálgico, o desejo de ter para si aquela coisa miúda e indomável, aquela coisa salva de ser comida, aquela fonte permanente de caridade. A alma ávida da família queria devotar-se. E, mesmo, quem já não desejou possuir um ser humano só para si? O que, é verdade, nem sempre seria cômodo, há horas em que não se quer ter sentimentos:
– Aposto que se ela morasse aqui terminava em briga – disse o pai sentado na poltrona, virando definitivamente a página do jornal. – Nesta casa tudo termina em briga.
– Você, José, sempre pessimista – disse a mãe.
– A senhora já pensou, mamãe, de que tamanho será o nenenzinho dela? – disse ardente a filha mais velha de treze anos.
O pai mexeu-se atrás do jornal.
– Deve ser o bebê preto menor do mundo – respondeu a mãe, derretendo-se de gosto. –
Imagine só ela servindo a mesa aqui em casa! e de barriguinha grande!
– Chega dessas conversas! – engrolou o pai.
– Você há de convir – disse a mãe inesperadamente ofendida – que se trata de uma coisa rara. Você é que é insensível.
E a própria coisa rara?
Enquanto isso, na África, a própria coisa rara tinha no coração – quem sabe se negro também, pois numa Natureza que errou uma vez já não se pode mais confiar – enquanto isso a própria coisa rara tinha no coração algo mais raro ainda, assim como o segredo do próprio segredo: um filho mínimo. Metodicamente o explorador examinou com o olhar a barriguinha do menor ser humano maduro. Foi neste instante que o explorador, pela primeira vez desde que a conhecera, em vez de sentir curiosidade ou exaltação ou vitória ou espírito científico, o explorador sentiu mal-estar.
É que a menor mulher do mundo estava rindo.
Estava rindo, quente, quente. Pequena Flor estava gozando a vida. A própria coisa rara estava tendo a inefável sensação de ainda não ter sido comida. Não ter sido comida era algo que, em outras horas, lhe dava o ágil impulso de pular de galho em galho. Mas, neste momento de tranquilidade, entre as espessas folhas do Congo Central, ela não estava aplicando esse impulso numa ação – e o impulso se concentrara todo na própria pequenez da própria coisa rara. E então ela estava rindo. Era um riso como somente quem não fala, ri. Esse riso, o explorador constrangido não conseguiu classificar. E ela continuou fruindo o próprio riso macio, ela que não estava sendo devorada. Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida. Enquanto ela não estava sendo comida, seu riso bestial era tão delicado como é delicada a alegria. O explorador estava atrapalhado.
Em segundo lugar, se a própria coisa rara estava rindo, era porque, dentro de sua pequenez, grande escuridão pusera-se em movimento.
É que a própria coisa rara sentia o peito morno do que se pode chamar de Amor. Ela amava aquele explorador amarelo. Se soubesse falar e dissesse que o amava, ele inflaria de vaidade. Vaidade que diminuiria quando ela acrescentasse que também amava muito o anel do explorador e que amava muito a bota do explorador. E quando este desinchasse desapontado, Pequena Flor não compreenderia por quê. Pois, nem de longe, seu amor pelo explorador – pode-se mesmo dizer seu “profundo amor”, porque, não tendo outros recursos, ela estava reduzida à profundeza – pois nem de longe seu profundo amor pelo explorador ficaria desvalorizado pelo fato de ela também amar sua bota. Há um velho equívoco sobre a palavra amor, e, se muitos filhos nascem desse equívoco, tantos outros perderam o único instante de nascer apenas por causa de uma suscetibilidade que exige que seja de mim, de mim! que se goste, e não de meu dinheiro. Mas na umidade da floresta não há desses refinamentos cruéis, e amor é não ser comido, amor é achar bonita uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha. Pequena Flor piscava de amor, e riu quente, pequena, grávida, quente.
O explorador tentou sorrir-lhe de volta, sem saber exatamente a que abismo seu sorriso respondia, e então perturbou-se como só homem de tamanho grande se perturba. Disfarçou ajeitando melhor o chapéu de explorador, corou pudico. Tornou-se uma cor linda, a sua, de um rosa esverdeado, como a de um limão de madrugada. Ele devia ser azedo.
Foi provavelmente ao ajeitar o capacete simbólico que o explorador se chamou à ordem, recuperou com severidade a disciplina de trabalho, e recomeçou a anotar. Aprendera a entender algumas das poucas palavras articuladas da tribo, e a interpretar os sinais. Já conseguia fazer perguntas.
Pequena Flor respondeu-lhe que “sim”. Que era muito bom ter uma árvore para morar, sua, sua mesmo. Pois – e isso ela não disse, mas seus olhos se tornaram tão escuros que o disseram – pois é bom possuir, é bom possuir, é bom possuir. O explorador pestanejou várias vezes.
Marcel Pretre teve vários momentos difíceis consigo mesmo. Mas pelo menos ocupou-se em tomar notas e notas. Quem não tomou notas é que teve de se arranjar como pôde:
– Pois olhe – declarou de repente uma velha fechando o jornal com decisão – pois olhe, eu
só lhe digo uma coisa: Deus sabe o que faz.
[Conto extraído do livro "Laços de Família" Editora Rocco - Edição Digital: Fev/2013]

Leia excelente resenha sobre o conto, em:
[homoliteratus.com/wesley-peres-resenha-a-menor-mulher-do-mundo-de-clarice-lispector]

Saiba mais sobre a vida e obra de Clarice Lispector, acessando:
[www.rocco.com.br/especial/claricelispector]

O Realismo Mágico Ficcional de Fábio Bahia




Contos Fantásticos baseados na mitologia grega, romana, nórdica e brasileira, o livro Ferramentas dos Deuses – Contos Fantásticos, do escritor Fábio Bahia é um trabalho do gênero ficcional fantástico, cujas histórias principais são de teor mitológico, com base na teoria de que ainda nos dias de hoje, existam entre nós as Ferramentas do Deuses e que tais ferramentas são na verdade adventos tecnológicos. 
Para saber mais sobre a obra, acesse:

"O mérito desta obra não está apenas na utilização das estruturas a milênios entalhadas no nosso inconsciente, mas na conservação das características presentes nos mitos que são, em verdade, arquétipos ancestrais que correspondem a um imenso conjunto de crenças e valores comportamentais do ser humano. Mas a obra não para por aí, pois o autor também se serve da crença de que os instrumentos utilizados pelos deuses são também, ou teriam sido, ferramentas de altíssima tecnologia, como descrito pelos teóricos do Astronauta Antigo, para os quais determinados artefatos e construções, de propósito e origem desconhecidos, aparentam ter exigido uma capacidade tecnológica mais sofisticada durante sua manufatura do que aquela atribuída pelos historiadores às respectivas culturas antigas. Assim, com uma narrativa segura, Ferramentas dos Deuses se configura em uma obra destinada a agradar em cheio tanto o público jovem quanto o mais experimentado. "  Gustavo Felicíssimo [Escritor].

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